Exposição fotográfica em Salvador mostra o mundo das celebridades

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As comemorações do dia Nacional da fotografia movimentaram na noite desta sexta-feira (7) a Galeria do Solar Ferrão, no Pelourinho (Salvador, Bahia), durante a abertura da exposição Diário de Bolsa-Instantâneos do Olhar, da fotógrafa mineira Vânia Toledo.

Esse trabalho apresentado ao público baiano na quinta edição do Festival Nacional Agosto da Fotografia, trás um painel dos personagens dos anos 70,80 e o início dos anos 90 que de alguma maneira contribuíram por meio da sua arte para história do Brasil.

Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gal Costa e muitas personalidades conhecidas que marcaram essas décadas estão presentes, sinalizando o retrato de uma geração que, longe de qualquer saudosismo, imaginava e agia sempre pensando que o mundo poderia ser muito melhor.

 

UM RETRATO, UMA SAUDADE

E quem garante que a História é carroça abandonada
numa beira de estrada ou numa estação inglória?

(Pablo Milanés/Chico Buarque, 1978)

Em breve e inesperada volta ao lugar onde me criei, correndo contra o tempo para resolver algumas pendências absolutamente irrelevantes, vagava pela casa enorme, mais ou menos vazia, quando me deparei com um pequeno retrato na parede. Não sei quem o guardou nem porque fora colocado numa parede que raramente me chamaria a atenção. Virei-me um pouco para minha história e fui praticamente fuzilado pelo sorriso que há muito anos nos meus anos pueris encantara minha vida e sequestrara meu coração. O que aquele sorriso estava fazendo ali e por que, tanto tempo depois, ainda mexia comigo?

Perplexo e abestalhado, apenas olhando e rememorando um pequeno vídeo do meu jovem tempo que se fora, me senti o próprio Richard Collier (Christopher Reeve) fixado pela energia emanada de sua Elisa McKenna (Jane Seymour), no filme Em algum lugar do passado (1980). O colorido da foto, ainda bem conservado, mantinha intacto o momento em que, de algum lugar, com os olhos cheios de paixão e mãos felizes, eu registrara aquele sorriso. Algumas manchas laterais provocadas certamente por umidade e pelo desgaste natural do tempo, não foram capazes de corroer a essência do retrato que fiz questão de ampliar e deixar conspicuamente na parede de meu quarto de menino em pleno encontro com o amor. E lá ficou. Anos se foram, e dele, eu, solenemente, me desprendera.

Pode parecer uma grande bobagem ou até uma comprovação esdrúxula de romantismo barato, mas por alguns segundos, paralisado, não pude deixar de lembrar de uma canção que um dia dedicara àquele sorriso. Uma canção gravada pelo grupo Boca Livre, que dizia algo como “num certo bonito, à beira do precipício, você vai lembrar que eu sou o seu príncipe”. E era assim, que eu me sentia, um príncipe à beira do abismo, ao saber com todas as letras que aquele seria um grande amor, mas que estaria fadado a passar. De tão intenso e tão inconseqüente, não resistiria, cairia no precipício. Uma canção que parece ter sido escrita para aquele sorriso. E assim o foi. Caímos no abismo, mas o retrato, o retrato com aquele sorriso ficou.

Na volta para casa, um CD longo, com muitas músicas comprimidas em MP3, tocando baixinho, repleto de velhas canções selecionadas a dedo por mim, resgatava um pouco de momentos que, lentamente, eu tentava re-associar com o passado que me fora trazido de volta de uma forma inesperada. Algo como mais uma estrofe da citada canção do Boca Livre: “Eu tenho o dom de mandar o vídeo de volta ao início, o dom de agradar, não sou difícil, um benefício”. Com o vídeo de volta, no caos da bagunça de uma casa quase abandonada emocionalmente, a minha história foi cutucada e, sinceramente, me fez bem, me deu a chance de reviver coisas boas, a oportunidade de lembrar que nossa história de vida, em todos os aspectos, diante do que o sociólogo polonês radicado na Inglaterra, Zygmunt Bauman, chamou de modernidade líquida, não pode ser carroça abandonada numa beira de estrada ou numa estação inglória, como na linda letra de Pablo Milanês e Chico Buarque, aqui em epígrafe.

