Sala Vip especial com Edson Bastos diretor do premiado Curta Joelma

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25 de novembro de 2011
por Genilson Coutinho

Vítima de disforia de gênero, distúrbio causado pela inadequação entre o aspecto físico e a personalidade, desde muito cedo Joelma precisou aprender a lidar com o preconceito da sua família e da cidade onde morava. Diante das divergências vividas no lar, é posta pra fora de casa e resolve se mudar para Salvador. Lá, conhece Antônio, um mendigo. Eles se envolvem e passam a viver juntos. Estimulada pelo companheiro Antônio, resolve fazer a Cirurgia de Redesignação Sexual, mudando assim seu sexo de nascimento. Já na década de 90, ao retornar para a cidade natal, Joelma busca viver em harmonia com a sociedade, que ainda é muito conservadora. Documentando, através da interpretação de um grupo de atores da capital baiana, a dramática história do primeiro transexual a aparecer publicamente na região de Ipiaú, o filme de 20 minutos percorre uma história narrada através dos anos 60, 70, 80 e 90, tendo o ator Fábio Vidal no papel principal. O Dois Terços conversou com o autor do filme que levou ganhou o Festival Mix Brasil na categora de Melhor Curta Nacional. Imperdível!

Dois Terços: “Joelma” tem como eixo a história das primeiras transexuais da Bahia. Conte-nos um pouco como foi esse processo de construção do roteiro do curta.

 

Edson Bastos: Comecei a construir o roteiro do curta “Joelma” entre os anos de 2006 e 2007, quando passei a conhecer um pouco mais sobre a história de uma transexual, ainda viva, que morava na cidade de Ipiaú e que tinha em sua trajetória uma vida marcada por diversos conflitos. Desde então, juntamente com Fernanda Bezerra, produtora executiva de Joelma, passamos a pensar nas possibilidades de transpor esse roteiro para as telas do cinema.

Escrever o roteiro de Joelma foi, sem sombra de dúvida, um dos grandes desafios que tive nos últimos anos. A fragmentação do roteiro, apresentando fases distintas da vida de Joelma, propositalmente me levava a fazer escolhas e consequentemente planejar ações que me guiassem às respostas necessárias.

Algumas informações precisaram ser modificadas, outras incluídas, alguns nomes omitidos para preservar algumas pessoas e para dar mais verossimilhança à história. Além do mais, tínhamos um orçamento limitado para realizarmos todas as cenas que havia no roteiro, portanto excluímos a parte da infância da personagem.

O roteiro aborda as décadas de 60, 70, 80 e 90. Contamos por meio de trechos da vida de Joelma o que era ser transexual em tempos de muito preconceito. Uma dura realidade. Desde então 11 tratamentos foram realizados até chegarmos ao final, que estava pronto para ser filmado.

 DT: Existe algum motivo especial que explique a escolha pelo tema?

EB: Sempre escrevo sobre personagens da cidade onde nasci e passei parte da minha adolescência. Ipiaú. É de lá que busco referências para mostrar para o mundo aquilo que vivi e vi. Foi assim com o vídeo de cinco minutos “Veras”, bon-vivant da cultura cacaueira, bissexual, sócio de Carlos Bastos na Boate Anjo Azul, empresário durante um tempo dos Dzi-Croquettes. Este curta foi premiado com menção honrosa pelo Festival de 05 minutos em 2007. Já por “Joelma” tenho um apreço especial, pois representa um amadurecimento em minha trajetória. Joelma é fragmentação em diversas instâncias: fragmentação do sujeito, fragmentação do discurso, da narrativa, da menor unidade de ação da linguagem cinematográfica. Foi a maneira que encontrei para representar o fenômeno da transexualidade por meio de imagens. Ser transexual é algo contemporâneo, é o rompimento de estruturas estagnadas que não evoluem e não nos levam a lugar algum. Ser transexual é apropriar-se do seu corpo, da sua estrutura física e psíquica e ser feliz da forma como sempre sonhou. A perda do falo tem um significado bastante expressivo em nossa sociedade castradora e dominadora de corpos. Apropriar-se do seu corpo, seja por meio de uma cirurgia de redesignação sexual ou por meio de uma tatuagem é ir de encontro à sociedade, à polícia, à igreja e à família, que também são instituições castradoras e dominadoras de corpos. Vivemos em regime de ditadura ainda, sim! Não podemos nos expressar publicamente, pois a qualquer momento podemos receber uma pedrada, ou mais constrangedor ainda, olhares que mutilam mais que qualquer facada. “Joelma” vem dizer que todo ser humano deve ser tratado com dignidade, independente da sua sexualidade, etnia, cor, etc… O filme é uma fábula sobre a relação do indivíduo com a sociedade, em busca da dignidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DT: O curta “Joelma” foi selecionado através de um edital da Fundação Pedro Calmon , que nos últimos três anos se abriu para temáticas LGBT na Bahia, contribuindo para difusão da cultura voltada para esse público. Como você tem vê estas ações?

