Proposta de fusão das Paradas LGBT desagrada militantes em Lauro de Freitas

Comportamento, Social
25 de março de 2019
por Genilson Coutinho

Folha Popular 

A sugestão da prefeita, Moema Gramacho, de unificar as Paradas LGBTs, não foi muito bem recebida pelas organizações LGBTs que atuam na cidade. As lideranças afirmam que há especificidades que precisam ser consideradas e que não é prerrogativa do governo dizer como o movimento social deve desenvolver suas ações.

O documento encaminhado, pelo gabinete da prefeita, à secretaria de cultura, sugere para fins de otimizar e diminuir despesas, a realização de uma única Parada no Centro da cidade. Esse formato, no entanto, inviabiliza a realização das ações nos bairros de Itinga, Vida Nova e Portão. As lideranças LGBTTs reagiram.

A representante do Coletivo de Lésbicas, bissexuais, gays, travestis e transgêneros de Lauro de Freitas – CLBGT, Francejane Santos, que organiza as ações do movimento em Itinga, afirma que a realização da parada única no centro, vai na contramão da estratégia adotada pelo movimento, que é atuar onde as violências acontecem, ou seja, nas comunidades. France explica ainda, que apesar de ser uma cidade pequena, as violências têm características singulares em cada região. Violência física, endemias e vulnerabilidade social são aspectos gerais, mas que segundo a militante, tem incidências com maior ou menor intensidade de acordo com a região onde são registradas.

Roberto Souza, diretor do Núcleo de Políticas Afirmativas LGBTs da Comunidade de Portão – NUPAF, que organiza a luta por direitos da classe incentivando a visibilidade e o respeito aos LGBTs, diz que o governo e a sociedade precisam compreender que a Parada LGBT é a culminância de uma série ações que acontecem ao longo de um período dentro da comunidade, a Parada é o principal meio de expressão da Cultura LGBT e de lutas sociais por direitos.

” A não realização das Paradas nas comunidades, que de fato desenvolvem ações de ativismo e militância durante todo o ano e inviabilizar a parte lúdica, festiva e também de protesto pelas ruas do bairro, é um contrassenso. Os LGBTsfobico (as), não vão sair do bairro pra ver nossas ações no centro da cidade. Precisamos passar organizados(as) pela porta deles, nos mostrarmos nas nossas praças e gritarmos que queremos ficar vivos e vivas. Precisamos marchar em Portão”. Afirmou emocionado!  

O assunto já entrou na pauta estadual do movimento e algumas referências da luta LGBTTs também divergem sobre o melhor formato dessas ações.

Marcelo Cerqueira do Grupo Gay da Bahia – GGB, defende a unificação das paradas. Para ele a fragmentação divide e enfraquece o movimento.

Já o coordenador de políticas LGBT do estado, Vinicius Alves, explica que festa é uma forma de protesto social. A Parada LGBT é uma expressão do uso da festa como forma de luta política. As festas públicas já foram utilizadas para ordenar a estratificação e desigualdade social, pois eram a única linguagem comum a negras(os), indígenas e colonizadores. Os povos oprimidos sempre a utilizaram também como forma de resistência.

Vinicius entende que existe uma necessidade de diferentes organizações LGBT da cidade de Lauro de Freitas em expressar sua luta por meio deste evento festivo, nas mais diferentes localidades. Ainda segundo ele, é preciso investir nessas atividades festivas e ajudar no processo organizacional de comunidades e grupos vulnerabilizados, pois toda organização do evento envolve (ou deveria envolver) um processo de participação social.

“É preciso encontrar formas criativas de financiamento, que estejam atreladas a incentivos públicos, mas também da iniciativa privada. No geral cobramos do Estado, mas não pedimos apoio no comércio local, que tem clientes LGBT e deve investir também em nossa cidadania. Estamos à disposição para ajudar nos diálogos e a encontrar saídas criativas para essa questão na cidade.” Finalizou.

Na reunião ordinária, realizada no ultimo dia 06, o Conselho Municipal de Política Cultural – CMPC, deliberou pela divisão, por igual, do recurso do Fundo Municipal de Cultura – FMC, que será utilizado para financiar a Parada. O Conselho entende que não há prerrogativa para determinar a condução das ações do movimento social, nem tão pouco julgar qual ação é mais ou menos legítima.

A assessora especial da SECULT, Elisangela Sousa, disse que não há imposição sobre nenhum aspecto. O que o governo propõe é a otimização do recurso, até porque, segundo ela, além do aporte financeiro, há diversas outras estruturas que precisam ser disponibilizadas como hora extras de médicos e enfermeiros, agentes de trânsito e policiamento.

“Estamos enfrentando uma crise financeira sem precedentes, nossa função é primar pela otimização, contudo, o diálogo está aberto e com a capacidade que a SECULT e o governo têm, somada a grandeza e compromisso dos proponentes das paradas, não tenho duvidas que encontraremos um caminho favorável onde todos sejam contemplados”