A “guerra santa” contra o casamento gay

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26 de dezembro de 2013
por Genilson Coutinho

Apesar da surpreendente sentença da juíza Gabriela Seijas, que tinha declarado a inconstitucionalidade de dois artigos do Código Civil e autorizado, pela primeira vez na história da América Latina, um casamento entre dois homens, Alex e José não pensavam que conseguiriam se casar. Nem os advogados, nem a Federação Argentina LGBT, nem o jornalismo, nem Cristina Kirchner, nem a oposição, nem a Igreja. Ninguém imaginava isso.

A parte requerida no processo era o Registro Civil portenho, que lhes negou a data para que casassem. O organismo depende da prefeitura de Cidade de Buenos Aires. O prefeito Mauricio Macri, expoente da centro-direita na Argentina, era quem deveria decidir se apelava da sentença — e todos tinham certeza de que o faria.

Era o mesmo Macri que, pressionado pelos dirigentes de seu partido Santiago De Estrada e Gabriela Michetti, havia demitido, antes de assumir, quem já havia sido anunciado como seu futuro ministro da Cultura, Ignácio Liprandi, por dizer à revista Veintitrés que era a favor do casamento gay. “Bergoglio está muito preocupado com o que Liprandi disse, você vai começar seu governo com a Igreja contra”, disse o então presidente da Assembleia Legislativa ao prefeito eleito.

Vários legisladores ouviram naqueles dias, com surpresa, como o próprio De Estrada se vangloriava de haver transmitido a Macri “o pedido do cardeal” para que Liprandi não fosse ministro. Gabriela Michetti, futura vice-prefeita e protegida do cardeal, uniu-se ao “bispo”— como chamam De Estrada, ex-embaixador da ditadura no Vaticano — e sugeriu a Macri que se livrasse de Liprandi (…).

Menina mimada de Bergoglio, Gabriela tinha se oposto, quando era legisladora portenha, a todos os projetos que significassem mais respeito, mais direitos e mais liberdade para gays e lésbicas, e tinha apoiado aqueles que servissem para reprimir as travestis. Nunca defenderia uma posição que contrariasse os desejos do cardeal num assunto tão delicado para alguém que queria ser Papa, como o casamento homossexual. (…)

 

Ninguém esperava, por tudo isso, a decisão que Macri finalmente tomou e eu noticiei, depois de receber a primícia de um dos seus principais colaboradores. Na sexta 13 de novembro, o jornal Crítica anunciava meu furo numa manchete: “Alex e José já podem se casar”, e acrescentava: “A Justiça portenha declarou inconstitucionais os artigos do Código Civil que impedem o casamento entre homossexuais. Macri não apelará da sentença e apoiará publicamente os casamentos gays. Na segunda, o casal marcará o casamento, o primeiro na América Latina” (…).

No dia seguinte, bem cedo, através de um vídeo publicado em Youtube e divulgado através de Facebook e Twitter, Macri anunciava, olhando para a câmara:
— Decidimos que não vamos apelar da sentença. (…)
“O mundo vai nessa direção, por isso estou contente que o Governo da Cidade não apele. E espero que sejam felizes”, dizia o prefeito. Ele reconhecia que em seu partido havia “gente que queria que apelássemos”, contudo garantia que “com o tempo, isto vai ser visto como aconteceu com o divórcio há algumas décadas: foi um debate muito intenso e hoje é algo natural. Trata-se de permitir que as pessoas decidam livremente como se vinculam”. (…)

O anúncio de Macri provocou repercussões bastante curiosas. Enquanto a mídia progressista, que sempre tinha sido crítica com o prefeito, procurava relativizar a natureza progressiva da sua decisão, a mídia conservadora, que sempre o apoiara, atacou-o impiedosamente.

O cardeal Jorge Bergoglio saiu com duas quentes e uma fervendo. Divulgou um comunicado em que dizia que “afirmar a heterossexualidade do casamento não é discriminar, mas sim partir de uma nota objetiva que é seu pressuposto”, caracterizava a sentença de Seijas de “ilegal”, qualificava a decisão de Macri como “lamentável e surpreendente” e dizia que ela afetava “a ordem jurídica e social da cidade”. O jornal ultraconservador La Nación publicou um editorial intitulado: “Rendição do governo portenho” — apenas quatro dias antes havia publicado outro questionando que tivessem tentado discutir o casamento homossexual na Câmara dos Deputados —, censurando Macri por ter tomado uma decisão “eleitoreira” baseada em uma “moda circunstancial”.

Havia nessa crítica um sinal interessante do que tinha mudado: antes, alguns políticos temiam que, respaldando nossos direitos, fossem rejeitados pelo eleitor; agora, respaldá-los era uma “manobra eleitoreira”.

Em 24 de novembro, Bergoglio se reuniu a portas fechadas com o prefeito e, após a reunião, emitiu uma nota acusando-o de ter faltado gravemente “ao seu dever de governante e guardião da lei”.Macri, por sua vez, declarou aos repórteres ao sair: “Bergoglio não está de acordo que nós não tenhamos apelado. Entendemos a posição da Igreja e a respeitamos”.

O cardeal estava furioso. Não somente o irritava a decisão do prefeito, mas também que não o tivesse chamado antes — e por ter tomado conhecimento pelos jornais. “Eu o conheço há mais de dez anos, jamais o vi gritar assim”, disse à revista Noticias alguém do círculo chegado a Bergoglio, acrescentando que os “palavrões” que tinha ouvido naquele dia eram irreproduzíveis.

— Foi uma reunião de merda, fria, de dois caras que tinham certeza do contrário do que pensava o outro. Eles trocaram dez palavras, e cada um manteve sua posição — me disse um dos colaboradores de Macri.

— Como terminou?
— Bergoglio disse: “A verdade é que o senhor me causou uma profunda decepção”; e Mauricio respondeu: “É uma pena, Monsenhor”. Apertaram-se as mãos e tchau.
(…) A hierarquia da Igreja e seus aliados políticos sabiam que o debate sobre o casamento igualitário era inevitável e, como aconteceu antes na Espanha e aconteceria no início do ano seguinte em Portugal, mudaram de estratégia. Enquanto tentavam deter o casamento de Alex e José por meio de manobras jurídicas, começaram a se movimentar no Congresso para conseguir votos para um projeto alternativo de “união civil” que excluísse a adoção conjunta e “preservasse” a palavra “casamento”, mantendo viva a discriminação. Embora não falasse isso publicamente, o então cardeal Bergoglio participava dessa estratégia contra a igualdade.

Alguns meses depois, isso ficaria mais claro, quando em uma carta às freiras carmelitas, Bergoglio declarou uma “guerra santa” contra a lei de casamento gay e disse que o projeto era manobra do Demônio. (…)

O cardeal declarou a guerra e perdeu. Demos graças ao Senhor.

Trechos do livro  “Casamento igualitário” (Garamond, 2013) e publicando o link para quem quiser comprar o livro: http://bit.ly/1agvskN.

Por
Bruno Bimbi é jornalista, mestre em Letras e doutorando em estudos da linguagem na PUC-Rio. Foi um dos responsáveis políticos da estratégia que levou à aprovação do casamento igualitário na Argentina.