Violência contra travestis é menor em grandes centros, mas corre solta no país

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18 de julho de 2012
por Genilson Coutinho

Há muitos anos o estado do Pará é grande exportador de travestis para fins de prostituição, especialmente para capitais como São Paulo, Goiânia, Curitiba e Brasília e os seus arredores. Os clientes paulistas contam, inclusive, com casas formadas por “garotas” somente de Belém, a capital paraense. No passado, o tráfico das travestis era majoritário no deslocamento para essas localidades. No entanto, hoje já caiu para 50% dos casos.

A secretária do Conselho Estadual de Diversidade Sexual do Pará, Symmy Larrat, também representante do Grupo de Resistência de Travestis e Transexuais da Amazônia (Gretta), explica que o aliciamento é menor em sua região porque as próprias travestis, vítimas de cruel preconceito no seio familiar e em toda a sociedade, enxergam na partida e na consequente entrada para o mundo da prostituição a melhor saída para as suas vidas.

“Por mais que elas saibam as mazelas que enfrentarão, preferem essa vida porque o retorno financeiro é muito bom. Noventa por cento delas progridem”, afirma Symmy. Segundo ela, algumas voltam para Belém, compram casa e carro, deixam evidente o salto de qualidade que deram a suas finanças, e isso estimula a prática na região. Há estimativa de que cerca de 150 travestis deixem a cidade por ano.

Nos grandes centros, onde a prática da prostituição é vastamente visada pela polícia a exploração das travestis já não está associada à violência, como se tem conhecimento. As ‘meninas’ ficam nas casas, recebem um ponto para trabalhar na rua e a segurança local. A questão do pagamento a cafetinas ou cafetões é variável. “Em Recife, por exemplo, é preciso pagar R$ 120 por semana pelo ponto. Já no Pará, o ponto não custa nada”, relata Symmy. Cobrar pelo ponto é ilegal. É crime no Brasil explorar e obter vantagem da prostituição.

O que agrava a situação é a relação da cafetina com seus companheiros, em geral, traficantes de drogas. Muito próximos das travestis, acabam colaborando para que elas se viciem. O que as leva ao vício também é o endividamento, geralmente causado pela compra de prótese de silicone para as mamas e do silicone industrial para demais partes do corpo. “O uso exagerado do silicone é resultado da exigência do mercado”, diz Symmy, destacando que é uma atitude sem limites. E quando há dívida, se não há pagamento, há espancamento. De qualquer forma, o endividamento das travestis é o que dá lucro aos criminosos.

Ainda que nas grandes capitais não haja relatos de tanta exploração por parte da representante da Gretta, nas pequenas localidades ou até em cidades grandes, porém afastadas dos centros, a realidade é a clássica do tráfico humano: aliciamento, traslado e trabalho escravo, com retenção de documentos, o que caracteriza a servidão. “Há muitos e muitos lugares com essa característica, com todos os requintes de crueldade”, revela Symmy.

 

O motivo

O que leva as travestis a se submeterem ao tráfico humano é o preconceito. Para Symmy, a ausência de políticas públicas também as leva às ruas. A ativista relata o caso de uma travesti de 17 anos que lhe telefonou esta semana para pedir orientações sobre como agir daqui a um ano porque o pai já avisou que ela será expulsa de casa. “O pai não quer fazer isso antes dos 18 anos de idade, por causa da responsabilidade com a menor, mas depois vai lavar as mãos”, conta. Para ela, esse é um exemplo clássico do preconceito. Sem aceitação na própria família não há o que esperar da sociedade. “E essa garota vai certa para o caminho da prostituição.”

A Gretta entregou um documento para a CPI das Travestis, que investiga na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) a migração das “garotas” de São Paulo para o Pará, num sentido inverso ao conhecido. A contribuição dada para o debate pela entidade é o alerta de que é preciso criar políticas públicas para minimizar essa “grave questão social”, que é o tráfico das travestis. O documento sugere a autorização do uso do nome social nas escolas, a possibilidade de as travestis aderirem aos programas sociais e a regulamentação da profissão.

Symmy espera que a proposta de lei para regulamentar as casas de prostituição no Brasil, de autoria do deputado Jean Willys (PSOL-RJ), apresente um recorte que trate dos direitos das travestis.

No livro “JornadasTransatlânticas: uma pesquisa exploratória sobre tráfico de seres humanos do Brasil para Itália e Portugal, iniciativa encabeçada pelo Ministério da Justiça, recém-publicado, a antropóloga Flávia Teixeira reforça a informação de que travestis e transexuais, em atividade no mercado do sexo europeu, não raro saem de casa muito cedo em função do preconceito. Ela relata o caso de expulsão de um menino. “A mãe foi lá dentro pegar a certidão de nascimento para mostrar que ele havia nascido homem. Era uma casinha extremamente pobre e a mãe disse: ali é o quarto onde durmo e o outro quarto é onde viviam os dois irmãos. E ela disse: ’não tem mais lugar para ele aqui, entende? Ele, desse jeito, vai ficar onde?’”.

Ela analisa como “perverso” o processo de expulsão dos travestis. Conta que ouviu mães que afirmaram preferir interditar o filho a terem de lidar com a questão de sua homossexualidade. “Algumas desejam, inclusive, que o filho desapareça para não terem de lidar com o fato de serem travestis. Todos esses fatores concorrem para as condições de vulnerabilidade a que se encontram expostas, tanto no Brasil quanto no exterior”, afirma.

A escolha ou a falta de

Symmy deixou a vida dos programas porque encontrou um deputado que lhe criou uma oportunidade de trabalho, ou seja, de vida. Hoje, aos 34 anos de idade, formada em publicidade, está há quatro longe das ruas. Mas voltaria, se preciso fosse, apesar das conquistas pessoais. “Não há trabalho digno para as travestis. Por isso, essa é a nossa luta: garantir direitos”, desabafa.

E a ativista revela um dado chocante e supreendente: a maioria das travestis morre por volta dos 35 anos de idade por conta de brigas nas ruas, doenças adquiridas no exercício da prostituição e pelo uso excessivo de silicone.

A polícia é conivente com o crime, diz Symmy. “Para eles, travesti não tem direito. Podem apanhar, ser exploradas porque são sempre responsáveis por tudo na opinião dos policiais”. Segundo ela, é a mesma lógica do estupro no passado, quando mulheres eram responsabilizadas pelo crime devido ao fato de estarem vestidas com saia curta ou blusas decotadas.

A exclusão é tamanha que até nos salões de cabeleireiros, onde há alguma brecha para as travestis trabalharem, muitas clientes rejeitam o atendimento feito por elas. Diante dessa realidade, são uma presa fácil para os aliciadores.

Fonte: Rede Brasil Atual