Sobre gays, viadinhos e preconceito socioeconômico

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20 de janeiro de 2012
por Genilson Coutinho

Neste último mês, dois textos (de autoria de um ator transformista da capital baiana, e que foram publicados em seu perfil no Facebook – reproduzidos abaixo) nos chamaram a atenção e decidimos escrever sobre eles. Por que? Porque algumas coisas não podem ser ignoradas e porque cidadãos que sofrem preconceito deveriam ser mais solidários uns com os outros.

TEXTO 1: A POLÊMICA

“GAYS E VIADINHOS Ontem observando a movimentação no Farol da Barra e adjacências fiquei a divagar no pensamento vendo a fauna circulante e pude perceber claramente que dentro do meio homossexual, mais precisamente do masculino, existem dois perfis muito distintos , que por falta de uma nomenclatura mais apropriada, chamarei aqui de GAYS e de VIADINHOS. Apesar de aparentemente pertecerem à mesma classe (homossexuais) seus comportamentos, códigos, conduta e até aparência são muito díspares entre si …basta um olhar mais apurado sobre a questão. Os gays se inserem normalmente a paisagem local…os viadinhos se destacam, é quase um recorte na multidão; Os gays flertam, paqueram…os viadinhos intimam, intimidam, passam a mão; Os gays usam as tendências da moda à seu favor…os viadinhos, quando n estão c o jeans da irmã mais nova 3 numerações abaixo da sua, usa TUDO q ouviram falar q está “na moda”, se nenhum critério estético; Os gays cortam os cabelos, hidratam, cuidam…os viadinhos usam esculturas capilares horrendas e pegajosas; Os gays compram cerveja, vodkca, água, champanhe…os viadinhos não compram nada: esperam que alguém lhes ofereça; Os gays cantavam junto com a Daniela Mercury as maravilhosas composições de Chico Buarque…os viadinhos gritava: canta Maimbê, canta Maimbê!!!!! Os gays ao encontrarem um amigo o abraçava ou dava dois beijos no rosto…os viadinhos gritavam ensandecidos, não sei o porque; Os gays após o show sentaram-se ns bares p comer ou beber algo…os viadinhos peraneciam saracotiando pelas ruas como se o asfalto estivesse em chamas ( aqueles que não foram admirar a vista no fundo do Farol); Os gays depois de uma certa hora, foram para suas casas , ou p a casa de um amigo, namorado ou ficante…os viadinhos continuarm por lá…à espera de um milagre; e, por fim, no dia seguinte os gays acordaram ou p ir p seus trabalhos, ou à praia ou à academia….e os viadinhos….ah, eles ainda n tinham chegado em casa….o tranporte público é cruel nessa cidade!!”

Após a polêmica provocada pelo primeiro texto, veio o segundo, reproduzido abaixo:

TEXTO 2: A RESPOSTA

“Estou extremamente feliz em ver a repercussão que o meu post anterior “Gays e Viadinhos” obteve aqui na rede. Acho q a discussão, a polêmica e o debate sempre são válidos e trazem luz aos temas q devem ser discutidos de forma aberta e demócratica, condições q a internet e suas redes sociais tornaram possíveis.Acho bem mais legal postar algo q instigue o debate do q coisas do tipo:” acabo de abrir a geladeira…como uma maçã ou tomo um iogurte?” Mas devido a alguns comentários (todos aceitos e mantidos!) me sinto com vontade de fazer um comentário mais aprofundado sobre o meu texto anterior, digo comentário, não retratação ou retificação….n mudo uma linha do que disse anteriormente.

Antes de mais nada, assino o texto e o coloco no perfil da Rainha Loulou, um personagem q criei e mantenho a 10 anos. Drag queen, transformista, cross dresser, traveco, bicha de show….n importa a denominação que se use p designar. Um homem, homossexual,assumido,q usa peruca, make, salto e roupas femininas p fazer seu trabalho e/ou se divertir. Dessa forma, como muitos podem supor, um alvo em potencialde preconceito, discriminação e todo tipo de pensamentos, atitudes e julgamentos de caráter ofensivo e desrespeitoso, isso sendo bastante eufemista.

