Remediar para prevenir?

Comportamento, Social
13 de agosto de 2014
por Genilson Coutinho

remedio

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou, pela primeira vez, que homens que fazem sexo com homens tomem medicamentos antirretrovirais como forma de prevenção à infecção por HIV, estratégia conhecida no léxico médico como profilaxia pré-exposição (PrEP). A medida, aplaudida por alguns e vaiada por outros, tem causado polêmica na comunidade homossexual e divide especialistas.

Segundo a OMS, se amplamente adotada, a PrEP pode reduzir em 25% a incidência de Aids no mundo, evitando até 1 milhão de novos casos da doença em 10 anos. A organização explica que a estratégia deve ser direcionada a homens homossexuais porque, de acordo com os dados mais recentes da epidemia, divulgados recentemente em relatório da Organização das Nações Unidas para a Aids (Unaids), esse grupo tem cerca de 20 vezes mais chance de se infectar com o HIV. A prevalência da infecção no grupo é de 10,5%, contra 0,4% no restante da população.

No Brasil, o cenário é o mesmo. De acordo com o Ministério da Saúde, o aumento de 11% nos casos de Aids de 2005 a 2013 (na contramão da tendência mundial de diminuição) se deve principalmente à transmissão entre jovens homossexuais.

“Temos uma tendência de estabilização e leve diminuição do coeficiente de incidência da Aids de maneira geral, mas é extremamente preocupante o aumento de casos entre jovens gays nos últimos 10 anos”, disse o ministro da Saúde Arthur Chioro, em fala na Câmara dos Deputados.

Além dos homossexuais masculinos, outros dois grupos são considerados vulneráveis à infecção por HIV: usuários de drogas e profissionais do sexo femininas, ambos com prevalência de Aids de 5%. O foco nos homossexuais, no entanto, é visto com preocupação por militantes da causa gay.

“É um grande retrocesso; com essa recomendação, a OMS joga a culpa única do aumento de casos nos homens que fazem sexo com outros homens”, comenta o presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, Fernando Quaresma. “Volta o conceito de grupo de risco que já havia caído por terra e aumenta-se o estigma de que a Aids é uma doença de gays, quando qualquer pessoa com vida sexualmente ativa está sujeita à infecção.”

O conceito de ‘grupos de risco’ para o HIV, que identifica as probabilidades de exposição de determinados grupos à infecção, surgiu logo que a doença foi identificada, na década de 1980. Mas, com o avanço dos estudos epidemiológicos e a ampliação dos casos de Aids em outras populações, a ideia deixou de ser usada. De grupos de risco, passou-se a falar em comportamentos e condições de vulnerabilidade.

“O que vemos é um pêndulo; quando a Aids foi primeiramente descrita, era chamada de ‘pneumonia relacionada aos gays’; mais tarde se descobriu que ela também aparecia em haitianos, homofílicos e etc.”, comenta o médico Paulo Lofufo, diretor do Centro de Pesquisa Clínica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) e coautor de um estudo recente que apontou queda de 1,5% no número de mortes por HIV no mundo entre 2000 e 2013. “Agora vemos a retomada do grupo de risco, uma noção equivocada, pois a relação heterossexual também é de risco.”

A infectologista Brenda Hoagland, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que participou do maior estudo clínico já feito sobre a PrEP para o HIV, o iPrEx, discorda e acredita que a recomendação da OMS não retoma a noção de grupos de risco.

“Não estamos falando de grupos de risco, mas grupos com vulnerabilidade para infecção: homens que fazem sexo com homens adotam práticas sexuais de maior risco de infecção, como o sexo anal receptivo”, diz. “A PrEP só é indicada para quem tem mais risco de infecção por HIV, não para todos os gays, mas somente para aqueles que estiverem mais expostos.”

Testada e aprovada

A PrEP já é usada nos Estados Unidos desde o início do ano na forma do comprimido Truvada, que combina dois antirretrovirais (tenofovir e emtricitabina). A liberação do medicamento para prevenção da Aids no país se deu depois da divulgação dos resultados do iPrEx, que avaliou o uso da droga em cerca de 2.500 homens homossexuais HIV negativos. A pesquisa mostrou que a PrEP teve eficácia de 44% para prevenir a Aids em indivíduos que usaram a medicação de 3 a 4 vezes por semana e de até 92% para aqueles que a usaram diariamente.
“Os estudos mostraram que o Truvada é eficaz e seguro”, afirma Hoagland. “Não é a solução para a Aids, mas é mais uma forma de prevenção que pode ser oferecida para as populações de maior risco junto com o preservativo.” A pesquisadora destaca que as pessoas deixam de usar a camisinha, em média, em 40% das relações sexuais e que a PrEP viria para cobrir esses deslizes.
Os ensaios clínicos concluíram também que a PrEP é segura e apresenta apenas alguns efeitos adversos leves, como náuseas e vômitos. Lotufo, no entanto, vê com cautela esse dado. Segundo o médico, os ensaios clínicos são limitados e não refletem a realidade da população, que pode vir a sentir mais efeitos negativos.
“Sou totalmente contrário a essa recomendação”, diz. “A aspirina, por exemplo, é muito boa para quem tem infarto e está provado que ela também evita infartos, mas ninguém propõe que todo mundo tome aspirina como prevenção porque, como todo medicamento, ela tem um lado negativo. O mesmo ocorre com os antirretrovirais, eles alteram o perfil de colesterol e podem trazer outros problemas que ainda não conhecemos.”
O médico aponta ainda para o risco de que o uso continuado do medicamento possa tornar o vírus da Aids resistente, além de provocar relaxamento da prevenção. “As pessoas adquirem a falsa sensação de que não precisam mais fazer sexo com proteção e ficam expostas inclusive a outros vírus”, sugere.

No Brasil

No Brasil, a PrEP ainda não é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o Truvada não tem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso profilático. Atualmente, o SUS oferece antirretrovirais apenas para quem já está infectado ou para quem teve risco de infecção identificado, como no caso de relações sexuais sem proteção com parceiros supostamente HIV positivos ou de contaminação de profissionais da saúde com sangue infectado. Nessas situações, são oferecidos cerca de três antirretrovirais diferentes por 28 dias, iniciados até três dias após a exposição para tentar impedir a proliferação do vírus.

No momento, um estudo coordenado por Hoagland na Fiocruz, em parceria com a Universidade de São Paulo e com financiamento do Ministério da Saúde, avalia a possibilidade de implantar a PrEP com o oferecimento do Truvada no sistema público de saúde e a melhor maneira de fazê-lo. “Vamos avaliar se a população tem interesse e o que seria necessário para oferecer a PrEP no SUS, que exames teriam que ser feitos para liberar o uso do medicamento ao paciente, que exames de acompanhamento seriam necessários e para quem a medicação seria indicada”, explica a pesquisadora.

Dependendo da quantidade de pessoas que poderiam ser beneficiadas com a medicação no país e da estimativa de gastos com a estratégia, a política pode se mostrar economicamente viável ou não. O resultado final da análise deve ser publicado até 2016.

Do Ciênciahoje.