O FUROR DO TELEMARKETING
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Estou mais que convencido que o telemarketing é uma das grandes pragas do mundo moderno. E tenho sérios motivos para ter esse entendimento. Sou umas das presas mais desejadas desse pessoal. Pago minhas contas em dia, tenho alguns cartões de crédito, telefone fixo. Pronto. É a senha para saírem nos caçando diariamente e encher o nosso saco, transformando o tão desejado descanso doméstico em um verdadeiro festival de “não”, “muito obrigado”, “não me interessa”, “vá pro diabo que o carregue”, e por aí vai. Do ponto de vista de quem é perturbado incessantemente pelo telefone, a pessoa que inventou essa prática deveria ser excomungada pelo resto da vida e por toda a eternidade.

Há algum tempo, a nossa administradora do lar já se queixava do furor das empresas de telemarketing, ligando atrás de mim para oferecer todo tipo de produto, pedir doações, sugerir pacotes de assinaturas de revistas, além de serviços em domicílio. Até massagem em casa rolou. Isso, sem falar na quantidade infindável de ligações que as empresas de cartão de crédito disparam o tempo todo na tentativa de abocanhar mais um potencial perdulário e, claro, aumentar sua carteira de “dependentes financeiros” ou encalacrados ad enternum.

Com certeza, esse via crucis não é exclusividade minha. A caça ao cliente através do telefone tornou-se um negócio tão grotesco e afrontoso que praticamente ninguém escapa desse assédio infernal. Um dos que mais me irritam são aqueles pedidos para instituições que lidam com pessoas em dificuldade, as chamadas casas disso ou daquilo. Apelando para a chantagem sentimental barata, evocam o nosso espírito cristão, botam a gente bem lá pra baixo por não estar doente ou não estar passando fome, e depois começam a barganha: “O senhor recebe salário quando?”; “Se o senhor não pode agora, posso ligar no final do mês?”; “O senhor sabe, o Natal está chegando e as nossas criancinhas esperam a ajuda de pessoas como o senhor”. É um negócio de doido que vai corroendo a gente por dentro e nos transformando nas piores pessoas do mundo caso não concordemos pelo menos com uma doação temporária. É uma queda de braço que vai nos conquistando pelo cansaço.

Confesso que em muitos momentos tenho uma vontade louca de desligar na cara desse pessoal ou, com muita elegância, mandar todo mundo para aquele lugar. Mas me controlo, não tenho coragem de agir de forma tão mal-educada. Afinal, goste eu ou não, eles estão trabalhando e, de alguma forma, tentando angariar fundos para certas instituições que, sabemos, fazem um trabalho sério e reconhecidamente importante. Reconheço, mas não deixo de me sentir ultrajado no meu direito de não ser incomodado, especialmente na minha casa, e ter que perder meu tempo ouvindo um monte de frases decoradas e argumentos persuasivos e insistentes que, às vezes, quase me levam ao destempero verbal. São muito chatos, inconvenientes, lamuriosos e, acima de tudo, inoportunos.

Não sei se acontece com todo mundo, mas esse povo de telemarketing não escolhe hora para ligar para nossa casa. Por questões de preço de tarifas, acredito que perturbam menos pelo celular. Mas, volta e meia, enchem a nossa paciência com torpedos e mensagens curtas, nos convidando a participar de diferentes tipos de concurso ou sorteio. Ligam, ligam, e quando não nos acham, perguntam logo: “A que horas podemos encontrá-lo em casa”? Se a gente responder, “meia-noite”, pode ter certeza que à meia-noite o telefone toca, desta vez, com a voz da pessoa do turno seguinte, ainda tentando falar com a vítima daquele dia específico. É um horror! Ninguém escapa. Enquanto eles não nos acharem e martelarem nos nossos ouvidos suas ofertas, o nosso nome não sai da lista.

