Travestis ganham espaço nas quadrilhas juninas em Pernambuco

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23 de junho de 2015
por Genilson Coutinho
Liel, no centro, se apresentava como homem até assumir papel de 'dama'. (Foto: Vitor Tavares / G1)

Liel, no centro, se apresentava como homem até assumir papel de ‘dama’. (Foto: Vitor Tavares / G1)

Na hora da dança, elas são as damas da quadrilha. Feminilidade em alta, maquiagem e cabelo impecáveis e movimentos suaves, mas firmes, para aguentar a apresentação de quase uma hora nos palhoções juninos em Pernambuco. Travestis e transexuais que fazem parte de quadrilhas estilizadas superaram preconceitos e hoje ocupam papéis de destaques nos grupos, da comissão de frente à noiva em pleno altar. Conquistando espaço cada vez maior, seja pela afinidade com a dança ou pela resistência física, hoje elas já chegam a representar até 15% dos membros femininos de algumas equipes, de acordo com a Federação de Quadrilhas Juninas de Pernambuco (Fequajupe).
Para a maioria das dançarinas, a chegada ao posto de dama coincide com a afirmação perante a sociedade quanto à orientação sexual. Todas também começaram a carreira como os cavalheiros das quadrilhas, mas foram percebendo que não se encaixavam naquele lado do casal. Foi assim com Liel Amaral, 33 anos, cabeleireira e casada há 10. Passou os dois primeiros anos dançando vestida de homem, mas só até uma das participantes mulheres faltar a uma apresentação. Assumiu o posto feminino e, de lá, nunca mais saiu.
Foi nessa mesma época que Liel também assumiu cabelos compridos, unhas feitas e começou a se travestir 24 horas por dia. “O processo na quadrilha me ajudou muito. Quando assumi o posto de dama, me senti muito melhor, porque era realmente aquilo que eu sabia que eu era. Eu sou delicada, feminina”, contou a dançarina da Quadrilha Tradição, uma das que possui várias travestis entre os componentes. A situação na agremiação já é tão naturalizada que não existe resistência nem por parte dos pares nem da comunidade que representa.
Em comum, além da história de negação do corpo com o qual nasceu, está a paixão pelo São João e o esforço para desembolsar valores que chegam a R$ 600 para bancar as fantasias ornamentadas. As travestis e transexuais também costumam passar mais tempo se arrumando. Não querem ser reconhecidas com feições masculinas, ou um aspecto grosseiro. “A gente sabe que tem que esforçar mais, para ficar o mais feminino possível, dentro ou fora da quadrilha”, diz a parceira de quadrilha de Liel, Dandhara Rhadcklyff, que começa a produção de beleza cinco horas antes da apresentação.
Dandhara, que adotou o sobrenome em homenagem ao ídolo Daniel Radcliffe, o Harry Potter do cinema, tornou pública sua condição como travesti há cinco anos. Começou a se vestir com roupas femininas aos 16, quando também migrou do papel de homem para o de mulher dentro das festividades juninas. O cenário encontrado foi de facilidade e identificação. Saiu de cena a postura forçada masculina para dar lugar à mulher forrozeira.
A tendência de abrir as portas das quadrilhas para travestis e transexuais acontece desde meados de 2007. Um dos diretores da Fequajupe, Bosco Fidélis, explica que a única determinação tomada pelos grupos foi que o comportamento fosse essencialmente feminino. Até hoje, por exemplo, pessoas que não se travestem 24 horas por dia precisam ensaiar “montadas” de mulher. “Não é só querer e gostar da dança. Tem que saber como fazer uma maquiagem agradável, se ajeitar e ter cuidado com todas as partes do corpo, para não causar nenhuma estranheza no público”, disse.
Milena tem 20 anos e quer fazer cirurgia de mudança de sexo (Foto: Vitor Tavares / G1)
Milena tem 20 anos e quer fazer cirurgia de
mudança de sexo. (Foto: Vitor Tavares / G1)
Requisito atendido, as meninas ficam prontas para assumir o posto. Na verdade, elas são enxergadas até como diferencial, pois costumam ter resistência maior do que as mulheres. “São totalmente aceitas pelos membros, jurados e plateia. Já passamos da fase de discutir isso”, diz Bosco. Apesar da grande representatividade, algumas quadrilhas ainda não aceitam transgêneros como membros. A participação desse grupo nas apresentações, entretanto, aumenta a cada ano, de acordo com a Fequajupe.
E se alguns grupos não aceitam, outros dão o papel principal. Na Bacamarte, do Cabo, a noiva é interpretada por Stephany Franciely, 24 anos. Esse é o terceiro ano no papel, que, inclusive, já rendeu um prêmio de melhor dançarina em 2013. Ela começou a dançar São João ainda aos 10 anos, como mascote. E, aos 20, conquistou o título de Rei do São João, quando ainda se apresentava como homem. A trilha de sucesso também já desponta na vida de Milena Almeida, 20 anos. Com avô sanfoneiro, já faz parte da comissão de frente da Bacamarte, onde nutre o amor pelo São João. “Posso exercitar minha feminilidade e dançar forró. Antes tinha medo de ser mulher, hoje tenho certeza”, contou a jovem que sonha em fazer a cirurgia de mudança de sexo e se tornar psicóloga ou turismóloga.
O que as travestis e transexuais conquistam dentro de uma quadrilha também ajuda no espaço na sociedade. Grande parte dos grupos estão sediados nas periferias das cidades do Grande Recife, onde o senso de comunidade é grande. O papel que ocupam, então, acaba sendo importante e exige respeito. Seja Stephany, Milena, Dandhara ou Liel, elas trabalham, estudam, vivem relacionamentos amorosos abertamente e não se depararam com situações motivadas por preconceito, principalmente no ambiente em que vivem ou se divertem. “Todo mundo me respeita como mulher. Não fico querendo chamar atenção, sou naturalmente assim. É um respeito que consegui misturando minha vida com o São João”, definiu Stephany.

Do G1