Primeira deputada transexual venezuelana quer construir “nas diferenças”

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21 de dezembro de 2015
por Genilson Coutinho

TAMARA ADRIÁN, PRIMEIRA DEPUTADA TRANSEXUAL VENEZUELANA (FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK)

A Venezuela contará pela primeira vez com uma deputada transexual, a opositora, advogada e professora Tamara Adrián, que propõe construir a democracia “nas diferenças”, acabar com “a hegemonia” e “reativar o aparelho produtivo” sem excluir a comunidade LGBT.

Desde seus “três ou quatro anos”, Tamara, à época chamada Tomás, “tinha certeza que sua identidade de gênero não correspondia com seu corpo”, no entanto, tinha mais de 30 anos quando expressou isso.

“Sendo um homem bem-sucedido em exercício do direito, me enfrente com armas diferentes da exclusão à população LGBT”, disse em entrevista à Agência Efe.

Com pai, avô e bisavô como “lutadores sociais”, a vocação de ativista foi herança familiar. Por isso, aos oito anos, já tinha certeza que seria advogada, profissão que tenta desempenhar “sendo o mais eficiente possível”.

Tamara preside o Dia Mundial contra a Homofobia e a Transfobia, coopera em outras organizações em apoio aos grupos minoritários e participou de fóruns da ONU e da Organização dos Estados Americanos (OEA), nos quais “quase todas as declarações e resoluções” na matéria têm sua “assinatura e contribuição”.

Agora, em seu novo papel como parlamentar, Tamara acredita ter “vantagem” por ter redigido “parte das leis” que existem ou existiram na Venezuela em matéria econômica, entre elas a Lei de Mercado de Capitais, a Lei de Seguros e a Lei de Banco Central, por isso planeja oferecer sua “aprendizagem” a “deputados que foram eleitos jovens”.

Após as eleições de domingo, o cargo que Tamara começará a exercer em 5 de janeiro será de suplente do deputado reeleito no Distrito Capital, Tomás Guanipa, o que a permitirá discursar em comissões e “casos específicos” nos quais for considerada mais capacitada.

“Um bom suplente pode ser mais conhecido que um mal titular”, expressou com o bom ânimo de artistas que argumenta que não existem papéis pequenos, mas pequenos artistas, e esclareceu que “não acredita que Tomás (Guanipa) seja ruim”.

Tamara se mostra decidida a sobrepor as prioridades da aliança opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) a suas próprias propostas. Ela menciona que na agenda da MUD é dada especial importância à área econômica, à segurança e aos “presos políticos”.

“Eu sei o que fazer para reativar o aparelho produtivo e quais leis precisam ser modificadas para conseguir sair deste estado de prostração econômica no qual se encontra a Venezuela”, afirmou Tamara, que disse ter trabalhado os temas “petróleo, gás, mercado de capitais, títulos, investimentos estrangeiros, bancos e seguros”.

Para Tamara, o debate sobre a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT) têm cabimento em outras discussões.

“Se formos discutir o tema da reativação econômica, posso dizer que um estudo feito pelo Banco Mundial na Índia mostra que um Estado homofóbico perde pelo menos 3% de seu PIB devido a essa homofobia e pode ganhar até 6% com essa integração”, citou, entre outros exemplos.

A deputada promove espaços para as minorias não apenas no que se refere à sexualidade. Segundo ela, “chegou a hora de aceitar o diferente porque a democracia se constrói na diferença e não pode ser construída na hegemonia”, onde “uma só voz é escutada e levada em conta”.

Especialista em finanças e economia, Tamara Adrián ressaltou a importância de todos os partidos participarem em condições de igualdade e expressou que “não gostaria” que o governante Partido Socialista Unido (PSUV) “desaparecesse, sempre que for uma alternativa democrática”.

“É uma voz e ninguém tem o monopólio da verdade. Só na concentração dessas diferentes visões pode aparecer uma visão coletiva”, acrescentou.

Para “construir nas diferenças” da Assembleia Nacional, a MUD tem “proposto que um dos três postos da direção seja do PSUV”, e isso “mostra o que eles (os governantes) não sabem fazer”, disse.

“Este é um governo que quis exercer o controle de tudo”, criticou a deputada.

Tamara também propõe a criação de uma “Lei de Transparência e Acesso à Informação Pública” que obrigue os órgãos do Estado a divulgar dados como a inflação oficial, que não são revelados desde 2014, o número de mortes e doentes, a taxa de desabastecimento, o nível de pobreza e o uso dos recursos.

Outra de suas iniciativas pessoais é avaliar a produção das empresas administradas pelo Estado, “empresas nacionalizadas ou apreendidas”, pois, segundo a deputada, 80% das marcas de farinha de milho são comandadas pelo governo e não estão produzindo.

A mudança prometida pela MUD durante sua campanha para as legislativas “não será conseguida imediatamente”. De acordo com Tamara, é necessário “tempo, dinheiro e muito trabalho” para emendar “17 anos de políticas erradas que levaram o país a este estado de prostração econômica, social, educativa e política atual”.

Tamara Adrián mudou de sexo, de identidade e agora promete incentivar a “mudança” na Venezuela.