Uma arca cheia de bichas pretas por Filipe Harpo

Cinema, No Circuito
20 de setembro de 2018
por Genilson Coutinho

Filipe Harpo

Eu era viciado em Queer as Folk, como todo jovem gay “bem resolvido” em meados da década de 2000. Era o começo do “boom” gay e a cultura LGBT ganhava aos poucos as grandes produtoras norte americanas. Séries como Will & Grace, Dantes Cove e The L World estavam surgindo e fazendo sucesso. Queer era a preferida de muitos. Mas como jovem negro, recém iniciado nos movimentos LGBT e Negros principiando discussões sobre homossexualidade negra, não me sentia totalmente representado por Michael e seus amigos brancos… tinha algo faltando ali… Até que eu conheci Noah e sua turma…
Coparam muito Noah’s Arc a famosa e hipercultuada Queer As Folk. Não concordo, acho Noah Arc bem mais parecida com Sex And The City, famosa série estadunidense que gerou seis temporadas e ainda 2 filmes. Noah fala e discute sexo com muito bom humor, mas não é tão… softcore quanto Queer. É mais o quarteto de mulheres despojadas de Nova York que o quinteto gay loucos em posar na Babylon.

Mas não deixa de ter suas particularidades. Noah’s Arc conta historia de um grupo de cinco homens negros LGBTs que vivem em Los Angeles. Noa (o grande herói novinho), Alex (o efeminado do grupo), Rick (o estereotipo do homem gay promiscuo), Chance, responsável pai de família e professor universitário, e o afair de Noah durante as duas temporadas Wade. Tudo “fechado” na comunidade negra e latina da cidade dos anjos. Ao longo dos capítulos a série vai desenvolvendo particularidades dos homens negros e latinos gays. De forma bem leve e com muito bom humor.
Uma dessas particularidades é a forma como o homem negro gay se porta frente a masculinidade dentro da comunidade negra, já que o homem negro é ligado diretamente a um papel sexual extremamente viril, um machão estereotipo, com gingado próprio e apetite sexual incalculável. A série problematiza de forma bem leve como esta masculinidade afeta os homens negros héteros e como ela afeta também homens negros gays. Muitos capítulos falam sobre essa dualidade entre desmunhecar ou não! O papel da masculinidade dentro da comunidade negra e como o homossexual negro se enquadra nesta comunidade. Como seria para um gay negro, por exemplo, estar fora do estereotipo de quase todo homem branco LGBT? Nada muito profundo, o roteiro dá pinceladas aqui e ali ao longo dos episódios.
Em apenas duas temporadas, a série permeia por assuntos como casamento entre pessoas do mesmo sexo, pais homossexuais e a vida com seus filhos e filhas, “promiscuidade”, AIDS (um diferencial da série que faz campanha junto aos homossexuais negros e latinos para que façam exame, sem medo e com bastante conscientização), ciúmes, homofobia em Hollywood, no mundo do rap, no mercado de trabalho entre outros. Hoje, em meio a séries como Pose e o reality da drag RuPaul, Noah pode parecer leve, boba, mas foi pioneira em abordar muita coisa em tão pouco tempo de exibição.


Noah também tem seus defeitos. Apenas duas temporadas, dividida em episódios curtos demais, com muita informação e pouco desenvolvimento. Seus atores, a maioria estão verdes, principalmente o Darryl Stephens, carregando o papel título muitas vezes de forma irregular. Depois de fazer barulho frente ao canal fechado Logo, a série foi cancelada, mas rendeu um filme Noah Arc – Jumping The Broom em cartaz nos cinemas em 2008 e obteve relativo sucesso.
Fica a sugestão para você assistir esse clássico. Aviso, Noah é como um livro velho, barulhento e muito a frente a seu tempo, mas sob os olhares novos soa como ultrapassado e bobo muitas vezes. É leve, engraçado e não deve ser levado completamente a sério. Garantia de representatividade… leve… em tempos tão conturbados.

Filipe Harpo é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.