Em Amor Líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos (Jorge Zahar Editor, 2004, 192pp), uma de minhas leituras do momento, Bauman discute com muita propriedade a forma como nossas relações vêm se tornando cada vez mais descartáveis ou, como ele prefere, “flexíveis”. Perpassando por todas as relações, das amorosas às familiares às sociais, chega-se à conclusão que não mais sabemos cultivar e manter laços de longo prazo. Com isso não quero dizer que devemos ficar revivendo histórias passadas que não fazem mais o menor sentido serem revisitadas. Mas também não quero negar que o pragmatismo que tomou conta de nossas relações nos tempos atuais, simplesmente nos extirpou o direito de voltar e recontar as nossas histórias a partir das emoções. Virou brega relembrar um grande amor. Ou motivo de ciúme ou escárnio, talvez, recortar contextos das nossas vidas, trazendo de volta amores e momentos que nos marcaram para sempre. O alerta que fica disso tudo é que, infelizmente, nos tornamos seres humanos sem vínculos. Isto é, com a descartabilidade de tudo na vida, até os nossos amores tornaram-se líquidos.
A saudade que senti daquele sorriso, naquele momento, não fez mal, nem muito menos pode me levar a ser mal interpretado. Minha perplexidade sentimental e minhas doces lembranças, das canções às revelações, não evocam essas bobagens de se dizer que é amor mal resolvido ou ferida mal fechada. Nada disso. É amor sólido, ainda que passado e superado, contrapondo-se ao conceito de amor líquido. E assim deve ser quando a gente fala de amor. Nesse pormenor e tantos outros, o passado precisa, quem sabe, ser revisitado de quando em vez, para nos fazer algum bem, para, acima de tudo, nos chacoalhar emocionalmente. Estamos muito endurecidos. Muito armados. Muito pragmáticos. Estamos muito presos ao presente e absolutamente escravizados pelo futuro, pelo que há de vir. Isso não é bom. Isso nos leva simplesmente ao vivenciarmos um individualismo chauvinista e prepotente que não permite que nos fragilizemos diante de sentimentos, diante de um beijo roubado, de um sorriso que tanto nos fez felizes, ainda que hoje congelado numa fotografia. Estamos mesmo mecanizando nossas emoções.

Com esse sorriso na cabeça, e enquanto a estrada vai se serpenteando à minha frente, uma outra canção daqueles tempos vai se desfolhando: “Baby, você me inflama quando diz que eu tenho o amor que você sempre quis, me aperte um pouco mais que eu já estou por um triz, na impressão de enlouquecer, de ser feliz”. Ah, que delícia! Viajo bem para trás e revejo noites enluaradas em que eu adorava cantar esses versos para meu amor pueril. Amor que não precisa ser extirpado de mim simplesmente porque encontrei o grande amor de minha vida. Afinal de contas, graças a Deus, no bom sentido, não perdemos a destreza de ainda sermos tantos ao mesmo tempo e no tempo que desejamos. E o bom amor não morre, perpassa momentos, ressurge nas curvas da estrada, se materializa em cada verso de canções que forjaram marca nessas relações. É isso, gostemos ou não, para não virarmos seres líquidos, precisamos deixar que os nossos corações, mesmo prontos e livres para viver novas emoções, rebusquem nos seus cantos, boas e guardadas saudades.

Logicamente e sem muitas delongas, experiências ruins, devem mesmo ser enterradas. Mas que nos permitamos olhar retratos e sorrisos e, de uma forma ou de outra, reviver encontros, re-encontrar tudo aquilo que nos ajudou a sermos quem e o que somos hoje. Um simples sorriso congelado num velho retrato, escondido numa pilastra da nossa velha casa me deu essa oportunidade. Não sei por onde anda aquele sorriso. Sequer sei se, em algum momento, lembra-se de mim. Não importa. O sorriso é meu, a saudade é minha e dela faço lá o que bem quero. A perna treme, o peito pulsa, o pulso... ah, acelera, dispara, rola como montanha-russa. É uma saudade tão boa, tão gostosa, aquela sensação que renova o espírito, ativa a serotonina, dá vontade de voar... desliquidificando a vida.   

Enfim, a estrada vai recapturando minha atenção. A cidade grande está perto, o tráfego intenso já se anuncia. O pensamento que voava longe volta ao chão, os olhos se prendem no traçado irregular e perigoso da via movimentada. No ar, uma outra canção. Dessa vez, a voz aveludada de Marina Lima, nos seus bons tempos: “Eu tenho febre, eu sei, um fogo leve que eu peguei, do mar ou de amar, não sei, mas deve ser da idade...” É isso, deve ser mesmo da idade. Um retrato, uma saudade. Um sorriso inesquecível que me faz viajar no tempo e, deliciosamente, voltar a ter dezoito anos. Apenas dezoito anos. Com os meus medos, minhas incertezas, minhas aspirações. Dezoito anos. É como eu me sinto agora. Sem presente, sem futuro, apenas dezoito anos. Alucinadamente encantado por um sorriso e uma saudade. Alucinação? Sei lá. Pode ser. Ah, deixa pra lá, deve ser da idade...     

 

Uma semana de boas saudades e amores sólidos, e até o próximo Breakfast.
 Sávio Siqueira

 


 





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