“Isso foi um crime de homofobia”, diz garçom espancado em Itapuã

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3 de janeiro de 2016
por Genilson Coutinho

Vítima foi carimbada na testa com inscrição bang-bang em vermelho (Foto: Betto Jr./CORREIO)

O vendedor e garçom Romário Ferreira da Silva, 26 anos, foi brutalmente agredido na madrugada deste domingo (3), durante um assalto em Itapuã. O que era para ser uma noite de descontração com os amigos em um bar, acabou com o rapaz ensanguentado e correndo nu pela rua, pedindo socorro, depois de ter sido espancado com um coco e agredido com uma garrafa de vidro. O bandido levou o pouco dinheiro da vítima, R$ 35, e até suas roupas: uma blusa preta manchada, uma bermuda e sandálias havaianas.

“Eu saí com a roupa mais pobrezinha que tinha. Tenho plena consciência de que não foi por causa de marca de roupa. Isso foi um crime de homofobia”, denunciou Romário, que é natural de Recife e mora em Salvador há um ano, por motivo de trabalho. O crime aconteceu na Rua Professor Souza Brito, por volta das 3h, depois da vítima sair de uma confraternização com amigos no bar Villa Bahiana.

Enquanto Romário aguardava um táxi na rua, próximo ao acarajé Cira, foi anunciado o assalto. “Passou esse cara, novinho, um pouco maior do que eu e de cor negra. Ele simplesmente me abraçou, colocou a mão no meu ombro e me disse que era um assalto, que eu não chamasse a atenção, porque ele estava armado e ia me matar”, narrou a vítima.

Ele conta ainda que os dois seguiram andando e viraram em uma rua deserta à direita, onde o assaltante começou a agredí-lo, gratuitamente. Até que Romário teria implorado para que o assaltante levasse o único dinheiro que ele tinha no bolso. Depois de entregar dinheiro e roupa, a vítima foi agredida com um coco na cabeça e caiu desacordada.

“Acordei com ele me agredindo com uma garrafa. Tentei me defender e conversar com ele, dizendo ‘Jesus te Ama’, mas ele foi ficando ainda mais agressivo. A sensação era que eu ia morrer. Então pedi a meu pai do céu ‘se você existe mesmo, não me deixe morrer aqui’”, contou Romário.

Quando conseguiu se desvencilhar, a vítima saiu correndo completamente nua, pedindo socorro. “Ninguém me ajudou. O pessoal de um prédio viu, mas correu para se proteger, como é nesse mundo do cada um por si. Depois um mendigo me viu e perguntou o que tinha acontecido. Quando comecei a contar, ele disse ‘ah, você é homossexual, quero que você morra!’”, lamentou a vítima.

Romário foi ferido em várias partes do corpo com garrafadas. Ele foi levado para o HGE e teve alta ontem (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Depois de conseguir chegar a pé no condomínio onde mora, também em Itapuã, Romário foi socorrido por amigos que chamaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O rapaz foi levado para o Hospital Geral do Estado (HGE), onde foi atendido e liberado por volta das 16h.

“Recebi alta, graças a Deus, e já estou em casa. Mas meu rosto está horrível, nunca passei por isso…”, lamentou Romário, que ficou severamente machucado. “Agora ele está bem, porque já está em casa. Mas Romário está muito abalado…”, disse uma amiga da vítima, que pediu para não ser identificada.

Violência

Depois de escolher Salvador como segunda casa, Romário confessa que se sente desprotegido. “Só estou em Salvador por conta de trabalho, porque é o lugar que tem mais portas abertas para trabalho. Aqui, por exemplo, consigo dois empregos. Mas a violência contra o gay aqui ainda é enorme”, critica Romário que já havia sido vítima de uma agressão, em Recife.

O fato aconteceu dentro de casa e o agressor foi o próprio irmão. O motivo, segundo ele, foi o fato do irmão não aceitar sua homossexualidade. “Registrei ocorrência contra ele, em Recife. De agressão física e crime de homofobia. Desde que o mundo veio saber que sou gay, eu sofro por isso. Tanto na família, quanto na rua”, lamentou Romário.

Do Correio