Onlyfans, a nova onda do pornô por Filipe Cerqueira

Cinema, Colunistas, No Circuito, Opinião
22 de maio de 2020
por Filipe Cerqueira

Não é novidade para ninguém que o consumo de pornografia, nesse período de quarentena, aumentou consideravelmente. Empresas pornôs dobraram sua lucratividade, sites destacam um aumento de 18% no primeiro mês de confinamento. Na Italia o consumo cresceu 57%. Mesmo com uma infinidade de conteúdo disponível em plataformas pagas ou gratuitas, o público do pornô é afoito por novidade. Novos corpos, nomes, parcerias e práticas surgem pela fome em conteúdo inédito. Com a pandemia, o audiovisual pornô parou e a saída para quem almeja consumir material inédito é a plataforma Onlyfans . Nova queridinha, tanto de exibicionistas, quanto do público, o serviço pode já ser considerado responsável por uma nova onda pornô vigente.


A pornografia moderna audiovisual pode ser vista em 3 grandes eras. A primeira a das produções exibidas em cinemas. Desse período, produções clássicas como Garganta Profunda (1972), Once Over Nightly (1976), O Rebuceteio (1984), Taboo (1980), formaram estrelas como Andrea True, Linda Lovelance e John Holmes. A segunda era, a do home vídeo, toma forma quando o vídeo cassete torna-se um produto popular em todo mundo. Com a mudança tecnológica, a apreensão do espectador ao entrar no cinema, deu lugar ao conforto e sigilo do lar. É dessa fase o aumento do consumo, do número de estúdios e também da quebra na qualidade cinematográfica em prol da objetividade cênica. Trocando em miúdos, os filmes passaram a mostrar o sexo, deixando os roteiros “elaborados” para trás. Aqui no Brasil, empresas como Brasileirinhas, Pau Brasil, Sarava Produções se popularizaram levando ao estrelato nomes como Marcia Imperator, Monica Matos, Alexandre Senna, Marcelo Cabral e Samuel Bueno.


Atualmente, nos encontramos na 3° fase do pornô. A internet dominou o circuito, responsável pela falência de empresas e reformulação do mercado. O antigamente pago, hoje é exibido e pirateado rapidamente. Muitas produtoras fecharam, filmes deram vez a cenas de 20 min. Além disso, o público passou a produzir o próprio conteúdo dando expansão a categoria “amador”, onde filmagens com pessoas comuns fazem sucesso.
Dentro dessa era, o serviço de Onlyfans é uma ramificação do mercado, tentando fugir de mais uma crise. Funciona assim: Um modelo faz uma conta na plataforma (inicialmente construída em 2016 para distribuir material exclusivo e pago (não necessariamente pornográfico) entre o ídolo e seus fãs) e lá disponibiliza fotos ou/e vídeos para seus admiradores em troca de uma assinatura mensal. É como se fosse uma conta fechada do Instagram e para ser aceito você precisa pagar. O público produtor e consumidor é majoritariamente masculino, mas as mulheres também são donas de algumas páginas, sendo o serviços delas mais caro para assinar.
O serviço de Onlyfans tem aumentado, pois dá autonomia ao modelo, controle do material divulgado, independência da exploração de contratos abusivos, além de uma maior lucratividade, a plataforma fica com 20% do dinheiro arrecadado e cobra em dólar. Citando um exemplo de sucesso, o ator Austin Wolf chega a arrecadar 50 mil dólares por mês!!! Em sua página ele exibe fotos nu, se masturba e faz sexo com fãs, garotos de programas famosos e outros atores. No Brasil, muitos atores pornôs migraram para este novo serviço, deixando as empresas pornográficas e a prostituição tradicional para trás.
A plataforma tem feito tanto sucesso que é grande o número de biscoiteiros construindo canais. Queridinhos exibicionistas do Insta, são vistos em shows em saunas gays, dançando em boates, fazendo presença vip em eventos, alguns viram modelos para pequenas e médias marcas de roupas intimas masculinas e é um pulo para publicarem material no Onlyfans . Não são poucos os casos de halterofilistas, modelos fotográficos e garotos de programa migrando também para o lucrativo serviço.
Com a pandemia, o serviço tem atingido um maior volume no Brasil.. Para abocanhar esse novo público, cada modelo oferece o seu diferencial. Em alguns, a estética é completamente amadora, estilo “celular na mão, cueca no chão”. Outros como o ator Rhyheim Shabazz, investem pesado com locações luxuosas, participações de peso no mundo do sexo e uma qualidade técnica de dar inveja em muito filme profissional por ai. Rhyheim é um exemplo de ator esforçado no trabalho que faz. São quase 500 mil seguidores no twitter e uma página com conteúdo novo constante. Uma coisa a destacar, ele é um dos poucos homens negros com real poder influenciador dentro do pornô.
Mas nem tudo são flores. Você pode ser o criador do conteúdo, mas todo resto do trabalho é seu. Investir, iluminar, editar, divulgar, produzir, tudo isso leva tempo, exige dedicação e dá MUITO trabalho. O tempo de engajamento, assinaturas e sucesso também diferente de caso pra caso. Não basta ser bonito, precisa trabalhar, fazer parcerias, ter alguma noção de marketing do contrário tudo desanda, gerando uma exposição desnecessária. De nada adianta o modelo não ser ambicioso e sem noções administrativas.
Independente das reviravoltas, a indústria do sexo pago, continuará sobrevivendo. Sempre na vanguarda no uso das tecnologias, o pornô sabe muito bem se transformar para continuar ativo na cabeça das pessoas. Influenciando positiva ou negativamente é um produto consumido por todas as camadas sociais. O Onlyfans é mais uma ferramenta de sobrevivência de uma indústria que lucra vendendo o prazer como entretenimento, mas na verdade transforma o prazer em puro consumo.

Filipe Cerqueira é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.

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