Grupo de 32 mães e 5 pais luta para criar ambulatório transgênero em Salvador

Comportamento, Social
29 de maio de 2016
por Genilson Coutinho

João Hugo: R$ 10 mil para retirada de seios e sem apoio para pós-operatório em Salvador (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Nunca gostei dos meus intrusos”, dispara, agora cheio de confiança, João Hugo Cerqueira, 22. Ele, que trabalha como gerente no mercadinho do irmão, avisou para a mãe que iria para Brasília realizar um sonho. Saiu de Itinga, em Lauro de Freitas, com uma amiga, no último dia 8. No dia seguinte, já estava deitado numa das salas do Instituto de Cirurgia do Lago, na capital federal, onde fez uma mamoplastia masculinizadora – cirurgia para retirada dos seios. E os intrusos foram embora na segunda, dia 9.

O procedimento, feito com o cirurgião plástico Erick Carpaneda, referência para homens trans, custou R$ 10 mil, incluindo passagens para Brasília. João levantou a grana por quase cinco meses, juntando economia até de uma vaquinha online. Mas, de volta à Bahia, é com os conselhos de amigas enfermeiras que ele se vira no pós-operatório.

A capital não tem um ambulatório especializado no atendimento a transgêneros e transexuais nem possui centros habilitados para as cirurgias. O drama vivido por João Hugo e por outros homens e mulheres trans na Bahia é acompanhado pelo grupo formado em Salvador por 32 mães e três pais de jovens gays – o Mães pela Diversidade.

Eles lutam junto com a equipe médica do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), da Universidade Federal da Bahia (Ufba), para que a unidade consiga a habilitação do Ministério da Saúde para criar um ambulatório transgênero.

O grupo, que abre hoje a Parada Gay de São Paulo, recentemente conseguiu a abertura do Centro de Referência Municipal LGBT. Com o ambulatório, a população trans de Salvador teria acesso a atendimento especializado – mas não à Atenção Básica.

Apenas cinco hospitais fazem cirurgia transgenital pelo SUS no Brasil

Para a coordenadora do Mães pela Diversidade na Bahia, Inês Silva, a abertura do ambulatório é urgente. “Já temos algumas pessoas da equipe e existe uma pressão da Defensoria Pública, do Ministério Público e da Mães. Conseguimos cinco cirurgias para homens trans em Brasília, mas isso é papel do Estado. Muitos  aplicam hormônios indiscriminadamente”, diz Inês.

O estudante de Educação Física Bruno Santana, 27, que integra o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat) na Bahia e é um dos cinco jovens baianos acompanhados pelo grupo, acredita na mobilização. “Tenho muito medo por causa desse retrocesso político que a gente tem visto. Mas, se depender do movimento social, sai ainda este ano”, diz.

Bruno fez a mesma cirurgia que João Hugo em janeiro, também em Brasília. E também teve medo do pós-operatório. “Voltei pensando em como seria a retirada dos pontos em Salvador, por medo de ser mais uma vez violentado e desrespeitado nas unidades de saúde. Consegui por indicação da minha sogra uma enfermeira particular”, conta.

Empenho médico

A médica endocrinologista Luciana Barros Oliveira, que trabalha no Hupes e é professora da Ufba, encabeça o projeto. Segundo ela, têm sido feitas reuniões com as secretarias de Saúde do estado (Sesab) e do município (SMS), além da Defensoria Pública do Estado, no sentido de viabilizar a implantação do serviço. “A busca pelo ambulatório é fazer a habilitação tanto para o atendimento clínico como cirúrgico. Já temos cirurgiões treinados para essas cirurgias. O que não há ainda é a habilitação do ambulatório”.

Segundo ela, é preciso capacitar toda a equipe para atender às especificidades da população trans. “E não é só a capacitação da equipe médica. É do porteiro ao recepcionista. Existe uma vontade de que aconteça ainda este ano. A gente está trabalhando para isso”, afirma.

Segundo a administração do Hupes, “há um diálogo entre as partes interessadas para viabilizar o processo”. Procurada, a Sesab informou que, depois que o pedido de habilitação é feito, ele entra na pauta da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), que encaminha o pedido ao Ministério da Saúde. No entanto, o pedido ainda não havia chegado ao ministério até a tarde da última terça-feira.

O CORREIO procurou o Ministério Público Estadual e a Defensoria Público do Estado para falar sobre o acompanhamento da demanda, mas os órgãos não se manifestaram até a última quarta.

Internet é consultório de trans

Uma das demandas de homens e mulheres trans é a hormonioterapia, uma espécie de reposição hormonal. Mas, sem um ambulatório específico, muitos acabam tomando os hormônios por conta própria. Enquanto o estudante de Educação Física Bruno Santana, 27 anos, recorreu a outros homens trans mais experientes antes de conseguir acompanhamento na faculdade onde estuda, o gerente João Hugo Cerqueira, 22, foi buscar ajuda na internet.

Foi na rede que ele encontrou informações sobre quais hormônios tomar e quais as dosagens recomendadas. Antes de fazer a cirurgia, João Hugo fez exames para verificar as taxas hormonais e percebeu que a testosterona livre estava um pouco acima do normal. “Aí eu aumentei o tempo da aplicação para estabilizar a testosterona livre. A gente vai se cuidando, sabe? A gente aprende a se cuidar, porque o nosso corpo sempre manda informação pra gente, se ele está legal, se ele não está”, relata.

A endocrinologista Luciana Barros Oliveira alerta para os riscos disso, principalmente porque é comum se tomar doses acima do necessário. “Existe uma crença de que quanto maior a dose, melhor o resultado, e não é verdade. Essa é uma luta dos endocrinologistas que trabalham com a população trans, porque é difícil convencê-los a usar a dose recomendada”.

Segundo ela, a sobredose aumenta o risco de doenças hepáticas e alterações em todos os órgãos. Ela também alerta para cirurgias caseiras, feitas especialmente com o uso de silicone industrial, na tentativa de dar curvas ao corpo. “Há uma série de complicações e esse tipo de silicone, que não é usado por médicos, extravasa frequentemente. E tanto o resultado estético fica pior, quanto é impossível ser removido cirurgicamente”, explica.

A travesti Brenda Alberlock, 34, morreu, na última segunda-feira, de infecção generalizada após aplicar silicone industrial nas nádegas. Ela estava internada desde o dia 29 de abril no Hospital do Subúrbio e não resistiu às complicações do quadro de saúde.

Do Correio da Bahia