‘Para mim, a homossexualidade foi uma graça’, diz o antropólogo Luiz Mott

Comportamento, Social
17 de junho de 2019
por Genilson Coutinho

Foto: Genilson Coutinho

Fundador do Grupo Gay da Bahia, o antropólogo e historiador Luiz Mott, de 73 anos, falou sobre o reconhecimento da própria homossexualidade e a atuação como militante, em entrevista à Rádio Metrópole desta segunda (17)

Ele parafraseou uma frase de um escritor homossexual francês, que dizia que a homossexualidade é uma benção. “Para mim, a homossexualidade foi uma graça, porque me tornei mais gracioso e ajudei muita gente. Muita gente deixou de se matar e de ser infeliz graças à minha militância no Grupo Gay da Bahia”, comemorou.

O trabalho do GGB inclui a organização de dados relativos à violência contra os grupos LGBT, na ausência de estatísticas oficiais para isso.

“Nós somos quem primeiro reconhece. Os levantamentos eram só nos jornais e agora, através da internet, a gente localiza e recebe esses assassinatos, mas tem que investigar, porque o indivíduo é achado em estado de decomposição. Esses crimes interpretados com requintes de crueldade na maioria das vezes”, diz o antropólogo.

Mott afirma que, nos crimes de ódio contra minorias, a exemplo de negros, gays e índios, não se quer matar apenas os indivíduos. “No caso dos gays, os assassinos tem sua homossexualidade mal resolvida. Como ele não pode, ele mata aquele o que é espelho deles. Há delegados que já disseram isso”, completa.

Trajetória

O antropólogo conta que o GGB foi fundado depois de ele ser agredido quando estava com um parceiro, assistindo ao um por-do-sol na praia da Barra, em 1979. No dia seguinte, o tapa que recebeu acabou o motivando a lutar pelos direitos LGBT, ao publicar um artigo no Jornal Lampião, convocando as “bichas baianas” para fundar o grupo.

“Fundamos o Grupo Gay da Bahia, que não é o primeiro, mas é o mais longevo da América Latina, e me tornei o decano do movimento: sou o mais antigo que continua na ativa”, defende.

Nascido em São Paulo, Mott falou ainda sobre como foi o reconhecimento da própria homossexualidade. De família religiosa, ele chegou a estudar no seminário católico e desistiu de virar padre. Estudou antropologia na Universidade de São Paulo (USP), fez mestrado no exterior e se tornou professor da Unicamp. Foi casado com uma mulher por cinco anos, teve dois filhos, mas decidiu se separar.

“Gostava muito da Bahia e resolvi dar guinada na minha vida. Vim a Salvador em 1979 e estou aqui há 40 anos e feliz de ter feito essa mudança”, relembra.