Rabos brancos, importam? por Filipe Harpo

Cinema, No Circuito
23 de agosto de 2018
por Genilson Coutinho

Foto: Divulgação

Filipe Harpo

Há alguns anos atrás, os realizadores da indústria pornô  odiavam filmar cenas inter-raciais. Devido ao fenótipo muito diferente dos corpos em cena, tudo dava muito trabalho. A iluminação precisaria ser arrojada, o câmera com o foco sempre aprumado (o que dava trabalho) e a concentração da equipe técnica era superlativa. Como a câmera na mão é um artifício comum da pornografia, era muito fácil estourar um dos dois modelos na imagem e o tempo para ajustar tudo novamente era algo surreal na diária de filmagens. Só que, filme pornô entre raças diferentes, principalmente brancos x negros, dá retorno. Então o esforço valeria sempre.

Como o sexo casual, fomentado pelos filmes pornôs, é um produto da sociedade de consumo, a DITA classe consumidora clichê (lê-se pessoas brancas) comanda o fazer pornográfico deste gênero (filmes inter-raciais) dentro do gênero (pornô). Ou seja, já que são os brancos “os consumidores”, são as fantasias deles as vistas em tela. O sexo com homens negros ligados  ao  perigo absoluto, ignorância, proibição, tom escandaloso, sempre fez parte do fazer pornográfico. E dá muito dinheiro.

Mas se você, caro leitor, pensa aqui como mais um “desabafo” sobre o estereotipo do negro em filmes hard, está engando. Vamos falar dos brancos nestes filmes. Afinal de contas, se existe racismo na fantasia, vamos problematizar seu inventor. Ele está em cena!

O branco gay sai de seu habitat natural e se embrenha dentro do gueto ou de qualquer lugar marginal para aventuras sexuais com homens negros, de profissão/renda/grau de cultura abaixo a sua. Muitas vezes o branco recebe um sexo violento porque PEDE/ORDENA isso. Dentro do imaginário branco, o corpo negro aguenta e também produz todo tipo de violência. Homens brancos fantasiam a submissão diante de vários corpos negros dentro de prisões, oficinas, fábricas e senzalas – lugares onde o imaginário branco coloca corpos negros. E ninguém nunca parou pra pensar, no papel do homem branco gay diante disso tudo?

Destrincho esse homem branco gay, como aquele que produz, atua e/ou consome a pornografia gay. Assim como outras esferas artísticas, a pornografia também é controlada nos bastidores por pessoas brancas. Consequentemente colocam pessoas brancas como foco de suas produções. Para pessoas brancas consumirem e se sentirem a vontade para… gozar! A supremacia branca perpetua dentro da fantasia, o branco comanda a ação, o número de corpos alheios, a quantidade da violência, mesmo na maioria esmagadora das vezes fazendo o papel passivo da relação. A passividade branca no pornô gay diante do corpo negro se reformula, pois ele ali não é submisso, só se faz de…

A alteridade branca se perpetua até na pornografia gay. O homem branco ORDENA violência, mas é o negro o marginal. O corpo branco sente-se à vontade com todo tipo de escatologia e o negro é o animal sexual. O homem branco sai do seu lugar tranquilo em busca de perigo aliado a sexo e é o homem negro o desequilibrado? … Curioso notar que o rabo branco foi “feito” para aguentar todo tipo de membro, socada, tapas. E por mais pesados que os pornôs gays entre brancos sejam, a fantasia podre e perversa (psicologicamente falando…) acontece com corpos pretos.

Foto: Divulgação

A situação vem mudando com o tempo. A indústria pornô gay, em crise a anos, vem se reformulando para sobreviver, dando valor ao mercado de nicho. Empresas se especializam em sexo entre negros, um inter-racial mais ameno, ou até a Falcon e a Titan Men, empresas predominantemente brancas no passado, colocam mais negros em seu cast.

Depois dessa tempestade de ideias, fica uma dúvida. É a alegoria racista fomentada pelos filmes pornôs que influencia a vida sexual dos brancos consumidores ou é a fantasia racista secreta dos consumidores pornôs que se manifesta nos filmes e as produções somente vomitam em tela aquilo que já existe entre 4 paredes? Fique de olho… na hora de bater uma diante da tela do computador, sua opção pode ser sim por uma fetiche racista…

Filipe Harpo é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.

 

  • Welton Trindade

    Muita conclusão para pouca pesquisa! Ciência se faz com dados, não com ilações.

