Vamos falar de rejeição?

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14 de março de 2014
por Genilson Coutinho

Por Gésner Braga

Vamos falar de rejeição? Falemos sobre esta besta fera nascida para condenar nossa autoestima às trevas. Mas farei isso a partir de um ponto de vista muito pessoal: um relato de experiência, quase uma “egotrip”. Narrarei o dramalhão mexicano que é a minha história e que sempre me deu razões para ser uma pessoa mergulhada em depressão… Só que não.

Na minha vida, o desejo e a noção exata do que eu queria (leia-se: a minha orientação sexual) despertaram-se aos 12 anos, mas o primeiro envolvimento amoroso e a primeira experiência sexual vieram aos 17. Por dois anos, vivi seis romances, quase todos muito curtos. Tudo parecia muito bem e mesmo intenso para os meus padrões, até que encarei cinco anos seguidos de uma espécie de lei seca da libido, sem sexo, sem beijos, sem um afeto mais especial, naquela vibe de “nem um toque e eu querendo”. A solidão tornou-se cáustica dos 19 aos 24 anos, ocasião em que meus hormônios estavam em ebulição.

A rejeição era regra nos círculos sociais pelo quais eu transitava, curiosamente muito liberais, como a Escola de Belas Artes, os grupos de teatro ou de amigos, a praia ou as baladas. Naquela ocasião, comecei a questionar o modus operandi do meu destino. Sim, eu era tímido, mas tomei algumas iniciativas. Apesar disso, as respostas eram sempre negativas. Em busca de uma razão, atribuí o infortúnio ao meu espírito romântico, idealista e exigente.

O cenário mudou em 1989, perto dos meus 24 anos. As recusas persistiam, mas não de modo implacável como antes. Os romances voltaram a ocorrer e continuavam curtos como no início, quase nunca avançando mais que duas semanas. O mais espantoso era a frequência com que surgiam: uma vez a cada ano! Experiências frustrantes fizeram com que eu considerasse as caminhadas solitárias de volta para casa no final de todos os dias como algo bem mais tolerável. Afinal, antes só. E assim o ideal romântico foi se esvaindo.

Muitos anos se passaram nesse compasso e, ao longo deles, sondei as razões de ser tão preterido. Aqui não trato só de romances, cujas impossibilidades são maiores. Falo também do sexo puro e simples. Em alguns casos, preferi ser direto com quem me rejeitava e pedi que revelassem as razões da recusa sem medo de me ofender. Alguns foram reticentes, outros não e estes contribuíram muito com a minha investigação.

Aos poucos, fui consolidando minhas impressões. Algumas conclusões eram óbvias, outras me despertavam graça. Por vezes, ouvi argumentarem que eu era magro demais ou branco demais ou que eu tinha personalidade forte e era muito independente. Houve quem dissesse que uma relação comigo seria insuportavelmente perfeita, numa declaração de que o caos era essencial ao amor. Achei um tanto quanto improvável, mas tudo é possível. Houve ainda quem alegasse diferenças insuperáveis de condição social. Mas a justificativa mais curiosa e recorrente era: “você é doce demais”. Não preciso dizer o quanto de eufemismo essa expressão revela e vou voltar a ela mais adiante.

Em 1998, adquiri meu primeiro computador e mergulhei no paradoxal mundo das relações virtuais e dos recursos como ICQ, MSN e salas de bate-papo. Reputo como paradoxal porque, nesses ambientes onde prevalecem a fantasia e a farsa, seus frequentadores protegidos pelo anonimato dizem toda verdade que não têm coragem de dizer na cara. Tomado por um olhar quase científico, decidi bisbilhotar a sinceridade possível nesses meios, o que me ajudou a firmar conclusões sobre algumas razões por que pessoas rejeitam outras e quais casos se aplicavam a mim, desde a aparência até preferências sexuais, passando pelo jeito de ser, entre outros fatores. Posteriormente, algumas investigações acadêmicas e jornalísticas sobre esses e outros ambientes virtuais confirmaram minhas suposições.

Uma consequência natural da rejeição é o esforço empreendido pela pessoa rejeitada para se sentir desejada, correto? Pois eu caí nessa armadilha e decidi mudar um pouco aquele meu “jeitinho doce” para ver se conquistava olhares alheios. Perto dos meus 40 anos, eu já conhecia muito bem as principais razões de ser rejeitado e busquei orientação nutricional para ganhar peso e massa muscular, de modo a incrementar a atividade física que já faço desde mais jovem. Além disso, busquei me policiar para demonstrar mais dureza. Nossa, como deu certo! A fase entre 40 e 45 anos foi a mais diversificada e proveitosa da minha vida.

