As funções anal: excreção (heterossexual), e excreção e prazer sexual (homossexual "passivo")
Por Valdeci Gonçalves
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O ânus é um órgão que, para o heterossexual, deve ter unicamente a função excretória, e que, junto à vigilância de não se efeminar, compõe as obrigações fundantes do masculino. Leia mais na coluna tempo real

Desde tenra idade, são estas pré-condições que fazem o menino, na sua identidade de gênero, perceber-se diferente e superior ao homossexual "passivo" e a mulher. Tomando por base estas ilustrações, pode-se deduzir que o homossexual "passivo" é aquele sujeito que subverte essa ordem, e elege o ânus, além da sua função fisiológica, como fonte de erotismo e gozo sexual. E, ainda fere um outro princípio masculino, por não apresentar atributos masculinos e desejo sexual pelo sexo oposto, que enfatizam o homem viril. Do contrário, ele manifesta trejeitos e maneirismos que são típicos do feminino, ou seja, ele se efemina.

Talvez, a questão da virgindade anal associada à masculinidade seja um tabu mundial. No entanto, parece mais acentuado nos países de cultura machista a exemplo do Brasil. Em 19735, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) decidiu oficialmente que a homossexualidade não é doença, e a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1993, retirou o homoerotismo da categoria dos transtornos mentais. Mas, essa empreitada sugere ter surtido pouco efeito prático, de modo que, mesmo neste início do século XXI, era da inclusão e da diversidade, ainda perdura o ranço homofóbico.

A conduta "passiva" também norteia as práticas sexuais dos bissexuais e entendidos - indivíduos que, em geral, apresentam características marcadamente masculinas -, mas não de maneira exclusiva. O que diferencia o homossexual "passivo" é, de algum modo, a sua suposta preferência e freqüência de ser penetrado no coito homoerótico e, sobretudo, os trejeitos. Segundo Green (2000), por causa disto, é taxado de "viado" ou "bicha" (pederasta passivo). Este termo seria uma adaptação aportuguesada do francês biche (corça), feminino do veado; e àquele, em razão da percepção popular ter associado ao bicho veado, por considerar esse animal, como o mais frágil, delicado, e efeminado da fauna (Parker, 1991).

A despeito de que, informa a Cartilha ABC dos Gays (1996), que é somente no Brasil que existe esta associação entre o veado e o homossexual. Na Europa, por exemplo, este cervídeo representa a masculinidade, e é símbolo nacional de alguns países. Se por um lado, quando não atribuem ao homossexual "passivo" à condição animalesca, por outro, ao tratá-lo como gente, o remete a um patamar inferior ao feminino da mulher (SEFFNER, 2003). Enfim, pesa sobre o homem que, no ato sexual, é penetrado, o estigma da virilidade perdida (TREVISAN, 2002), mas não necessariamente, desde que não apresente a visibilidade do estigma ou efeminação. Em outras palavras, prevalece a impressão de ser tolerado que o sujeito se comporte "passivo", não havendo nada de extraordinário nisso. Porém, se ele torna evidente essa preferência, por meio da visibilidade, estará instigando um mal estar no seu entorno, portanto terá que arcar por essa transgressão (SILVA, 1999). Parece pertinente perguntar o que promove o social a infligir essa desvalorização no sujeito que apresenta esse signo?

A tentativa de atenuar o preconceito e a homofobia, por meio da suavização de termos que fazem referências ao homossexual, se mostra ineficaz. O termo gay, que, literalmente, significa felicidade e alegria, surgiu em 1960, nos Estados Unidos e na Europa, e teve como objetivo substituir a denominação médico-legal "homossexual", que está associada à patologia e ao crime. Mas, no Brasil, terminou por incorporar o mesmo sentido pejorativo de "bicha" e "viado" (Lima, 1995). Para BUTLER (2003), o gay é para o heterossexual o que uma cópia é para uma cópia, e não uma cópia deste. No entanto, ele não pode assumir a posição de sujeito falante no interior do sistema lingüístico das sociedades heterossexista. Pode-se dizer que também, na maioria das vezes, na sua existência social.

A pós-modernidade é tipicamente a cultura da emancipação individual estendida a todas as idades e sexo (LIPOVETSKY, 2005), todavia, esta mudança liberal ainda suscita o arcaico, a exemplo do uso ânus como órgão sexual de prazer que, para o homem está vetado, uma vez que, essa modalidade erógena e sexual, está fortemente vinculada à conduta homossexual, no caso, "passiva", e a visibilidade do estigma, ambos socialmente condenados. O homem para ser macho tem que, no uso do seu corpo, recorrer unicamente ao seu pênis como instrumento e meio de prazer, para que não deslize para a sexualidade do "diferente".

Esse "diferente", ou seja, o sujeito homossexual com "visibilidade do estigma" (GOFFMAN, 1988), "desterritorializado" (GUATARRI, 1992), consiste numa ameaça, e pode ser chamado de "forasteiro" ou "estrangeiro" (WOODWARD, 2005). Bauman (1999) prefere denominá-lo de "estranho" que, no seu entender, não é um recém-chegado, temporariamente deslocado, mas, um eterno nômade errante e sem esperança de "chegar", que se situa entre a ordem e o caos, dentro e fora. Este ponto de vista, é corroborado por Trevisan (2002) quando diz que o homossexual, na realidade, parece colocar a masculinidade em questão, e a denuncia como insustentável, (ele) é um instaurador de dúvida que abre espaço para o diferente. Desse modo, se constitui num signo de contradição para a normalidade, um desejo, um devir como afirmação de uma identidade itinerante. Enfim, o homossexual é esse "estranho" que não "chega" nunca, e que desassossega o social por não fixar-se, e assim, potencialmente, pode transitar entre os pólos extremos do masculino e do feminino.

Embora a orientação sexual seja uma construção subjetiva, no entanto, ainda nos dias de hoje, para se definir o que é ser homem utiliza-se como critério a questão do gênero masculino, toma-se como base o aspecto biológico (BORIS, 2002). Talvez, porque as sociedades precisem de um verdadeiro sexo, bem definido, sem ambigüidade que não remeta às incertezas, e que, assim, não se traduza em complicações sociais (FOUCAULT, 1985, 1990).

 

Inserido em:13/02/2009
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