Novas formas de relacionamento mudam estrutura das árvores genealógicas

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27 de março de 2011
por Fábio Rocha


Modelo tradicional de família é superado pelas novas relações afetivas


por Andrezza Nicolau

Pai, mãe e filhos sentados à mesa na hora do café da manhã. Essa é uma cena que se imagina instantaneamente quando o assunto ‘família’ é mencionado. Portanto, esse modelo mononuclear mudou bastante ao longo dos anos. Atualmente, as árvores genealógicas se encontram diversificadas perante o grande número de novos casamentos, divórcios, filhos, enteados, padrastos, madrastas e novas formas de relacionamento. 

Os arranjos familiares não se restringem mais ao dia a dia tradicional. Os motivos para essa mudança são muitos, não só o aumento do número de divórcios, mas também a vida profissional, que muitas vezes exige que um membro da família more em outra cidade. Casais homossexuais ganharam mais aceitação, famílias polinucleares surgem, homens se dedicam ao lar e mulheres trabalham.  O modelo do ‘comercial de margarina’ vive um processo de mudança radical.

Casados em casas separadas – Mariana Costa, 21 anos, e os dois irmãos mais velhos cresceram vendo o pai morar longe de casa, em lugares diferentes, consequência da profissão de engenheiro. Os pais tiveram que se adaptar ao casamento à distância, matando a saudade duas ou três vezes ao mês. “Desde quando eram namorados, eles enfrentaram essa situação. Depois que se casaram, tudo continuou do mesmo jeito, se vendo de dois em dois meses ou de 15 em 15 dias, dependendo do lugar que meu pai estava vivendo”, conta a jovem.

“Como eu e meus irmãos já estamos crescidos, minha mãe foi ficar perto do meu pai, na República Dominicana, o que é muito bom para os dois. A vida nessa profissão é muito sofrida, principalmente, para a família que fica longe. Não dá para os filhos ficarem a cada ano mudando de cidade”, explica. Hoje, Mariana vive em Salvador com a irmã e o irmão delas reside no Rio de Janeiro. Ela diz que sempre sentiu falta do pai por perto, mas ao mesmo tempo se acostumou com essa distância. “Independente de onde estava morando, ele sempre foi muito carinhoso e atencioso com a gente, sempre participou da nossa educação ativamente, não tenho o que reclamar dele”, ressalta a estudante.

Meio-irmão – Os pais de Rodrigo Maciel, 22 anos, se separaram quando o jovem tinha apenas três anos. Ele conta que essa mudança não foi tão complicada por conta da pouca idade que tinha. “Sempre morei com a minha mãe e parte da família dela. Meus avós, tios e primos sempre foram muito presentes na minha vida. Nunca tive frustrações por causa da separação, mas é claro que sempre desejei que não tivesse ocorrido”, ressalta.

Rodrigo explica que a convivência com o pai não é a melhor possível, mas também não é a pior. “Meu pai sempre morou fora de Salvador, então, não éramos tão próximos. Sempre senti a falta da figura masculina e de coisas relacionadas a pai e filho, como conversas e conselhos. Mas essa falta nunca foi um problema para mim. A ausência dele não afetou em nada na construção da minha personalidade, na verdade, até ajudou a me mostrar o certo e errado de diversas formas”.

Atualmente, o pai de Rodrigo reside em Salvador, e os dois convivem bem, mas não com uma proximidade muito forte. Casado pela segunda vez, o pai do jovem teve outro filho, que hoje tem sete anos. Os meio- irmãos têm uma convivência muito afetiva. “Eu e meu irmão temos uma relação excelente. Sempre procuro estar com ele quando posso, independente da presença do meu pai e da sua esposa. Sei que sou muito importante na vida dele, e que ele sente orgulho em ter um irmão mais velho. Busco manter uma relação boa entre nós para que nenhum fato afete nossa convivência atual e futura, independente do meu pai”, conta Rodrigo.

 

 

 

Homossexuais e felizes – Roque e Marco se conheceram há dois anos, através de um site de relacionamentos. Atualmente, o casal divide o mesmo teto e compartilha a vida, o dia a dia e as contas. Juntos enfrentam momentos bons e ruins como qualquer família. Os companheiros homossexuais contam que a vida não é diferente daqueles casais que escolheram viver juntos por amor.

“Sinto que o preconceito ainda é muito forte, mesmo com os avanços. Ainda vemos direitos civis negados a casais homossexuais em uniões estáveis comprovadas, assédio moral na esfera trabalhista, entre outras situações. Ainda precisamos dar muitos passos em direção ao exercício pleno da cidadania”, afirma Roque.

O casal conta que já conversaram muito sobre filhos e que essa é uma meta que pretendem alcançar. “Temos plenas condições de oferecer valores morais e afetivos para uma criança”, ressalta. Roque e Marco enxergam a mudança do perfil da família brasileira de forma positiva, como meio de promover direitos e garantir a equidade entre os seres. “A família é a base nuclear do sujeito, é de lá que ele irá retirar os valores que irão balizar a sua conduta de vida. A construção de uma família bem estruturada perpassa as relações de afeto entre seus constituintes. Afeto e amor não escolhe sexo, raça ou crença. Família é isto”, finaliza.

Especialista – “As novas famílias não representam qualquer ameaça ao nosso projeto civilizador de sociedade”, é o que diz o psicólogo Alessandro Marimpietri. Segundo ele, vivemos em um cenário atual que se sustenta em alguns pilares, como supervalorização da liberdade individual; dissolução de papéis; certeza das incertezas; constantes mudanças; consumo como marca de nossa existência. Ou seja, vale tudo para tentar ser feliz, sendo as regras coletivas menos importantes do que as chances individuais. E diante disso a formação da família não ficaria intacta.

”Famílias polinucleares podem fazer sua função diante das crianças com a mesma, ou com mais competência do que as aprisionadas aos modelos do comercial de margarina: mononuclear, chefiada pelo homem, com filhos lindos e sustentados na tradição. Seguramente, não será essa conformação que irá assegurar saúde psíquica para os pequenos”, opina o especialista.

 

Fonte: ibahia