    • Filipe Harpo

      Welton rs isso não é ciencia. É uma crítica social para um gênero cinematográfico. Outra coisa, meu objetivo aqui não foi fazer um artigo acadêmico e sim uma crítica, como faço todas as semanas. Em uma pagina e um pouco mais. E sim nao quis citar ninguem, simplesmente porque nao tenho obrigação alguma AQUI disso. Rs. Nunca vi Isabela Boscov ou Pablo Villaça sendo cobrados por “verdadeS” em seus trabalhos! Mas ja que vc quer pesquisa ok… então leia O OLHAR PORNÔ- A REPRESENTAÇÃO DO OBSCENO NO CINEMA E NO VIDEO (se vc achar, porq o livro q eu tenho esta esgotado). Mas a tese de doutorado deve estar nA plataforma lattes do autor. Tem tmb o trabalho da colombiana Maria Elvira NAS REDES DO SEXO. Essa trabalha com pornô e raça. Ela é negra e os argumentos dela é q sim, o pornô é racista!!!!! Os trabalhos Don Kulick tmb sao validos aqui. Escolha um artigo e leia. Pra finalizar, esse artigo foi feito muito mais para problematizar a branquidade para a negritude. E provocar a branquidade. Pelo visto consegui. Geralmente homens brancos gays se incomodam com o q falo e o argumento é sempre o mesmo; tentam desvalidar minhas palavras usando o velho e manjado arquetipo de há achismo e nao ha ciencia… da proxima vez quando n gostar chegarei na coluna de um Roberto Sodovasck da vida e direi tmb que n ha ciencia rsrsrs… Alias não! Quando eu leio uma critica eu sei que aquilo não é algo acadêmico rsrsrsrs

    • Érico Nascimento

      falou a bicha branca que se acha autorizada a deslegitimar a opiniao de um negro

      • Welton Trindade

        1) Ciência é ciência, meu caro. Não é redação da quinta série! 1.a) todos podem fazer 1.b) é sujeita a crítica 2) seu argumento é pífio em todos os níveis até na sua visão torpe sobre opinião: o autor fala do que brancos pensam! Portanto até se eu concordasse com seu argumento de base eu teria razão em questionar, afinal o autor está falando de pessoas brancas! Mas
        fico com o 1, ok? Não vou descer ao seu nível intelectual.

        • Érico Nascimento

          Fica com seus títulos, referências e procura um texto científico para refurar com sua autoridade e lugar de fala forjado em uma academia de base classista, branca e excludente. Deixa as redações de quinta série para quem gosta de opinião sobre cinema. Ou sera que o texto tocou em algum ponto nevrálgico da sua identidade? Se poupe e nos poupe. Procure sua turma!

        • Leandro de Carvalho

          white people! Aff!!!

          • Welton Trindade

            Olhe o preconceito! Querendo me desqualificar pela minha etnia, meu caro? Cuidado com o processinho, viu?

          • Leandro de Carvalho

            Bem, se voce achar no meu comentario materialidade que seja suficiente para embasar a abertura de um processo, sinta-se a vontade.

  • Welton Trindade

    Estudos de representação… Como são enviezados! Tenho mestrado em semiótica! Fiz meu mestrado sobre LGBT nas telenovelas, mas não, não falei da tão manjada e preguiçosa “representação”! O sentido na comunicação não está na emissão, está na recepção (tradição de Estudos Culturais marcadamente latinoamericana). Eu não fiquei nas ilações sobre o que personagens representam ou impactam. Eu fiz pesquisa quantitativa com 260 pessoas que assistiam às telenovelas. Aí sim eu captei o sentido percebido e não o imaginado! Você fala sobre o que os brancos pensam. E qual a base para suas conclusões? Sua vivência e, imagino, algumas leituras, das quais, desconfio também são ilações. Resumo: rejeito estudos que querem entender um meio social, um segmento social e não falam com as pessoas estudadas. I-la-ções!

    • Tedson Souza

      Até parece que 260 pessoas é uma amostragem “imensa” no universo de telespectadores de telenovelas no Brasil. Não me venha falar em pesquisa quantitativa com esse número irrisório. É cada uma viu.. Pelo que entendi o rapaz não está fazendo ciência em um artigo de opinião publicado aqui no site Dois Terços. Isso aqui não é uma revista científica. O que você está fazendo é “Mi-mi-mi” de branco.

      • Welton Trindade

        Desculpe, não me expressei corretamente: eu pesquisei apenas moradores do DF!