Comportamento

Saúde

HIV e Pandemia

Redação,
10/12/2020 | 15h12

Por: Genilson  Coutinho e Padre Alfredo

Crise na estrutura médica e sanitária, tensões de ordem ética, social e política, estigmas, preconceitos e negacionismo. A atual e assustadora pandemia, nos remete a uma outra, de 40 anos atrás, a do HIV.
Em números e comportamento dos vírus, as duas infecções não se igualam, mas tem muito em comum. Desde os primeiros casos até hoje, mais de 30 milhões de vidas pereceram em decorrência da AIDS; esperemos que os dados da COVID-19 fiquem longe disso. As formas de transmissão também se distinguem; o Sars-CoV-2 espalha-se através de gotículas de saliva, espirro e tosse, enquanto o HIV pode ser transmitido via relações sexuais, de mãe para filho (transmissão vertical), por compartilhamento de seringas e agulhas, ou transfusão de sangue.
O HIV usa o sistema imunológico para se replicar e baixar a imunidade das pessoas, dando causa às doenças oportunistas. O Coronavírus adentra a via inalatória e acessa os pulmões, provocando inflamação maciça. Especialistas afirmam que outras células podem ser invadidas pelo Corona, provocando infecções das mais diversas: coração, sistema nervoso central, etc.
A favor de ambos os vírus, as desigualdades sociais, governos descrentes da ciência e despreparados para enfrentar tão desafiadora realidade.
Ambas as epidemias são silenciosas. A do HIV contou com heróica atuação de organizações não governamentais e ativistas, em sua grande maioria, das comunidades LGBTQIA+ e defensores dos direitos humanos.
Quando os primeiros casos de HIV surgiram, em 1980, nos EUA, presidia aquele país Ronald Reagan – do Partido Republicano, o mesmo de Donald Trump – extremamente conservador, que ignorou os dados, e o rotulou a doença como “castigo” de Deus contra as pessoas “homossexuais”. A inércia daquele governo deu ensejo à morte de milhares de pessoas. A militância gay de então cunhou o slogan: “Silêncio = Morte”.
Ontem, como hoje, a irresponsabilidade dos governantes bem se enquadra sob o título de genocídio. Enquanto com a AIDS, muitos gestores não se importavam, por ser “castigo divino”, hoje, quando o Coronavírus afeta todos e todas, há governantes que parecem não se importar: minimizam os riscos de transmissão e disseminação, bem como os seus efeitos. Quando alguns, tardiamente, reconhecem a gravidade da situação, muitas vidas já foram ceifadas.
A nova pandemia ressuscitou, no discurso oficial, um termo outrora criticado pelas organizações da sociedade civil e militantes de direitos humanos: “grupo de risco”. A expressão hoje é usada para se referir às pessoas com maior predisposição a contrair a COVID-19: idosos ou quem tem comorbidades. No auge da pandemia da AIDS, tal estigma se usava para rotular gays, profissionais do sexo e hemofílicos. Preconceitos hoje, como ontem.
Ao estigmatizar alguns, sob o rótulo de “grupo de risco”, invisibilizamos pessoas e rotulamos o que significa perigo para todos. Por outro lado, sugerimos que, o que está fora deste parâmetro, não precisa dos mesmos cuidados para evitar uma infecção. O adequado seria nos referirmos a pessoas com vulnerabilidade ao vírus, evitando também a expressão ‘isolamento’, que sugere uma total falta de contato, quando na verdade exercitamos o ‘distanciamento social’, em vista de reduzir o impacto inicial para o Sistema de Saúde nas infecções pela COVID-19.
A Instituição Beneficente Conceição Macedo – IBCM, com sua rede de voluntários e voluntárias assiste, há mais de 30 anos, pessoas vulneráveis vivendo com o HIV/ AIDS. A partir desta experiência tem, desde os primeiros momentos da atual pandemia, enfrentado os desafios da COVID-19, com especial atenção às minorias políticas: as profissionais do sexo, pessoas trans, crianças e mães chefes de família vivendo com o HIV/AIDS, população em situação de rua, todas em hipossuficiência econômica. Esses invizibilizados pelo sistema contam tão somente com a solidariedade de quem entende que, na nova ordem, a proteção de cada um é fundamental à proteção de todos e todas.

Padre Alfredo Dórea é Arcebispo da Igreja Anglicana Tradicional do Brasil. Graduado em filosofia e teologia. Mestre pela Universidade Gregoriana de Roma. Atua no diálogo interreligioso, combate às violências, discriminações e preconceitos, defesa dos direitos humanos e das pessoas mais vulneráveis e empobrecidas, sobretudo as que vivem com o HIV/AIDS.
Genilson Coutinho – Ativista LGBTQIA+