O que fica depois da Parada Gay?
*Gustavo B. foi ver de perto tudo que rola na maior Parada Gay do Brasil com exclusividade para o dois terços
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Na segunda-feira pela manhã, dia 15 de junho, mal acabei de chegar a Salvador, e recebi um monte de ligações no celular. Eram meus amigos querendo saber se eu estava bem, se eu estava vivo. Não que eu tivesse sofrido algum acidente, ou que eu estivesse muito doente na semana anterior. O que aconteceu, querido leitor, era que eu tinha estado na Parada Gay de São Paulo, a maior parada gay do mundo, segundo os organizadores. O que todo mundo viu no dia seguinte foi a notícia sobre a bomba caseira que atingiu algumas pessoas que, após o término da parada, continuavam festejando nas proximidades do Largo do Arouche. Este foi só o mais divulgado de tantos outros atos de violência que ocorreram naquele evento. No retorno pela Avenida Paulista, já a noite, ainda fui atingido pelo gás de pimenta que a polícia usou para afastar grupos que brigavam por ali. Aí nessa hora a gente para e pergunta: deveria mesmo ser assim? Isso aqui não deveria ser um momento de celebração à diversidade? De protesto e reivindicação política? Um dia para mostrarmos ao mundo quem somos, o que queremos, que merecemos tanto respeito quanto qualquer outro cidadão? Sim, deveria ser!

Mas infelizmente, a falta de politização é nítida num evento como esse. Mesmo este ano, em que (polêmicas à parte) diversos trios dos grandes clubes ficaram de fora, deixando mais espaço para entidades voltadas para a defesa dos direitos da comunidade LGBT, o que se via era um grande carnaval. Que a visibilidade do evento é muito importante, ninguém pode negar. Mas a maneira como a Parada é conduzida pode ter efeitos os mais diversos, e aproveitar um momento em que os gays de todo o Brasil estão reunidos em São Paulo é fundamental para que se possa dar um passo à frente na busca pelos nossos direitos. Na semana “pré-parada” a única coisa com que as pessoas se importavam era “qual a balada que vai ferver mais?”, “onde vão estar os mais bombados?”, mas não se ouvia falar muito em fóruns de discussão, mesas redondas para debates ou coisas do tipo.

O que ainda se pôde ver na quinta-feira, no Vale do Anhangabaú, foi a Feira Cultural LGBT, com cerca de 120 tendas, que vendiam de pulseiras a livros, de cuecas a camisas com letreiros luminosos que mais pareciam placas de posto de gasolina. No mesmo lugar estavam sendo realizados shows com algumas bandas e apresentações de drag queens. O som estava péssimo, abafado, e você não sabia se estava ouvindo o som de um ou de outro palco. Mas quem deu uma olhada pelas tendas talvez tenha encontrado algo de interessante para levar para casa.

Uma grata surpresa para mim foi encontrar Fernando Figueiredo e Laci Araújo numa das tendas divulgando seu livro “Soldados não Choram”, lançado pela editora Globo desde o ano passado. Após a repercussão de quando eles foram capa da revista Época, ao acusarem o exército de perseguição, a vida dos dois pareceu ficar ainda mais complicada, e o clima piorou ainda mais dentro das Forças Armadas. Fernando já está fora das fileiras do exército. Laci ainda não pôde fazer o mesmo devido a estar respondendo a alguns processos internos na instituição. Mas a tenda onde eles estavam tinha bem menos gente que nas tendas das tais camisas dos letreiros de posto de gasolina.

Na sexta-feira e no sábado foram os dias em que a badalação tomou conta da cidade. Tinhas as festas do roteiro conhecido de todos, como a Bubu Lounge, na sexta-feira ou a The Week no sábado, além das festas durante o dia como foi o Gay Day no PlayCenter ou a Pool Party, organizada pela The Week no Clube de Regatas Tietê. Além disso haviam os famosos Afters, as festas que seguiam manhã adentro em vários clubes da cidade. Não precisa nem comentar que todas essas festas estavam lotadíssimas, né? Corpos esculpidos durante um ano inteiro de academia desfilavam por todos os cantos de Sampa.

Eu até que gosto dessa ferverção toda. Não vejo nada de mal em fazer exposição da sua figura na Medina paulista. Mas se pelo menos um décimo dessa energia pudesse ser voltado para as questões políticas pelas quais precisamos lutar, estaríamos muito adiantados no que diz respeito aos direitos da comunidade LGBT. Sabemos que a justiça brasileira já está atenta e há jurisprudência para alguns casos nos quais os magistrados, por exemplo, reconhecem os direitos em relações homoafetivas. Mas não podemos contar só com isso. O que ainda é necessário é que o Poder Legislativo brasileiro acompanhe as mudanças em andamento e faça com que os projetos de lei, travados há anos no Congresso, continuem em andamento. Para isso é necessário que as nossas manifestações tomem outros rumos. Esperemos que na Parada Gay de Salvador não haja tanta violência, e que nós consigamos despertar a atenção da sociedade para o que realmente importa: nosso futuro.



 

*Gustavo B é o mais novo colaborador do nosso site.

Aguardem as novidades .

 

Inserido em:18/06/2009
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