Sobre corpos que pesam por Roberto Ney Araújo

Opinião
11 de março de 2020
por Genilson Coutinho

Roberto Ney Araújo

No carnaval eu sempre costumo fazer algo que destoe da minha tradicional rotina de advogado (tentando driblar a normatividade, mas sem conseguir escapar dela). Antes de contar o caso, necessário demarcar alguns pontos: o primeiro é que sou um homem cis, gay, solteiro (não é propaganda, mas já sendo), negro (mas com os diversos privilégios de não ter uma pele retinta) e com cabelo liso (o cabelo será importante para o desenrolar da história); o segundo é que eu escapo, e muito, das construções heteronormativas hegemônicas de masculinidade. Devidamente esclarecidos os pontos, nesse carnaval decidi aflorar um desejo que já tinha há muito tempo: trançar o cabelo. Mas, como a intenção era bater cabelo na pipoca de Daniela e nos Mascarados, decidi colocar tranças loiras e compridas. Comprei a fibra, encarei os puxões que pareciam que iriam virar meu couro cabeludo do avesso e, finalmente, fiquei lindo e loiro. Já na saída de Pernambués, bairro onde reside minha trançadeira babado, deparei-me com a primeira situação que me trouxe diversas reflexões. Ao entrar no Uber, o motorista perguntou se me chamava de senhor ou senhora (eu estava de bermuda, camiseta regata e tênis). Como ainda estava com uma leve dorzinha na cabeça e, atrasado para o show de Gal, na Concha, decidi apenas pular a resposta e perguntar como estava o trânsito até Brotas. Faltava uma semana para o Carnaval e eu teria, dois dias após, uma sequência de Festa do M.E.B., Ensaio de Aline Rosa e Ensaio do Cortejo Afro. Cheguei em casa e fui para o show de Gal. A sensação que eu tinha era a de que a Concha inteira estava olhando para mim, quando cheguei já na quarta música do show. E, pelo menos uma boa parte, realmente estava. Até aí, sem problemas. Mas percebi sutilmente que havia algum questionamento diferente naqueles olhares que eu ainda não sabia exatamente qual era. No dia seguinte, fui fazer uma audiência e, óbvio, eu parecia a Lady Gaga com roupa de carne no prédio da Justiça do Trabalho. Mas até aí, tudo bem também, afinal, isso também aconteceu quando fui, ano passado, com o cabelo descolorido. No baile do M.E.B., no dia seguinte, comecei finalmente a despertar para uma experiência que já estava vivendo, mas meus lugares de privilégio não permitiram que eu me desse conta. Dentre tantas outras coisas, fui chamado de gostosa, apalparam minha bunda algumas vezes, os homens gays que estavam no local mal me olharam e, óbvio, não passei nem perto de dar um beijinho. Domingo fui ao ensaio de Aline Rosa e a cena se repetiu, só que lá havia uma legião de homens gueis, pocs, barbies, mascullynas e afins. Segunda, no Cortejo Afro, adivinha? Dei um beijinho em um rapaz que, no final, pediu para tirar uma foto pois, abre aspas, meu cabelo estava babado. Nesse dia, eu já estava mais atento aos sinais e pude constatar diversos olhares de ojeriza. Os homens, inclusive uma meia dúzia que eu já havia dado uns beijinhos em tempos idos e vindos, me olhavam curiosos, espantados, alguns até puxaram as tranças (nunca façam isso), mas ficou claro que, naquele momento, eu estava fora do rolê de pegação e do quase beijaço coletivo, característico dos ensaios do Cortejo. As tranças me tiraram completamente do local de homem cis e me colocaram numa espécie de limbo identitário, no qual eu não me encaixava exatamente como um home cis, mas também não me encaixava, aos olhares curiosos, como uma mulher trans. Entretanto, as tranças foram o suficiente para que os olhares – e os comportamentos – direcionados a mim, fossem completamente alterados. A partir daí, veio o outro ponto que também foi extremamente doloroso: passei a ter um certo receio de estar sozinho, principalmente em lugares com grande concentração de homens. Entre as idas na Avenida Sete e ao mercadinho da esquina para comprar frutas, ouvi frases como “você agora é mulher?”, “tá uma gata, amigo” e “desse jeito eu te como toda”. Cinco dias antes de ouvir essas frases, em 33 anos, jamais as havia ouvido. Mas eu sou rebolativo, não falo grosso, não sento de perna aberta e estava com tranças loiras. Resolvi abstrair, me jogar no Carnaval e bater cabelo nos mascarados, mas cada olhar me trazia de volta para os diversos questionamentos que pairavam na minha cabeça. Durante praticamente todo o carnaval eu costumo transitar pelos lugares onde há uma grande concentração de pessoas LGBTQIA+, sobretudo de homens gays. As tranças, associadas a outros fatores já mencionados, fizeram-me entender o quanto somos transfóbicos e o quanto reproduzimos as estruturas misóginas e opressoras da heteronorma. Percebi o quanto nosso desejo é socialmente forjado e construído para reproduzir uma estética padrão opressora, racista e gordofóbica. No sábado de carnaval, por razões de coceira, dor de cabeça e cansaço de um monte de coisa vivida até então, tirei as tranças. Continuei batendo meu cabelo imaginário, continuei rebolando a raba a cada passo, continuei jogando minha franja imaginária para trás da orelha, mas volta e meia chegava alguém para dar uma cantada barata, aquele olhar 43 ou aquela caminhada reta, desbravando a multidão, que já deixa claro que o cara está vindo na base do beijo. Eu estava livre, leve e, ao chegar em casa, percebi que o peso não estava na fibra que estava amarrada ao meu cabelo. O peso estava no estigma que foi trançado em minha cabeça junto com cada fibra amarela. Durante os dez dias com tranças, pude perceber o quanto existem corpos que pesam nessas escalas de violências, de vulnerabilidades e de falta de afeto. Num piscar de olhos, voltei a ser o homem cis de cabelo liso que, justamente por ter o cabelo liso e a pele não retinta, tem grande passabilidade na engrenagem racista-epistemicida que vivemos. Num piscar de olhos, voltei a despertar desejo. Num piscar de olhos, já não andava mais na rua com medo de me perder das minhas amigas e ficar sozinho no meio daquela multidão de olhos tortos. Ver tantos olhares simbólicos foram importantes para que eu aprenda a olhar para as pessoas de outras formas. Sem exotizar os corpos, sem execrar os corpos, sem julgar ou menosprezar os corpos, sem violentar ou invadir os corpos. Ver tantos olhares perversos, tem me ajudado a descolonizar meus olhares e meus desejos, moldados por tantas normas. E você, como tem olhado?

Roberto Ney Araújo, 33 anos, Advogado especialista em Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra/Portugal, Professor e Vice Presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/BA.

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