Sempre tem festa no gueto Por João Barreto

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26 de outubro de 2011
por Genilson Coutinho

Hoje tem festa no gueto, pode vir pode chegar… Valeu, Ivete. Mas sempre tem festa no gueto porque é necessário festejar para esquecer a miséria humana. Tem uma graphic novel de que gosto muito chamado Maus (ou “ratos” na tradução) de Art Spiegelman, que reconta a história da ocupação nazista e do holocausto pelo viés de um sobrevivente, o pai do próprio artista. O pulo do gato, se o leitor me permite o trocadilho, é que os judeus na graphic novel são representados em forma de ratos, e os alemães como gatos. Os traços secos lembram os quadrinhos iniciais de Walt Disney, mas em preto & branco e sem final feliz.

Genial! Visto que é a uma vida como ratos que os judeus da história são submetidos nos guetos da Polônia, escondidos em buracos, lutando por restos de comida e traindo uns aos outros em uma tortura pela esperança. E os judeus poloneses mereciam viver menos do que os alemães? Não. Pois é, ninguém merece viver menos visto que ninguém é menos humano do que ninguém. Foi apenas uma grande guerra entre muitas nações com perdas humanas, econômicas e culturais irreparáveis para o mundo todo.

Maus é uma leitura maravilhosa, especialmente para aqueles que estão tentando entender os conceitos de hegemonia, de ideologia ou de opressão de uma cultura por outra. Em 1992, Spiegelman foi agraciado com um “Prêmio Especial Pulitzer”, visto que a comissão julgadora não se sentiu confortável em especificar se Maus era uma obra excepcional enquanto relato jornalístico ou enquanto relato literário ficcional. Na dúvida, levou um prêmio híbrido que reconhecia essas duas facetas do trabalho.

 

Maus serve para nos lembrar que as paredes que protegem também isolam do mundo e não há paz quando uma cultura soprepuja outra e aqui entramos na segunda recomendação bibliográfica. Falemos sobre o choque de civilizações.

 

A ideia de choque de civilizações foi denvolvida por um cientista político chamado Samuel P. Huntington em uma aula em 1992 que, um anos depois, tornou-se um livro cujo título era O Choque de Civilizações – Refazendo a Ordem Mundial em uma tradução livre.

Para Huntington, na era pós Guerra Fria, com a queda das ideologias, os principais conflitos estariam pautados por distinções culturais e religiosas, visto que são os elementos que, no mundo globalizado, segregam, distinguem e oprimem. O livre mercado, o capitalismo, e a comunicação de massa nos uniu; a cultura nos separa porque nenhuma cultura é forte o suficiente para se manifestar com homogeneidade em todos os locais do planeta.

Mas como a cultura oprime? Ora, há uma cultura hegemônica, geralmente associada aos donos do poder político e econômico. O poder político e econômico se desdobra na estrutura social. E como isto nos diz respeito? Nós somos LGBT em um país machista, hetenormativo, branco e cujo poder encontra-se na mão daqueles mesmos indivíduos que habitam o topo da pirâmide socioeconômica. Contra esta cultura, há nichos de resistência e liberdade: os nossos guetos.

Mas você não disse que o gueto é do mal? Disse. E é. Porque apenas existir enquanto subcultura em oposição à cultura mainstream não muda nada, é só uma gota no copo. É como dizer que criticar o político corrupto no programa de humor é revolucionário. É claro que o riso de escárnio é uma forma de protesto por si só, mas qual é o seu efeito de longo prazo? Criar um ritual. Rir do político corrupto passa a ser ritual e costume e, como tal, ineficaz. O risto de escárnio é uma forma de protesto porque diminui o alvo do escárnio e o remove de sua posição de poder, tira a sua pompa. Por outro lado, isto não tem efeito algum no longo prazo porque as piadas se perdem, se tornam anedotas, viram lenda. O político acaba ficando até terminar o mandato e, sem Ficha Limpa, volta quatro anos depois. E é com o longo prazo que eu me preocupo.

Vamos ficar indefinidamente no gueto? Esperando a morte chegar? Esperando a chuva passar? Rindo dos heterossexuais e de seus rituais e práticas socioculturais que nós, prontamente, cooptamos, afinal alguns de nós querem “casar”, “ter marido” etc. Não digo que é errado. Mais isto sinaliza que, no fundo, boa parte do riso de escárnio envolve inveja. Porque a vida no submundo não é confortável. E nós estamos presos no gueto há tanto tempo… Até quando? A única opção que vejo é colonizar outras terras. Se espalhar, meu povo, se espalhar. Se os heterossexuais frequentam o gueto como lugar exótico, ponto turístico etc, por que não frequentar lugares eminentemente heterossexuais como afirmação de direitos?

A única solução que vejo é a integração e não há integração sem esforço, por mais assustador que isto pareça.

 

Por João Barreto

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.
witter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/