Sobre a ditadura das famílias e seus modos de tortura por Murilo Arruda

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28 de março de 2012
por Genilson Coutinho

A notícia do suicídio de um jovem de 17 anos, de Manaus, que não resistiu às investidas dos pais e avós, esconde e traz a luz uma verdade pouco falada: o suicídio motivado pelo amor que os correlativos familiares julgavam devotar ao jovem filho-neto, uma pessoa em crescimento, uma subjetividade em formação, uma biografia que se compunha entrelaçada por sentidos de familiares e não familiares.

“O  suicídio do estudante R.A, de 17 anos, levou o Colégio Auxiliadora a declarar luto e a suspender as aulas nesta sexta-feira [em Manaus]. Rodrigo cursava o segundo ano, era extrovertido e considerado pelos colegas “uma pessoa meiga e amiga.As causas do suicídio não foram divulgadas, mas em sua página no Facebook Rodrigo se queixa dos familiares. Ele era de  Parintins, mas morava em Manaus na companhia do pai e da avó.”

(http://www.portaldoholanda.com/noticia/aluno-do-auxiliadora-comete-suic-dio-col-gio-decreta-luto-e-aulas-s-o-suspensas , acessado em 13/03/2012, às 06h24)

E, na despedida do jovem, em sua página numa rede virtual ele afimou:

“Eu tava esperando o momento certo para fazer isso. Mas o momento é o mais cedo possível. Podem falar para quem quiserem, eu não ligo, nunca fui o certo nessa história. Mas eu só preciso justificar isso. ######## ####### [duas palavras borradas pelo site-mídia]. Me desculpem, é tão difícil sair de um lugar e perder tudo que você tem e para um lugar que sua mãe diz que não lhe quer, seu pai diz que pode matar você e que sua avó age como se você tivesse uma doençaTem pessoas como a ########## e você, Larissa, que são uma das poucas pessoas que me restam, eu perdi tudo. Mas eu também cometo erros. Muito mais do que todo mundo. É só que perder vocês significaria muito mais para mim. Yuri, todos nós temos problemas mesmo. E, pessoal eu sei que vão ler isso e rir de mim, mas não é humilhação, não para mimPedir perdão nunca tem sido. Pelo contrário tem sido presente em cada dia da minha vida.Enfim, se me entenderem, eu agradeço, se não, só quero viver em paz. Me perdoem, é só que vocês tem todos e eu?Vocês só tem tudo que eu queria. Me perdoem.”

(http://www.portaldoholanda.com/noticia/aluno-do-auxiliadora-comete-suic-dio-col-gio-decreta-luto-e-aulas-s-o-suspensas , acessado em 13/03/2012, às 06h24. Sublinhado e negritado por mim)

 

Usar um tom emocionado é uma forma de compreender o que não se diz sobre esta “coisa” que somos pedagogizados sociomoralmente para “amar sobre todas as coisas”, a família: pai e mãe – e correlativos próximos numa escala de gradação, após esses dois. Essa pedagogiasociomoral esconde-se sobre a égide amplamente aceita que “amar pai e mãe sobre TODAS AS COISAS” e, por conseguinte, a família é para além de divino natural. O próprio mandamento divino é um vocabulário que pedagogiza, educa, forma personalidade, molda a carne. O chamado “amor” familiar é um dos veículos mais poderosos para educar, na medida em que ele nos chega por palavras e afetos cheios de sentidos: isso nos forma como pessoa, junto com tantos outros sentidos que nos são ofertados por outras instituições-instintuídas.

A questão torna-se capital com jovens LGBTTTIAQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Intersexuais, Assexuais e Queers) no ponto que sua “transgressão” fere a moral social em seu íntimo carnal, na carne das pessoas adultas formadas com valores morais-geracionais, que parecem atemporais. Esses jovens são vistos como fonte de humilhação para uma família. Algo como se elas “não soubessem educar” seu pedaço, sua propriedade; esses jovens, enquanto sexualidades transgressoras presentes no espaço privado da família fazem com que este tema denso e silenciado no íntimo de todas as pessoas venha à baila. Mas emerge com a presença sexualizada desses jovens, o próprio valor social, a carne ferida da família é carne de pessoas, biografias adultas, preenchidas de sentidos que a sociedade insiste em não abrir mão. A atual pauta legislativa de “cura pela psicologia”, presente no nosso Parlamento, reflete essa paixão social pelo ódio à diversidade de gênero. Os nossos pais, mães avós, irmãos e demais familiares são, por um lado, produto do meio. E, por isso, nossos carcereiros vigilantes, torturadores eficientes e carrascos autorizados – matadores investidos socialmente.

