Pop Lesbian Visibilidade sim

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Por Dilvania Santana

Era uma manhã ensolarada. Depois de dias de garoa, o sol deu as caras. Um dia perfeito para mergulhar no mar, mas como São Paulo tem no máximo algumas piscinas em clubes fechados e rios poluídos, Joana pensou em dar uma volta no Ibirapuera. "Um passeio de bike vai ser incrível com esse sol lindo que está fazendo lá fora... Vai Maria, levanta! Vamos comigo? Faz dias que você prometeu..."

Maria, que tinha virado a noite na balada, nem respondeu. Fingiu continuar dormindo. "Orra Maria, nem parece que é você, olha como o dia tá lindo lá fora". Ao dizer isso, ela abre a janela. Não adiantou. Pelo jeito a balada tinha sido boa. Joana resolve então se aventurar sozinha no parque. Chegando por lá, alugou uma bicicleta. Ibirapuera lotado, parecia que boa parte da cidade tinha tido a mesma ideia que ela. Era a segunda vez que ia. A primeira foi para visitar uma exposição de arte quando chegou em São Paulo.

Bike escolhida. Joana repara nas pessoas. Adultos, crianças, casais... A diversidade peculiar de São Paulo representada ali, por todas aquelas pessoas sedentas pela luz do sol. Passou por um gramado grande. De um lado um palco, onde acontecia uma aula de Yoga coletiva, do outro diversos grupinhos espalhados pelo gramado verde. Cada um na sua sintonia, cada um no seu mundo. Um grupo de mais ou menos 30 pessoas dançava e cantava uma música para Hare Krishna.

Mais a frente, ainda no gramado, um grupo de meninas descansa, cada uma ao lado de sua bicicleta. "Uau que lindas...Será que são do babado??" Mais uma volta de bicicleta pelo gramado e Joana observa atentamente as meninas que conversam calorosamente. "Só podem ser lésbicas... Aposto e ganho."
Ela quer se aproximar, mas fica meio sem jeito de chegar assim do nada. Resolve sentar na grama também e continuar observando. Faz uma pose de quem andou muito de bicicleta e precisa descansar. Repara que a aula de Yoga do outro lado do gramado havia acabado.

Sol, suor, corpo, alongamento... Quando volta do seu transe pessoal repara que mais uma menina havia se juntado ao grupo. Era aquela moça com cara de brava que não parava de fumar na reunião que ela tinha ido com a Maria dias antes da Parada Gay. "Como se chama mesmo? Uau e que pernas..."
Bom, uma coisa era certa, as meninas ali eram de fato lésbicas. Joana se reconheceu naquele grupo. Era como se desde o primeiro instante que as havia visto tivesse reconhecido aquela frequência. Identidade. Reconhecer-se. 

O que havia nelas que atraia tanto Joana? Ela resolve chegar mais perto. Dá uma volta de bicicleta na tentativa de disfarçar sua aproximação. De repente percebe entre tantas bicicletas uma em especial, andando ao seu lado.
- Hey! Eu me lembro de você, da reunião antes da Parada. Você é amiga da Maria né?
- Sou, moramos no mesmo apartamento.
- Estou com umas amigas, te vi ali na grama alongando. Vamos passar mais algumas horas aqui e a noite vamos todas pegar uma baladinha pra comemorar.
- Comemorar? É seu aniversário?
- Não, o dia da visibilidade... Eu conheço uma trilha bem legal, vem!

Disparou na frente, Joana foi atrás seguindo aquele belo par de pernas. Andaram um pouco e voltaram ao gramado, dessa vez Joana estacionou a bike junto ao grupo.
- Eu me chamo Juliana e você?
- Joana.
- Muito prazer. Gente essa é a Joana...

Apresentações feitas, as meninas voltam a conversar. Uma menina com uma camiseta do Bikini Kill pergunta a outra cheia de tatuagens como vão as coisas no trabalho.
- Correria total. Você acredita que nas últimas duas semanas eu trabalhei 12 horas por dia? Quase não tive vida. Isso tudo porque dois caras foram demitidos e eu tive que cobrir. Fiz o trabalho de 3 pessoas, acharam que eu não fosse dar conta, mas deu certo.
- Nossa que pique hein? – diz Joana já tentando se integrar ao papo do grupo.
- Pois é, mas é isso aí, não tenho medo de trabalhar. O mercado já é tão concorrido, imagina só se eu der mole, tem até um pessoal lá que às vezes faz cara feia por causa das minhas tatuagens. Vou pra cima mesmo.
- Pois é, o pessoal achava que você não ia dar conta. Mas não tem jeito, sapatão é sapatão! – diz empolgada uma outra menina que estava deitada no colo da namorada.
- Vocês já viram alguma sapatão que trabalha mal? – provoca Juliana, sem obter resposta e continua - Todas as mulheres lésbicas que eu conheço, sem exceção, são muito guerreiras e super competentes. Não desmerecendo os homens ou as mulheres héteros, mas pensem bem, como a Michele mesmo falou, tem que ir pra cima, existe tanto preconceito, que a gente acaba tendo que fazer tudo em dobro, para ganhar e impor respeito através da nossa competência.
- Sou lésbica sim, sou competente e com muito orgulho! – completa Michele.
- Falando em orgulho – continua Juliana – vocês vão naquela balada hoje, pra comemorar o dia da visibilidade lésbica?

Todas respondem que sim e decidem dar mais uma volta de bicicleta. Dessa vez Joana vai junto, papo vai, papo vem. Ao final do passeio de bike vem o convite.
- Quer ir na balada comigo hoje a noite? – pergunta Juliana, falando baixinho, meio tímida.
Joana responde:
- Humm só se a gente combinar de repetir esse passeio de bike qualquer outro dia, adorei!
- Fechado!

Trocam telefones e olhares. Se despedem. Joana chega em casa perto da hora do almoço e encontra Maria com cara de quem acabou de acordar.
- E aí como foi o passeio? Andou de bicicleta? Desculpa não ter ido, eu tava podre de cansada.
- Foi ótimo. Já tenho até uma balada pra ir hoje à noite. Eu ia andar de bicicleta sozinha... Mas conheci alguém...

Joana conta para a amiga sobre sua aventura no parque que a princípio seria solitária.
- Sou lésbica sim e com muito orgulho! Ah, aquele par de pernas...

A reprodução deste material foi autorizada gentilmente pelo portal
G.Onlline e pela autora do texto.

Dilvania Santana é produtora e publicitária. Seu e-mail é bonuventu@gmail.com

 


 





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