Muitos são os produtos e serviços que nos querem empurrar goela abaixo. A moda agora é degustação de jornal. Num dia desses, me mandaram uns exemplares do jornal mais popular da Bahia para que eu o ‘degustasse’ por uma semana. Achei ótimo, mas com o pouco tempo que dispunha para ler um diário, o jornal ia se acumulando no quarto de empregada e fatalmente seus cadernos serviram para limpar os vidros da casa nos dias de faxinaço. Duas semanas depois, me liga uma garota da equipe de telemarketing do jornal me perguntando se eu gostara da degustação. Antes que eu respondesse qualquer coisa, já foi logo me dizendo que eu poderia aproveitar aquela oferta maravilhosa por não sei quanto por mês. E eu sem ação. E me disse que se eu não quisesse a promoção completa, poderia optar apenas pelo sábado e domingo. “Pronto, o que o senhor me diz?” E eu disse-lhe que não queria por que mesmo degustando o jornal com todo prazer, não tinha tempo para ler tanta coisa. Para encurtar a história, levei quase meia hora para me livrar da tal história da degustação do jornal. Quase tive uma síncope. Ou seja, a degustação quase de causou uma úlcera ou uma diarréia daquelas. Mas também, quem mandou comer papel...

Esses insuportáveis nos aprisionam igualmente quando ligamos para os tais dos call centers de suas empresas e lhes avisamos que queremos cancelar algum serviço, inclusive aqueles incorporados sem a nossa autorização. As telefônicas são as campeãs nessas sacanagens. Ligo para uma delas e digo que quero cancelar uma linha fixa que não me serve mais, faço pouquíssimo uso e que todo mês me leva uma boa grana de taxa residencial. Cancelar? Essa palavrinha, para eles, é um Deus nos acuda. “O senhor tem certeza?”; “Tenho”. “Mas qual é o problema mesmo”? E aí começa a ser debulhado um rosário de “embromation” que não tem mais fim. Vamos pulando de mão em mão, de assistente em assistente, de protocolo em protocolo e nada de um acerto definitivo. Tenho certeza que quase todo mundo que quis cancelar algum serviço já passou por isso. E quando, finalmente, conseguimos vencer a batalha, não temos a garantia total de que a solicitação será atendida de imediato: “Alô, Senhor Domingos, aqui é da ... . O senhor tem certeza que não gostaria de avaliar os nossos planos antes de cancelar a linha?” Fui vítima disso uma cinco vezes. Confesso que na última ligação, quase, mas quase mesmo, mandei o cidadão se ... . Que luta inglória! Agora, é esperar a conta chegar. Ou não.

Enfim, amigos, não tem jeito. Se temos o nome limpo na praça e se assinamos alguma coisa, nosso cadastro é vendido para tudo o que é lista de telemarketing. Eu não sabia, mas tem gente que vive disso, coletando nomes de assinantes, compilando tudo em uma grande lista e vendendo para as chamadas ‘malas diretas’, passando nossas informações para um monte de ‘malas’ nos torrar a paciência via telefone. De novo, é uma luta inglória. Quem duvidar que fique em casa durante as férias. Eles atormentam a gente o dia inteiro. As empregadas, coitadas, já são vezeiras no assunto, já são quase íntimas dessa gente de tanto atender aos chamados do povo do telemarketing. Já sabem os horários, as empresas, as respostas. Sabem tudo. Até mentir a nosso pedido.

O negócio é tão violento que até o destino nos prega umas peças curiosas, entrecruzando os nossos caminhos. De recesso do meu trabalho nesses dias julho, estou em casa, escrevendo meus artigos, quando o telefone toca. Uma gentil e aveludada voz feminina me pergunta se eu conheço uma determinada empresa e se me interessaria em experimentar os seus serviços, tidos como diferenciados. Eu, claro, disse que não. Para minha sorte, ela não insistiu muito. A empresa, por coincidência, era a mesma onde minha mulher trabalhava. Minha mulher, naquele dia, exatamente, tinha sido demitida. Ah, o telemarketing. Nem assim, nem nos momentos mais complicados de nossa vida, eles nos deixam em paz!

"A que horas o senhor que eu ligue mesmo?" (Argggghhhhhhh!)

 Sávio Siqueira
 
 Doutor em Letras e Linguística, professor adjunto do Departamento de Letras Germânicas do Instituto de Letras da UFBA.

 

 

Inserido em:03/07/2009
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