Colunistas

Uma face da transfobia chamada solidão : corpos proibidos, corpos permitidos

Armando Januário,
13/12/2020 | 23h12
Após se conhecerem pela internet e estarem casados há mais de 4 anos, Leonora Áquilla e Chico Campadello seguem felizes.Foto: Reprodução

Uma voz assusta o ultraconservadorismo brasileiro. Em todos os escalões da política nacional, é travada uma luta ensandecida contra ela. Partidos políticos fazem alianças, empenhados em uma verdadeira cruzada contra essa voz. Há décadas atrás, um leve sussurro, essa voz, na atualidade, transcendeu desafios e começa a conhecer espaços de poder.
As travestis e mulheres transexuais começam a conhecer alguns avanços, porque suas vozes são incansáveis, assim como é incansável a transfobia. Além de possuir uma capacidade de silenciamento, a transfobia também enclausura e chega até mesmo a convencer pessoas trans e travestis que elas não podem ter um relacionamento amoroso. Nessa perspectiva, elas são corpos proibidos de adentrar ao suposto Éden cisgênero, mas lhes é permitido serem fontes de prazer, ainda que sejam fontes abjetas, as quais despertam nojo em uma sociedade obediente a uma matriz forçosamente cisgênera e binária. Corpos proibidos para trabalhar em um emprego formal, para constituir uma família, mas corpos semelhantes a pacotes de biscoitos recheados: o pacote é aberto, o seu conteúdo é consumido e a embalagem é rapidamente descartada.
Neuróticos, setores conservadores e fundamentalistas da sociedade brasileira, consideram como insuportável as travestis e mulheres transexuais existirem, porquanto elas questionam os ideais tradicionais de feminilidade. Portanto, na elaboração psicológica de alguns, que esses corpos habitem a noite e sejam procurados na clandestinidade, haja vista a psique de certos grupos sociais não conceber a possibilidade de ter qualquer contato com as travestis e mulheres transexuais: elas carregam a peste, porque ousaram construir o seu próprio feminino, que revolta e as empurra à solidão, mas também resulta em admiração e amor sinceros, a exemplo do relacionamento amoroso entre Leonora Áquilla e Chico Campadello.
Contudo, não são poucas as histórias de homens apaixonados por travestis e mulheres trans, mas que não assumem a possibilidade de conviver publicamente com elas, dada a reprovação social. Serão chamados de gays, viados, sua masculinidade será rebaixada. Em uma civilização marcada por um contínuo mal-estar e pela constante fragmentação dos sujeitos, usar é considerado melhor que amar. Ocorre que deixar de lado a pulsão de vida pode levar ao adoecimento da própria psique de quem considera proibidos os corpos trans e travestis, porquanto muitos desses buscam na madrugada consumar a atração que jamais é admitida em público. O mesmo amor é também acompanhado pelo ódio, trazendo à cena aquilo que Jacques Lacan (1901-1981) denominou de amódio, que indica a presença do ódio na base do amor.
Em uma sociedade adoecida, entre quatro paredes, nas noites furtivas, as declarações de amor são constantes. Na rua, a solidão é imposta sem clemência…

*Armando Januário dos Santos é mestrando em Psicologia pela UFBA, psicólogo graduado pela UNEB, pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br | Instagram: @januario.psicologo.