Outro fato é que uma drag queen em como matéria-prima para seu trabalho o humor, a piada, que pode se manifestar de diversas maneiras, seja como uma caracterização ridicularizante, seja com nueros musicais cômicos ou seja através de um texto, como eu fiz. A minha intenção ao escrevê-lo foi fazer humor, fazer rir da mesma forma que ri sozinha ao observar os tipos q cito no meu texto. Não faço julgamento de valores, não digo q gay é bom e viadinho é ruim. Pq acredito piamente q cada um sabe a dor e a delicia de ser o q é. por isso n me sinto na obrigação de ser “politicamente correta”( aliás, odeio essa expressão!!!), quero fazer humor e fazer pensar.

E para terminar e deixar bem claro q , ao contrario dos q alguns talvez por n terem alcançado a piada, me acusaram…n sou preconceituosa, classista nem pequeno-burguesa, eu simplesmente AMO quando meus amigos queridos me chamam de gay safada, viadinho-pão-com-ovo, gay maldita e viadinho quá-quá-quá….e também ADORO chamar meus queridos amigos do meu convivio diário como Valerie, Mitta, Suzzy, Ginna, Bia, etc de viadinhos uó!Rsrsrs

Então p vocês gays q se sentiram a ultima bolacha do pacote e p os viadinhos q se ofenderam…sorry, mas eu escrevi só p vcs rirem um pouquinho, nada mais.”

Na hiperdemocracia americana, o jornalismo pode se dizer livremente de direita ou de esquerda, longe da nossa ilusão ou pretensão de objetividade brasileira, que nada mais é do que encenação. O ativismo político segue a mesma linha e as posições costumam ser bem claras e demarcadas. Nos Estados Unidos, você – jornalista, pessoa pública, cidadão preocupada com um determinado assunto etc – diz A ou B e atura as consequências, visto que a cobrança por parte da opinião pública é intensa, engajada e partidária.

O que isso nos ensina é que, em sendo uma pessoa pública não se pode em uma democracia dizer certas coisas publicamente e esperar que não haja consequências. Porque, no exemplo americano, a ideia de liberdade de expressão nunca é compreendida desvencilhada da ideia de accountability. Ou seja, as pessoas podem ser punidas por manifestarem publicamente opiniões que incitem a criminalidade, por exemplo.

Outra coisa que pode ser aprendida no modelo americano é que hiperdemocracia dá espaço para opiniões extremas regulamentadas pela opinião pública para o bem ou para o mal. Pois talvez estejamos nos tornando uma hiperdemocracia agora que começamos a acordar, através das redes sociais, para o mundo do conflito político e da luta pelos direitos. Mas precisamos repetir os mesmos erros do modelo americano? Achamos que não.

Alguém pode achar, pensar ou acreditar em qualquer coisa, mas o direito a expressar tudo o que você pensa há de ser limitado. Por que? Porque viver em grupo, em sociedade, exige concessões. E não estamos com isso apregoando a volta da ditadura – somos democráticos! – ou algum tipo de censura!

Não queremos censurar. Vamos dar um exemplo. Se um indivíduo é racista, nada o impede de alimentar uma espécie de fé ou crença ou até ideologia racista. No exato momento em que essa pessoa expressa sua corrente de ideias racistas contra um outro indivíduo ou em público – contra a sociedade -, ela está cometendo um crime tipificado no nosso código penal. E não é crime apenas porque está no código penal mas foi tipificado no código penal porque é antiético em acordo com a ética democrática e social brasileira. E porque é antiético em acordo com a ética global expressa na declaração dos direitos humanos – um acordo entre governos e sociedades para o bem comum. Os nossos cidadãos, juntos, entenderam que o racismo é errado porque tem consequências danosas para os mesmos cidadãos representados nesta democracia. O racismo mata, exclui, impede o exercício de direitos naturais como a vida digna com qualidade etc.

