Todo mundo quer ser jornalista Por João Barreto

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5 de agosto de 2011
por Genilson Coutinho

Na minha modesta opinião, o Supremo Tribunal Federal tem altos e baixos como toda e qualquer instituição pública. Muito recentemente, os nossos ministros nos garantiram, a nós cidadãos LGBT, um pouco mais de… cidadania, reconhecendo a possibilidade e legitimidade da união estável entre casais homoafetivos em face ao silêncio do nosso poder legislativo, conhecido por aumentos salariais na surdina do fim do ano fiscal e projetos de lei estapafúrdios, como Parada do Orgulho Hetero (essa fica para outra coluna) etc. Não muito tempo atrás, o mesmo STF, que fez muitos chorarem de alegria, declarou que jornalismo era como a arte da gastronomia, e portanto, o profissional das notícias não carecia de diploma e poderia executar o seu artifício por natureza técnico usando de bom senso e experiência prática.

Eu que fiz a faculdade de comunicação social e jornalismo sinto-me seguro o suficiente para afirmar que nem o diploma basta. Retirar a exigência deste para o exercício legítimo da função foi, a meu ver, um erro. Usarei o próprio STF para exemplificar. Nós tendemos a enxergar a realidade em opostos e repassar isso à interpretação cognitiva e à linguagem. Compreendemos desde cedo o mundo em pares semânticos, em oposições. Nós, gays e LBTs, não nos encaixamos nestes opostos, posto que redefinimos a ideia de diversidade. A sexualidade humana vem em escalas e gradações e não em opostos. De modo análogo, é a realidade passível de ser lida e compreendida em gradações e não em conceitos bem fechados e diametralmente opostos.

Assim, o STF não pode ser ora vilão, ora mocinho, pois é um instituição composta por pessoas, inseridas em um contexto cultural, social, histórico e intelectual. Essa percepção eu tenho hoje porque frequentei uma faculdade de jornalismo. Embora pudesse eu ter vindo ao mundo um prodígio e ter desenvolvido razão e sensibilidade na práxis jornalística, precisei mesmo estudar matérias de comunicação, teóricas, duras, para ter essas ideias mirabolantes e incômodas.

E por que faz rodeios, ó, jornalista com diploma…? Para reclamar da publicação da pesquisa IBOPE sobre a (des-) aprovação do casamento gay pela população brasileira. Se com a exigência do diploma para o exercício da profissão tendo caído há não muito tempo atrás, eu li tantas manchetes sensacionalistas e tantos artigos sem análise e contextualização, imagine só daqui a alguns anos quando o mercado estiver povoado por seres que só conhecem a prática jornalística mas nunca pisaram os pés na sala de aula para entender história da comunicação, antropologia, estética, ética, semiótica…

De modo geral, nos principais, mais lidos e mais acessados veículos de comunicação, eu senti falta de uma análise coerente e ética para os dados do IBOPE. Por outro lado, a manchete “povo brasileiro desaprova casamento gay” estava por toda parte como uma infestação malévola, um gripo de ignorância. Alguns veículos se limitaram a fazer CTRL+C/CTRL+V dos dados da pesquisa. Prefiro não citar nomes, o Google faz isso por mim. Então, visto que a contextualização é fundamental, vamos aos cortes selecionados do artigo publicado na página do próprio IBOPE abaixo:

“Segundo pesquisa nacional realizada entre os dias 14 e 18 de julho, 55% dos brasileiros são contrários à decisão e 45% são favoráveis.” Ou seja, é uma maioria por definição mas é também quase um empate. “De maneira geral, a pesquisa identifica que as pessoas menos incomodadas com o tema estão mais presentes entre as mulheres, os mais jovens, os mais escolarizados e as classes mais altas. Regionalmente, Norte/Centro-Oeste e Nordeste se destacam como as áreas do País com mais resistência às questões que envolvem o assunto.” No Brasil, homofobia e machismo vêm juntos e de mãos dadas, o que explicaria a maior aceitação entre as mulheres, elas também vítimas de preconceitos, tanto em casa quanto no mercado de trabalho.

Os mais jovens estão menos presos às convenções sociais e portanto tendem a ser mais liberais com, basicamente, tudo: estão menos atados à rede de solidariedade que perpetua traços mais rígidos da cultura. Os mais escolarizados sabem das coisas, compreendendo que orientação sexual é igual à cor da pele e diferenciação por gênero: ou seja, é necessário estudar muito para se livrar dos instintos animalescos e compreender que gente é gente e pronto. O preconceito se mostra, também, maior no Norte, Centro-Oeste e Nordeste, que são as regiões com os piores índices de desenvolvimento humano do Brasil, inclusive as regiões com menor acesso à educação. Esta segregação acaba ecoando no aspecto anterior: nível de escolaridade. Lugares pobres também favorecem a disseminação de religiões fundamentalistas, alternativa à depressão e violência instigadas pela vida miserável e sem perspectivas.

Pronto, era só isso. Um parágrafo ofereceria a contextualização necessária. Mas isso não aconteceu, não é mesmo.

Senhores ministros, leiam o meu apelo: nós, jornalistas, precisamos, no mínimo, de diploma, um compromisso ético com o funcionamento da sociedade e com o nosso prometido futuro glorioso enquanto brasileiros. Senão, em breve, deus, o mundo e o que ocorrer estarão assinando notícias irresponsáveis pelos veículos nacionais, semeando a desinformação e a ignorância, tão próprias da nossa região Nordeste, machista, fundamentalista e sem escolaridade.

Não se engane, o rei está nu. E está na hora de pararmos de fingir que a roupa nova do rei sequer existe.

João Barreto – Jornalista

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.
witter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/