Sexualidade é da esfera privada ou da esfera pública? Por João Barreto

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17 de agosto de 2011
por Genilson Coutinho

A violência homofóbica por todo o país semanalmente faz vítimas. Tanto quanto a própria violência, me entristece ouvir um certo discurso entre a população LGBT de que sua vida pessoal não diz respeito a ninguém. Algo como “o que eu faço no quarto, interessa somente a mim”. Verdade, sexo é da esfera privada, por isso, não o praticamos nas ruas.

Porém, acredito que se continuarmos nos escondendo sob este argumento, em breve até segurar na mão do namorado ou do cônjuge do mesmo sexo será uma atitude restrita ao quarto. Lembrem de Stonewall, gente, lembrem de Stonewall. A sociedade brasileira precisa compreender que estamos por toda parte e que a livre expressão do desejo sexual não deve se conformar com a norma heterossexual. Ainda, que existem diversas formas de constituição da família tão saudáveis quanto a heteronormativa. As mães solteiras e os pais solteiros bem sabem disso.

Sair do armário é difícil, claro, especialmente para a família. Como bem disse a Wanda Sykes, ninguém nunca teve que sair do armário como negro: “Oi, mãe, pai, sou negro, espero que você ainda me amem”. Ou como mulher. Posto que é relativamente fácil identificar origem étnica e gênero, a não ser talvez nos casos de interssexualidade. Já, a expressão da sexualidade e do afeto não é tão fácil de identificar. Sair do armário é, pois, a atitude política mais básica.

Por que interessa aos outros o que faço no quarto? Na verdade, não interessa, mas somos reprimidos e agredidos o tempo todo. Afinal, a pergunta que se impõe é: quem nos colocou no armário? A sociedade heteronormativa. Omitir a sua orientação sexual distoante da norma heterossexual não seria então concorrer com a opressão contra si mesmo? Por isto, gente, assumir orientação sexual distoante da norma é sim uma questão de ordem pública. É de interesse público, político e humano!

Neste contexto, eu me pergunto se sair do armário não é mesmo uma obrigação moral de todo e cada cidadão LGBT. O pior que poderia acontecer já acontece todos os dias. Para cada vitória política, temos que contar os mortos e cuidar dos feridos que não estão resguardados pela lei. Até Dia do Orgulho Hetero querem criar agora (leia mais na Revista Época e na Carta Capital). Suponho que o Dia do Orgulho Branco e o Dia da Violência contra a Mulher devam suceder o Dia do Orgulho Hetero, posto que são filhos da mesma lógica perversa. Lembrando que, como muitos publicaram nas redes sociais, nunca se viu heterossexual tomar lâmpada fluorescente na cara só por ser hetero.

 

Nós, seres humanos, não viemos de linha de montagem. A nossa própria sobrevivência depende da diversidade de nossos gêneros, cores, orientações sexuais e diversidade cultural. Nós só queremos respeito. Como querer respeito então se você não se respeita, se você não se ama do jeito que você é? Manter-se invisível não resolve e nem ajuda ninguém, nem a si próprio.

João Barreto – Jornalista

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.

witter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/