Dilma ao léu

Genilson Coutinho,
15/03/2012 | 08h03

Há pouco terminei de assistir a primeira temporada de TheWestWing (1999-2006), meu curso predileto sobre os processos da política contemporânea. Lá pelo final da temporada, preocupados com a baixa popularidade do governo democrata do presidente Josiah Bartlet, interpretado por Charlie Sheen, o gabinete de assessores mais chegados se reúne para investigar o porquê. Eleito com uma margem segura, o presidente fictício defendeu, durante a campanha eleitoral, uma série de medidas inovadores que permitiriam incontáveis avanços sociais sem comprometer o fantástico crescimento econômico experimentado pelos EUA nos anos 90 (na ficção e na real).

O que descobrem os assessores? Que, após eleito, para preservar a futura possível reeleição através da base aliada, o presidente passou o seu primeiro ano de mandato integralmente em cima do muro em questões fundamentais (por exemplo, gays nas forças armadas servindo abertamente), para não ofender ninguém, comprometendo os interesses de todos aqueles que o elegeram. O que decidem? Que precisam deixar Bartlet ser ele mesmo. Custe o que custar. Acho que é talvez disto que precisamos no Brasil real: deixar Dilma ser Dilma.

Durante a eleição, a nossa atual presidente começou bem, sendo na sequência, gradativamente e inexoravelmente tolhida por veículos de comunicação mais conservadores, oposição e, até mesmo, por pedaços da própria base aliada. Aliás, sua base aliada é uma coligação alienígena entre partidos volumosos porém inexpressivos em ideologia (que precisam da ideologia petista para publicidade eleitoral), como o PMDB, o PR, o PP e sei lá mais que pê. São tantos e tão parecidos! Toda eleição querem curar a fome, a peste, a morte e trazer a pessoa amada em três dias!

Durante o primeiro ano, a chapa eleita arrumou a casa e definiu o crescimento econômico brasileiro em políticas que observavam a economia sem abrir mão dos programas sociais de redução das desigualdades e sustentação do crescimento econômico. Até aqui, tudo bem. Até a oposição concordou e baixouotom.

Durante a eleição, a presidente defendeu o aborto e as vespas zuniram tanto que ela teve que moderar o discurso para poder ser eleita. Recentemente, a nova Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, retomou o raciocínio, defendeu abertamente o aborto e foi atacada publicamente pela laia evangélica, mas continua no cargo. Qual a diferença? Seu cargo é legítimo. Foi colocada lá por uma chapa já eleita. Temos aqui um avanço! Aliás, ao que me conste, ela não precisa nem discursar na tribuna se for religiosamente de segunda a sexta ao seu gabinete trabalhar… Pode defender o aborto lá de dentro… Aliás número dois, a Secretaria foi criado no primeiro mandato do ex-presidente Lula visto que os governos anteriores entendiam que as mulheres já estariam assistidas pelo Estado. Então tá… senta lá, Cláudia.

O que me incomoda mesmo é que praticamente 13% do Legislativo democraticamente eleito não vote por legenda e sim por moral teológica, por fé (assunto que não pertence à esfera política após a Revolução Francesa): a Frente Parlamentar Evangélica.

class�� NrH � style=’font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family: “Arial”,”sans-serif”‘>“A inserção no mercado de trabalho traz dignidade às pessoas. A gente sabe que, com emprego, as pessoas conseguem tocar suas vidas dignamente e melhorar sua auto-estima”, afirmou Paulette, 25 anos. Ela iniciou a militância no ano de 2006, depois do assassinato da amiga Laleska D’ Capri. Paulete foi coordenadora da Associação, que leva o mesmo nome da amiga, no Nordeste de Amaralina.

 

“Já percebemos que o Brasil está atrasado nas políticas públicas para o seguimento LGBT. Mas isso vai começar a mudar. Eu quero perder rapidamente o título de única. Até hoje nunca houve uma oportunidade para uma travesti dentro de um órgão do governo na Bahia, principalmente para um cargo com tamanha importância”, afirmou Paulete.

Na cerimônia, realizada na sede da Secrataria, no Centro Administrativo (CAB),  além de autoridades políticas, participaram também representantes do movimento LGBTT, como o fundado do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott. A Secretaria foi criada oficialmente em 1966. Atualmente, o órgão é chefiado pelo secretário Almiro Sena Soares Filho.

Envolvendo membros até do próprio PT, esse grupo conseguiu derrubar o projeto do Kit Anti-Homofobia desenvolvido pelo Ministério da Educação. Recentemente, conseguiram suprimir vinhetas que promoviam o uso da camisinha durante o Carnaval. A justificativa do Planalto para esses dois vexames? O Brasil não deve fazer propaganda de uma orientação sexual em detrimento de outra… Hehe, esse eu nem vou me preocupar em rebater porque é muito besta. Eu gostaria mesmo de saber é se essas palavras saíram da boca de Dilma ou se vieram de seus assessores. Fato é que ela concordou publicamente, colocando boa parte do Brasil – sua comunidade LGBT, seus eleitores – no ostracismo político novamente. Um retrocesso das oportunidades políticas que tivemos durante o governo de seu antecessor e parente de legenda.

A Frente Parlamentar Evangélica conseguiu recentemente um ministro, o da Pesca! Crivella é PRB (Partido Republicano, parece…). Não sei se é uma questão de manter os amigos perto e os inimigos mais perto ainda, afinal o Ministério da Pesca, embora tenha um volumoso orçamento, é inexpressivo em termos de políticas, fazendo um carinho gostoso na base aliada, sem a qual não se governa… Não sei se é uma questão de dar maior projeção política para Crivella de modo que possa ele mesmo se enforcar publicamente em algum escândalo envolvendo pastores, ovelhas e dinheiro…

Deve ser coisa da minha cabeça insone. É fato que o governo nos deve uma série de respostas ou seu silêncio será tomado como conivência com a ideia largamente propagada pela praga evangélica que assola o país: estamos tentando implantar a ditadura gay e eles, uma república verdadeiramente democrática e moralmente elevada.

Enquanto isso, aqui em Salvador, tem namorada sendo assassinada por namorado, casal gay sendo espancado na Estação Piraja, drag espancando drag no Beco dos Artistas por causa de peça de figurino.

O general cor-de-rosa aqui está de volta em seu labirinto. Mas não foi nenhum general cor-de-rosa que calou o Ministério da Educação, a Ministra das Mulheres ou a própria presidente.

Por

João Barreto – Jornalista

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.

twitter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/