O escudo injetável contra o HIV, por Dr. Esper Kallás

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21 de maio de 2020
por Genilson Coutinho

Com todos os olhos virados para a pandemia de Covid-19, o resultado de um importante estudo para prevenir o HIV teve menos atenção do que deveria.

Divulgado na última segunda-feira (18), o estudo demonstrou, pela primeira vez, que o uso de um remédio injetável é capaz de prevenir a infecção por via sexual em pessoas de alta vulnerabilidade ao HIV.

O uso de fármacos para evitar uma doença é uma das maneiras de fazer profilaxia. A profilaxia pré-exposição do HIV, a PrEP, esteve no centro das atenções em 2010, quando o estudo iPrEx mostrou que um único comprimido diário, composto de dois remédios antivirais, era capaz de prevenir a infecção pelo HIV, como um “escudo”. Desde então, os resultados foram confirmados por pesquisas, realizadas em diferentes grupos de pessoas com alta vulnerabilidade ao HIV.

Com o vantajoso custo-benefício dessa alternativa de prevenção, a PrEP foi recomendada pela Organização Mundial da Saúde, a OMS, como política pública no enfrentamento da epidemia de HIV/aids. Vários países adotaram a PrEP, incluindo o Brasil, que a tornou disponível no fim de 2018.

O número de novas infecções pelo HIV caiu onde a PrEP é utilizada mais extensivamente. Várias cidades americanas e europeias começaram a notar queda da transmissão por via sexual. Pela primeira vez desde o começo da epidemia de HIV, viu-se uma redução significativa de casos entre os mais vulneráveis. O sonho de controlar a epidemia de HIV/aids começou a se tornar realidade.

A redução de novos casos foi notada no estado de São Paulo, onde está o maior número de usuários da PrEP. Aqui, a taxa de infecção tem diminuído principalmente entre as pessoas de mais idade, com maior poder aquisitivo e maior grau de instrução. Como alcançar os mais jovens, de baixa renda e menos acesso à educação?

Um dos ingredientes para o sucesso da PrEP é a conscientização do usuário sobre a importância de tomar os comprimidos de maneira regular e sem interrupção. Esquecimento, dificuldade de acesso ou problemas sociais são as principais causas do uso irregular, aumentando a possibilidade da infecção. Poderíamos explorar outras formas de oferecer essa proteção? Que tal usar um remédio injetável, capaz de atuar por período prolongado dentro do organismo?

O conceito de PrEP de longa duração nasceu dessa necessidade e passou a ser o objetivo de diferentes pesquisas.

Um dos maiores estudos, a HPTN083, testa atualmente o uso de uma injeção intramuscular, aplicada a cada dois meses, um “escudo injetável”. Com participação de vários centros internacionais e brasileiros (Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre), sob a coordenação da pesquisadora Beatriz Grinsztejn, o trabalho incluiu pessoas vulneráveis à infecção pelo HIV por via sexual.

Em estudos grandes assim, há um comitê científico externo, com pesquisadores independentes que avaliam o andamento e fazem recomendações regulares; por exemplo, de interrupção ou continuidade do estudo, com base em evidências imediatas de benefícios ou malefícios. Na última reunião, o comitê do HPTN083 indicou que o remédio injetável funciona, e muito bem. Ele não só protegeu os participantes como indicou que pode ser até melhor que a já aprovada pílula diária da PrEP —indicação ainda a ser confirmada.

Aos poucos, vamos adicionando armas ao arsenal. O sonho de controlar a epidemia de HIV/aids se aproxima da realidade e, assim, também a possibilidade de erradicação da doença. Com mais e melhores estratégias de prevenção e, quem sabe, uma vacina eficaz, é possível. Já passa da hora de acabar com tanto sofrimento.

* Esper Kallás é médico infectologista, é professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador na mesma universidade.

Fonte: Folha de S. Paulo

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