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Nova onda do “boa noite, Cinderela” apavora nas baladas LGBT

Genilson Coutinho,
03/02/2017 | 11h02

Derek Fernandes/ Divulgação Tenda

Buzzfeed

O golpe do “boa noite, Cinderela” cresceu nos últimos meses nas festas LGBT do centro de São Paulo a ponto de gerar uma campanha de alerta para o público.

Só na boate L’Amour, onde são feitas as festas Tenda e Rebobinights, e nos arredores da rua Bento Freitas, onde fica o estabelecimento, o BuzzFeed Brasil ouviu três relatos de vítimas desses ataques. Em um deles, a vítima foi dopada e ainda ingeriu um drink de uísque com guaraná, batizado com pó de vidro.

Segundo o delegado Eduardo Luis Ferreira, do 4º Distrito Policial de São Paulo, são registrados cerca de três crimes desse tipo semanalmente na delegacia, que atende a região da boate.

“Temos muito problema de subnotificação”, alerta o delegado, para quem esse tipo de criminoso “age sozinho”, sem fazer parte de grandes quadrilhas. No centro, a maior parte das vítimas é homossexual.

Pelos relatos das pessoas que sofreram o golpe, o método é o mesmo: um homem se aproxima como numa paquera e a vítima ou se distrai e tem seu próprio copo “batizado” ou acaba aceitando a bebida alheia com a droga.

No ano passado, o gerente de restaurante J. foi vítima desse tipo de ataque. Junto com o “boa noite, Cinderela”, os ladrões colocaram pó de vidro em sua bebida. Ele não deu queixa na polícia e só descobriu que tinha ingerido pó de vidro três dias depois do ataque, quando vomitou sangue. “Fiquei duas semanas doente”.

  1. foi abordado por dois homens e, durante a conversa, um deles chegou com três copos de uísque e guaraná. Ele não desconfiou de nada. O gerente conta que os ladrões levaram seu cartão de crédito, mas não conseguiram tirar dinheiro. “Meu cartão era uma navalha. Estava no limite do limite. Tinha R$ 30 só”.

O biólogo Rafael, 27, estava diante da L’Amour quando foi abordado por um rapaz. Achou que fosse paquera. O homem o acompanhou até o bar da esquina para comprar cigarros.

“Lembro de vários flashes. Acho que ele colocou algo na minha cerveja quando eu dei o copo para ele segurar enquanto eu ia acender meu cigarro”, contou o biólogo.

O ladrão roubou R$ 3,4 mil com retiradas de dinheiro e do cartão de crédito, além do celular do biólogo. O banco se recusou a reembolsar Rafael e ele fez uma vaquinha com os amigos do Facebook para recuperar o prejuízo.

Quando prestou queixa, em uma delegacia de Pinheiros, Rafael se sentiu constrangido de contar toda a história. Não disse que foi um “boa noite, Cinderela”, nem que era gay.

“Não contei a história para não ouvir aquilo de ‘vocês bebem muito, são promíscuos’. Já aconteceu com meus amigos”, desabafou Rafael.

Outra vítima ouvida pelo BuzzFeed chegou a ser levada em um carro no qual os ladrões tinham uma máquina para registrar falsas despesas do cartão de crédito.

Eles a mantiveram no carro por horas, enquanto faziam “compras” em outros estabelecimentos.

A vítima foi espancada e, jogada na rua, foi levada por uma ambulância para o hospital. Os valores roubados foram ressarcidos pelo banco. O crime aconteceu no final de dezembro.

Campanha de alerta:

Nas últimas semanas, os produtores das festas saíram com campanhas de alerta, como os cartazes produzidos pela Tenda com a drag Yala Hagen.

“Fizemos os cartazes para ver se isso diminui de alguma forma essas ocorrências. Tem crescido o uso do ‘boa noite, Cinderela’ e é preciso investigar qual é a questão nova que provocou isso. Não sei o quanto é suficiente a campanha. Nossa preocupação aumentou do final do ano para cá”, disse Tiago Guiness, DJ e um dos produtores da Tenda.

Para o produtor da Rebobinights, Valdir de Oliveira, o boom das festas LGBT no centro acabou atraindo esses criminosos, que encontraram um novo público, de classe média e média alta. Valdir diz que é difícil pensar em outra região ou boate no centro que “deem essa sensação de liberdade” ao público.

A Rebobinights engrossou a campanha de alerta das festas com posts e gifs no Facebook.

 

O dono da boate L’Amour, Joaquim José de Souza, disse que tem dois seguranças dentro do estabelecimento e falou que “desconhece” relatos sobre esse tipo de crime. Também afirmou que ele mesmo é quem recebe os pagamentos em cartão do público.

Do Buzzfeed