Transexual negro vive expectativa de voltar à universidade em SC depois de sofrer com preconceito

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10 de fevereiro de 2016
por Genilson Coutinho

Foto: Cezar Xavier / Divulgação

Luciano Palhano, 31, achava que nunca mais conseguiria voltar à faculdade. Homem transexual negro, ele conta que foi expulso de casa aos 18 anos por escolher outro gênero para viver, diferente daquele atribuído a ele no momento do nascimento. Pelo mesmo motivo, no início da transição, trancou os estudos há 11 anos.

— Abandonei o curso de música na [universidade] federal de Pernambuco em 2005 porque não respeitavam a forma com que eu gostaria de ser chamado e era difícil enfrentar os preconceitos diários — desabafa.

Mas a realidade do coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat), uma rede nacional de homens transgênero ativistas, está prestes a mudar a partir de março de 2016. E o cenário da superação será em Santa Catarina.

Isso porque Luciano foi aprovado em dois vestibulares no Estado: da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

Ele já fez a primeira etapa da matrícula na UFSC, onde vai estudar Letras Italiano, curso em que passou em primeiro lugar. A escolha se deve à experiência no país europeu, onde viveu por cinco anos logo após perder o pai. Lá aprendeu o idioma e, agora, deseja dar início à carreira acadêmica.

— Estou animado em poder voltar pra universidade aos 31 anos. Energia renovada para um novo começo. Tendo oportunidade de entrar e me manter, vou dar meu melhor e vou ter espaço. Pautar o racismo e a transfobia é muito importante pra mim. Além da formação, vou levantar essas bandeiras de luta — promete o calouro, que admite ter se espantado com o número de negros na UFSC. A maioria composta por intercambistas, segundo ele.

Luciano credita a conquista às políticas assistenciais, já que relata dificuldades em colocar-se tanto na universidade, quanto no mercado de trabalho.

— Se não fosse o Sisu [Sistema de Seleção Unificada] e as cotas pra negros nem sei se ia rolar. Não tem meritocracia pra quem foi expulso de casa, vive sem apoio no mundo e tendo que trabalhar 12 horas por dia. Eu estava literalmente fazendo pastel para viver. Vivo com subempregos mesmo tendo qualificação técnica e falando cinco idiomas. Cansei de ver a vaga sendo fechada quando me apresentava como pessoa trans — admite.

Nome social

Antes de ser aprovado na UFSC, Luciano já tinha contato com grupos que discutem identidade de gênero e diversidade sexual — a exemplo do Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividades (Nigs) e do Coletivo Margens, ambos do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH).

Apesar do ativismo no movimento social, ele viu seu antigo nome na lista do vestibular. Mas está confiante de que a identidade social será respeitada ao longo do curso. — Além de ouvir piadinhas diretamente, vivenciei comportamentos agressivos dentro do curso de música, em Pernambuco, com alunos e professores. Não havia nome social. Acredito que fui a primeira pessoa trans por lá. Eu ainda não estava no movimento e não sabia dos meus direitos. Hoje é diferente — avalia.

Na UFSC, as pessoas travestis, transexuais e transgêneras podem utilizar o nome social em todos os registros, documentos e atos da vida acadêmica. O nome social é adotado pela pessoa conforme sua identidade de gênero e pelo qual se identifica e é identificada na comunidade em que vive. A resolução foi aprovada em 2012 e modificada no dia 13 de agosto pelo Conselho Universitário.

Conforme o portal Diversifica UFSC, a medida adotada visa evitar constrangimentos. “O reconhecimento do nome social é uma forma de garantir a cidadania, a dignidade da pessoa humana e a igualdade de condições de acesso e permanência no ensino, entre outros direitos afirmados pela Constituição da República Federativa do Brasil”, defende o coletivo.

Hoje existem 10 alunos matriculados com nome social na Universidade. Duas pessoas trans já se formaram na UFSC com os nomes que escolheram. As informações são do Departamento de Administração Escolar.

Visibilidade trans

O Brasil continua na liderança mundial em relação aos crimes motivados por homofobia e transfobia — aversão a homossexuais e transexuais. Relatório do Grupo Gay Bahia de 2014 mostra que 50% dos assassinatos de transexuais registrados e cometidos no ano de 2013 aconteceram aqui.

Foram relatados 326 mortes de gays, travestis e lésbicas no país, incluindo nove suicídios: um assassinato a cada 27 horas. Desses, 134 eram travestis e sete amantes de travestis (T-lovers).

Do Diário Catarinense