Felizmente, percebi a dimensão do equívoco que eu cometia em nome de uma carência irracional. Aquele ali não era eu, era uma fachada, um personagem criado com o intuito de alimentar minha autoestima, por meio da conquista de novos parceiros para sexo sem compromisso que me rendiam a certeza de que eu era desejado. Decidi então parar com toda aquela bobagem. Eu me sentia um completo idiota com aquela história de ficar durinho e chutei o pau da barraca. Também suspendi alguns suplementos que não me faziam bem, voltei a ficar magro e a perder olhares.

O meu raciocínio era muito simples: eu já sei que, em nome da civilidade que a vida em grupo nos impõe, somos culturalmente moldados pelo que é socialmente aceito, seja através das normas ou dos costumes. Mas além desse condicionamento cultural por nós internalizado sem que percebamos, eu ainda teria que, conscientemente, esforçar-me para ser mais agradável? Eu sou e continuo muito vaidoso, gosto de uma massagem no ego, mas tudo tem um limite.

Em setembro de 2010, perto de completar 46 anos, eu fui apresentado ao ativismo social LGBT, no qual permaneço até hoje e que, curiosamente, tornou-se mais um motivo para ser enjeitado. Ato contínuo, eu conheci grupos de estudos sobre sexualidade que me proporcionam discussões bem profundas a respeito do tema. Foi a partir daí que eu me despi de vez do muito pouco que ainda restava em mim de complexo com relação à minha atitude gay. Digo muito pouco porque, mesmo sendo considerado por amigos como uma pessoa discreta, eu sempre fiz questão de me afirmar gay, algo que sempre curti e cultivei. Mais que nunca, não estava disposto a escamotear o que é essência.

Apesar dessa tomada de consciência (bem tardia, diga-se de passagem), a rejeição continuava a me incomodar bastante e só fazia crescer, pois um novo elemento lhe foi acrescido: a minha idade. Foi no carnaval de 2013 que um fenômeno renovador aconteceu: em plena festa que celebra a liberdade, que ninguém é de ninguém e que tantas bocas se encontram, eu experimentei a mais ostensiva rejeição que quase me levou ao surto. Por tudo que disse e direi adiante, pode parecer um motivo muito fútil usar os dias de folia como referência, mas é preciso deixar claro que a ocasião foi apenas a gota d’água e não a única razão, muito menos a principal.

Era madrugada de terça-feira quando eu cheguei em casa combalido de um carnaval frustrante. Eu tinha amigos hospedados em minha casa e emudeci naquela noite, imerso em pensamentos confusos. Liguei o computador e comecei a escrever compulsivamente, na tentativa de dar concretude ao redemoinho em minha mente. A estratégia deu certo e, no dia seguinte, reuni os amigos para um pedido de desculpas e, sobretudo, para apresentar minhas conclusões em primeira mão.

Enfim, eu me dei conta de que as características em mim que causam tanta rejeição são as mesmas das quais eu não abro mão. Refiro-me a todas elas sem exceção, mas especialmente à minha tão propalada “docilidade” que eu bem sei o que quer dizer e que hoje eu ostento não apenas como essência, o que já seria suficiente, mas também como um instrumento de afirmação identitária e uma atitude política da qual me orgulho profundamente.

Desse modo, eu acabo por validar a rejeição como algo positivo. Explico: se ela persiste pelos mesmos motivos de sempre, isso ocorre porque eu decidi não me desviar nem um milímetro sequer do que sou e não alimentar a paranoia de querer me ajustar ao gosto alheio, sobretudo a modelos de masculinidade que não me interessam. Eu, conscientemente, incito a rejeição. Ela, portanto, passa a ser um arbítrio meu. Superação completa? Claro que não. A rejeição ainda incomoda e continuará incomodando, mas de uma maneira infinitamente mais suave, visto que sou eu que assino embaixo.

Por fim, é preciso dizer que eu não condeno quem me rejeita, pois sei que o desejo, como toda construção cultural, age num nível de consciência (ou inconsciência para ser mais preciso) que foge ao nosso controle. Aliás, eu também tenho minhas preferências.

Eu escrevo tudo isso somente agora, pois eu precisava estar convicto do que ora defendo e um outro carnaval fecharia o ciclo desse processo. Neste ano, a minha festa livre de expectativas foi muito agradável. Tudo isso pode ser apenas uma fase, eu sei. Mas já está durando um bom tempo e tem me feito muito bem.

Gésner Braga é jornalista e ativista social do movimento LGBT na Bahia.