Pesquisadores encontram injeções que podem prevenir Aids

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10 de março de 2014
por Genilson Coutinho

Pesquisadores estão reportando que injeções duradouras de medicamentos contra a Aids protegeram macacos por semanas contra a infecção, uma descoberta que poderia levar a um grande avanço na prevenção da doença em humanos.

Dois estudos de diferentes laboratórios descobriram 100% de proteção em macacos que tomaram injeções mensais de drogas antirretrovirais, além de evidências que uma simples dose a cada três meses também pode funcionar.

Se as descobertas puderem ser replicadas em humanos, elas têm o potencial de superar um grande problema na prevenção da Aids: o fato de que muitas pessoas falham no gesto de tomar suas pílulas antirretrovirais diariamente com regularidade.

Uma experiência preliminar em humanos está para começar no fim deste ano, disse Doutor Wafaa El-Sadr, um expert em Aids da “Mailman”, Escola de Saúde Pública da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. No entanto, um ensaio maior que poderia levar a um tratamento em seres humanos ainda pode estar a alguns anos de distância.

Sabe-se, desde 2010, que pessoas saudáveis tomando um pequena dose diária de drogas antirretrovirais – um procedimento conhecido como profilaxia pré-exposição, ou PreP – pode alcançar mais de 90% de proteção contra a infecção.

Mas, em vários ensaios clínicos desde então, em homens homossexuais, usuários de drogas injetáveis e em casais em que um dos parceiros está infectado, mostrou-se que os únicos participantes protegidos foram aqueles que tomaram suas pílulas regularmente todos os dias sem falhar. Muitos, no entanto, não fizeram isso.

A taxa de reprovação foi particularmente aguda entre mulheres na África. Apesar de alguns participantes em um estudo sobre PreP disserem aos pesquisadores que eles estavam assustados com os rumores sobre os efeitos colaterais. Muitos também disseram que les tinham medo de manter as pílulas em sua casa porque seus parceiros sexuais ou até mesmo vizinhos poderiam ver e erradamente presumir que eles já tinham a doença.

Uma injeção intramuscular que uma mulher poderia tomar a cada três meses poderia mudar tudo isso, dizem muitos especialistas em Aids.

Comparação com anticoncepcionais

 

Na África e em outros lugares do mundo em desenvolvimento, muitas mulheres já recebem doses de anticoncepcional de longa duração, como o Depo-Provera, preferindo eles às pílulas diárias, que podem irritar maridos ou namorados que as encontrarem.

Sobre o protocolo da injeção testada em macacos, Doutor Dar David Ho, diretor da Aaro Diamond Aids Research Center, da Universidade de Rockfeller, e um autor de um dos estudos, disse que a popularidade da Depo-Provera era “uma boa analogia para como isso deve funcionar em países em desenvolvimento”.

Em outro estudo, conduzido pelos Centros de Controle de Doenças e Prevenção, em Atlanta, seis fêmeas de macaco receberam mensalmente injeções de GSK744, um experimento de uma forma duradoura de uma droga antirretroviral já aprovada para o tratamento do HIV pelo órgão regulamentador de alimentos e drogas dos Estados Unidos, a Food and Drug Adiministration (FDA).

Seis outros macacos receberam um placebo.

Duas vezes por semana, um líquido contendo o vírus da imunodeficiência simia (SIV), ou seja, um híbrido da versão do vírus que causa a Aids em humanos e macacos, foi colocado em suas vaginas, simulando sexo com um macaco infectado.

Nenhuma das macacas protegidas pelo GSK744 foi infectada. Todas as seis que receberam o placebo foram infectadas rapidamente.

Os pesquisadores de Rockfeller fizeram uma experiência similar com 14 macacos usando a mesma droga. Elas tiveram lavagens retais com o vírus, simulando sexo anal.

Os resultados foram os mesmos. Todos os macacos que tomaram a droga estavam protegidos, comparados a nenhum dos macacos que não a tomaram.

O time do Dr. Ho também fez testes para ver a quantidade da droga que tinha que estar no sangue e nos tecidos dos macacos para que eles fossem protegidos. Eles descobriram que a quantidade suficiente para proteger foi “eminentemente alcançada em humanos com uma injeção trimestral”, disse Dr. Ho.

Os estudos foram apresentados na Conferência Anual de Retroviroses e Infecções Oportunistas, na terça-feira, em Boston, Estados Unidos.

Dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional para Alergia e Doenças Infecciosas, chamou os resultados de “muito impressionante para algo no modo de animais”.

 

Mitchell J. Warren, Diretor Executivo do AVAC, uma organização que luta pela prevenção e tratamento da Aids, disse que drogas injetáveis de longa ação “são claramente o estágio a se alcançar, porque a adesão tem sido o calcanhar de Aquiles do PreP”.

Mas ele argumentou que as pessoas com risco de contrair o HIV poderiam eventualmente precisar de várias opções, assim como as mulheres que querem controlar a natalidade (tomar anticoncepcionais), para que eles possam escolher entre pílulas ou outras possibilidades.

Uma droga experimental conhecida com TMC278 foi testada em macacos muitos anos atrás e também os protegeu, embora o estudo não seja igual aos outros dois divulgados na terça. Mas pouca atenção foi posta nela “porque as pessoas estavam focadas em outras coisas”, disse Warren.

A experiência em humanos esperada para começar no fim do ano vai ser pequena, registrando apenas 175 pessoas nos Estados Unidos, África do Sul, Malawi (na África) e Brasil. O Dr. El-Sadr, de Columbia, disse que o estudo deve levar três anos antes de uma pesquisa maior para ver se o método da injeção funciona em pessoas efetivamente, assim como nos macacos.

Ensaios em humanos levam tempo e requerem grandes números de participantes, em parte porque não é ético conduzir uma pesquisa sem oferecer aos participantes todas as opções aprovadas, incluindo camisinhas e a versão em pílulas da PreP.

“Você sabe que algumas pessoas vão dizer que elas querem uma das opções e depois acabarão não as usando”, disse Warren. “Mas mesmo assim você tem que oferecer”.

Do Extra