De início, parece que o TEXTO 1, que resultou em todas essas reflexões, se reporta a questões de etiqueta ou de quem dá mais pinta. Mas não é bem por aí, o buraco é mais embaixo. Há preconceito socioeconômico no TEXTO 1 e criticá-lo não é um tolhimento à liberdade de expressão. Ou seja, não, não podemos falar tudo sob o pretexto de humor como argumenta o TEXTO 2. Rafinha Bastos, ex-Band, por exemplo, já compreendeu essa lição.

O texto primeiro é extremamente preconceituoso no que diz respeito a perfil socioeconômico e não pode escapar pela tangente em uma alegação irresponsável de humor só porque a popularidade de seu autor garantiu ao texto discriminatório, através do alcance das mídias sociais, uma repercussão muito maior do que a esperada. Não se trata de uma questão de humor politicamente correto ou incorreto. Está implícita naquele texto a tese de que determinadas pessoas, que não seguem a uma determinada gramática gay, não devem ocupar determinados espaços públicos! E quem somos nós para legislar sobre como deve ser o outro a menos que o outro esteja cometendo algum ato desumano?

Há de se fazer humor com o que se deve fazer humor. Falar qualquer coisa de qualquer coisa de qualquer forma não é liberdade de expressão. É irresponsabilidade, ignorância, falta de compaixão pela miséria alheia. Já fora engraçado fazer piadas sobre negros. Hoje é crime de racismo, e em face disto, não se discute se é politicamente correto ou incorreto – É ERRADO. Isso se deu por que de uma forma ou de outra se entendeu que este tipo de piada é inaquada porque reforça preconceitos que atrapalham vidas inteiras. O mesmo tem que se passar quando o assunto é sobre gays. Por que estratificar? O que acontece muito claramente no texto é o fortalecimento da ideia de que ser “gay” (logo, classe média, ou alta) é melhor que ser “viadinho” (pobre e suburbano). Se há uma gramática gay a ser seguida, como sinaliza o TEXTO 1, não podem os heterossexuais dizerem que há uma gramática hetero a ser seguida pelos gays para que eles se tornem… menos gays?

Seguindo a mesma linha de raciocínio do segundo texto, que se apoia na liberdade de expressão citada da constituição brasileira, pastores evangélicos estão autorizados a dizer nos respectivos púlpitos que gays devem cessar de existir (morrer ou mudar). Estamos agora nos alinhando com os inimigos só para fazer graça? Para conseguir seguidores? Para ganhar fama de polêmicos e profundos? Não se pode chegar em Berlin, gritar “Heil Hitler” e dizer, na sequência, “tô de brinks, galera esperta” e esperar que fique tudo bem.

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, liberdade de opinião e expressão aparecem bem depois do direito à vida, do direito à dignidade, da não segregação por gênero, etnia etc, lá no artigo XIX, porque os redatores e signatários daquela declaração entenderam que dignidade, fraternidade, respeito e direito à vida vinham antes em importância.

Então, não, NÃO se pode fazer piada sobre tudo. porque para algo ser engraçado, algo precisa ser ridicularizado. E por que ridicularizar quem tão pouco tem?

O riso é uma forma de nivelamento social, cultural, econômico e pode servir para derrubar do palanque figuras hierarquicamente acima de nós. E o riso tem funcionado costumeiramente assim. Então, a pergunta novamente se impõe, por que derrubar quem já tem pouco? Qual é a graça disso? Ser miserável certamente não é engraçado. Ter pouco não é engraçado. Subsistir ao invés de viver com qualidade também não é engraçado.

É de se admirar alguém trabalhar com entretenimento no Centro de Salvador (um lugar muito pobre no que diz respeito a dinheiro e cachês, mas rico em cultura alternativa) e ridicularizar parte do próprio público. É como cuspir para cima: pode sujar a própria testa.

por João Barreto e Leandro Souza

 João Barreto – Jornalista

 

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.

Twitter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/

 

 

 

Leandro Souza – Estudante e bioinformata

Estudante de engenharia civil, ateu, gay, ativista pelos direitos civis e pelo estado laico.

Twitter: @leosouza84