EB Ações como estas mostram que o estado precisa estar em união com a sociedade, é a prova de que teremos segurança e respeito do poder público, que tudo indica, se mostra mais coerente em suas ações. A prova disso são os editais de Cultura LGBT, as conferências realizadas com o intuito de promover o diálogo junto a sociedade para promovermos políticas públicas que agreguem e incluam a todos. Precisamos de mais. Espero muito, um dia, viver num país onde todos sejam realmente iguais perante a lei, um país em que não haja cotas, nem editais temáticos, pois todos os indivíduos serão tratados igualitariamente, um país onde a homofobia seja erradicada das igrejas e dos políticos hipócritas. Ainda falta muito para chegarmos a esse patamar, teremos um trabalho árduo.

DT: No processo de construção do roteiro, você deve ter ouvido muitas histórias tristes sobre o sofrimento dos transexuais baianos. Teve alguma história que mexeu com você?

EB: Não só de transexuais, mas de diversos gays, travestis e lésbicas também. O sofrimento vai desde a uma agressão física, até psicológica. A própria Joelma sofreu discriminação e cometeu assassinato para sobreviver, está na história. O artista plástico Fauzi Maron, que foi assassinado por um garoto de programa, enfim… São muitos os casos e isso nos envergonha na condição de seres humanos pois somos incapazes de entender que somos diversos e pensamos diferente. O maior problema é a educação, pois ninguém é educado para aceitar o diferente, vivemos num país cristão, que se apega a valores totalmente deturpados, pois há pessoas que acreditam que aquilo que o pastor ou o padre diz é o certo e precisa ser seguido. Se soubessem que a Bíblia já sofreu inúmeras modificações de traduções… se soubessem que ser diferente é a coisa mais normal do mundo. E aí entra novamente o governo, como principal fomentador de um discurso em prol da educação da população brasileira. Por isso precisamos de deputados como Jean Wyllys, que defendam com unhas e dentes nossos direitos.

 DT: Fabio Vidal vive no curta a personagem principal da historia. Como ele foi escolhido para viver Joelma?

EB: Durante o processo de pré-produção, o produtor e preparador de elenco Camilo Fróes trouxe a sugestão de Fábio Vidal para viver o papel da Joelma. Foi identificação mútua. Nossa equipe ficou muito feliz com Fábio como protagonista e ele achou um desafio muito interessante viver Joelma no cinema. Inclusive ele foi até Joelma, na cidade da Ipiaú, para fazer pesquisa e voltou com todos os trejeitos no corpo, na fala e nas expressões. Diversas pessoas na cidade de Ipiaú o confundiam com a Joelma da vida real de tão parecidos que ficaram. Fábio é o ator perfeito para viver Joelma no cinema, não havia dúvidas, ele é sensacional. Não é à toa que recebeu o prêmio de melhor ator no Prêmio Braskem de Teatro pelo espetáculo Sebastião neste ano.

DT: “Joelma” trouxe o prêmio  de melhor Curta Nacional eleito pelo Júri popular para Salvador, conquistado na 19ª Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual 2011 ocorrido em São Paulo este mês Qual a importância deste prêmio na sua vida e qual mensagem você acredita ter deixado no público que escolheu “Joelma” como vencedor?

EB Receber um prêmio de reconhecimento do público do maior Festival de diversidade sexual da América Latina é um grande feito, perdi as contas das mensagens de carinho que foram enviadas a mim, de pessoas que torciam e continuam torcendo pela carreira do filme. Sinceramente, a ficha ainda não caiu, pois havia cinco filmes de São Paulo, dois do Rio de Janeiro e os outros de regiões fora do eixo Rio – São Paulo. É um reconhecimento muito grande, pois mostra que o público entendeu a nossa proposta e se identificou com a história de Joelma. Mostramos uma vida sofrida, cheia de batalhas, de tristezas, de vitórias, de incertezas, igual a vida de todo mundo e por isso mesmo acredito que a mensagem deixada por “Joelma” é de que todo ser humano deve ser tratado com dignidade e respeito, pois a melhor coisa desse mundo é a diversidade.