Nem sempre, como no caso em questão, e na maioria das vezes não é o que acontece, nossos familiares chegam a ser carrascos. No dia-a-dia de jovens transgressores da ordem de gênero, trata-se de um convívio com carcereiros e torturadores. Carcereiros no sentido de opressores da subjetividade, vigilância que obriga os jovens em idade de dependência familiar a calarem-se, reprimir desejos, moldar vozes, acorrentar movimentos. Olhares daqueles que foram educados a amar incondicionalmente, com doação. Esses olhares nos fazem culpados, bandidos, sub-humanos. Mas trata-se também de tortura. Estes mesmos olhares insistentes, constantes, são cheios de sentidos que nos formam; que doem como uma carne rasgada e/ou eletrocutada em sessões dignas de ditaduras. A duração destes efeitos está em pessoas que se obrigam a submeter ao casamento heterossexual, pessoas que buscarão por relacionamento às escusas, pessoas que desejarão corpos com movimentos e vozes próximos ao ideal social de feminilidades e masculinidades. Esses caminhos, entre tantos outros, são tentativas de viver às escusas uma relação próxima àquelas aceitas no mundo público e com isso ter a possibilidade de transitar por entre os normais-e-familiares. A ditadura familiar obriga também seus subversivos a viverem como pessoas “normais” dentro de casa e uma pessoa “real-plena” na rua. Mas estes últimos subversivos são aqueles que estrategicamente burlam a vigilância silenciando-se e fingindo viver de acordo com a ditadura familiar. Estes, de certa forma, não aceitam a negação; estes lutam silenciosamente pela possibilidade de ser, de existir em consonância com seu desejo. Mas esses apesar de fingir e lutar contra os imperativos familiares, acabam por serem vítimas. Vivereão sob cobranças: “você tem X anos e até hoje não tem namorada(o)”, por exemplo. Esse é um dos modos de vigiar e torturar do familiar carcereiro-torturador-carrasco que ama.

Só no limite, como para os subversivos de outrora, os jovens vistos apenas como lascívia, sexualidade, chegam a ponto de mitigar o peso de viver, através da aniquilação da vida. Recurso extremo, a aniquilação da vida não torna a família de um jovem suicida mais criminosa que as outras. Agindo como carcereiros, torturadores e/ou carrascos, familiares estão acionando, atualizando e garantindo a manutenção dos valores que autorizam essas três formas de agir olhando, afagando e/ou falando. O jovem de 17 anos foi uma vítima que deixou esse modo de educar/agir nos espaços familiares registrado. Mas, ele é um herói! Se suas palavras serão risíveis para uns como ele mesmo antevia, será motivo de indignação, de padecer no íntimo de sua carne/história para outr@s. Felizmente, essas palavras também serão acionadas com outras responsabilidades,diferentes das minhas, mais diretas – por ativistas, militantes e tantas pessoas sensíveis que vêem humanidade onde pais e mães (pessoas cheias de amor) vêem o abominável, o que é digno de morte.

Penso que família não se esgota nesse cenário de tragédia. Família processa-se num espaço de contínua ressignificação. O sofrimento experienciado por jovens é parte, de forma ininterrupta, nos cursos de vida de muitos adultos de hoje e de amanhã. Muitos não se reconhecerão em minhas palavras, vivem em outros espaços familiares, espaços com circulação de outros sentidos, onde o jovem não é reduzido ao jovem-sexualidade acima mencionado. Mas muitas famílias atuam como agentes desses valores sociais apaixonados pelo ódio. Enquanto houver casos assim precisamos, falar, gritar, contra a coisa social que guarda a mais dolorosa e mortificante dos meios sociais de pedagogizar-educar-formar jovens LGBTTTIAQ: a família.

[1] Murilo Arruda, doutorando em Ciências Sociais pela UFBA, atualmente, é um dos coordenadores do GLS, Grupo de Leituras em Sexualidade, Saúde e Corpo (grupo vinculado ao ECSAS/UFBA) e Professor Visitante do Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, IBPEX/UNINTER. Trabalhou, em suas investigações sociais, com temática tangente aos estudos de Religião, Família, Gênero e Sexualidade.