No Dia Internacional da Mulher nossa principal homenagem é parar de violentá-las

Opinião, Social
8 de março de 2018
por Elder Luan

Tá nos trends topics do Twitter, e se o Facebook tivesse um ranking de assuntos mais comentados, o dia de hoje também estaria no topo. Hoje, todo mundo está parabenizando as mulheres pelo seu dia, comemorado internacionalmente. A questão, posta ano a ano, é que, muito mais do que um dia de comemorações, o dia oito de março é um dia de luta, uma luta que não pode ser encabeçada somente pelas mulheres, e que deve ter a colaboração, o comprometimento e a empatia dos homens. Eu, como homem, gostaria de hoje conversar com nós homens, sobre a necessidade que temos de combater o machismo enraizado em nas nossas práticas diárias.

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Um levantamento feito pelo G1 mostra que doze mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Em 2017 aconteceram 4.473 homicídios dolosos, sendo 946 registrados como feminicídio, quando a morte é motivada pela sua condição de gênero. O numero de feminicídio em 2017 aumentou 6,5% em relação a 2016, e se considerarmos o último relatório da Organização Mundial da Saúde, o Brasil ocuparia a 7ª posição entre as nações mais violentas para as mulheres de um total de 83 países.

Outro dado do ano de 2017 é tão assustador quanto: no Brasil acontecem 135 estupros por dia. A cada 10 minutos uma mulher é estuprada no Brasil e todos os dias cerca de 10 estupros coletivos são notificados. Foram 49.497 casos de estupros registrados no país no ano passado.

A cada 7,2 segundos uma mulher é vítima de violência física no Brasil, e a Central de Atendimento a Mulher chegou a receber 1 atendimento a cada 42 segundos, que somam 749.024 atendimentos no ano.

Quando consideramos a situação das mulheres negras, a situação é ainda muito mais alarmante. Enquanto as taxas de homicídio de mulheres brancas reduziu em cerca de 7,4%, o Atlas da Violência 2017 revelou o aumento de 22% nas morte de mulheres negras, no período de 2005 a 2015.

O principal espaço onde essas violências são cometidas é em suas próprias casas. Os índices de violência doméstica revelam que 50,3% dos homicídios foram cometidos por familiares, sendo que em 33,2% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro ou ex. Em 27,1% dos casos, os assassinatos foram cometidos na casa das vítimas.

Um levantamento realizado pela Organização Não Governamental Think Olga revela que cerca de 99,6% das mulheres já foram assediadas na rua, e que mais de 80% escolhem rotas e roupas diferentes para fugir do constrangimento. As formas de constrangimento são variadas. 74% afirmam que foram seguidas por olhares insistentes, 57% já ouviram comentários de cunho sexual, 39% foram xingadas ao não corresponderem as investidas, 44% tiveram seus corpos tocados, e 50% foram seguidas.

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Eu poderia continuar apresentando outros índices que denunciam a existência de múltiplas violências contra as mulheres. Entretanto, acredito que o que foi apresentado até aqui seja suficiente para dizer que, a principal homenagem que poderíamos fazer às mulheres, é parar de violentá-las.

Um bom começo para isso é aceitar que Não é Não e parar de tentar beijar as meninas a força nas festas e baladas; é não vazar nudes, que só te enviaram porque confiavam em você e nem tirar fotos ou fazer vídeos íntimos escondido; é parar de assediar as estagiárias, ou as mulheres que estão em algum cargo/função menor que o seu; é parar de dizer que a culpa do estupro é da mulher, porque ela tava mal vestida; é parar de silenciar as tuas colegas de sala, seja na escola ou na faculdade; é não embebedar a colega e abusar dela; é para de chamar a garota de gostosa, apenas porque ela está vestida da forma que ELA gosta; é parar de chamar pessoas trans de travecos; é reconhecer a identidade de gênero das mulheres trans; é não achar que duas lésbicas vão querer fazer sexo contigo, ou que vai ser você que vai fazer a mina deixar de ser lésbica; é para de pensar de que porque a garota é bi, que ela vai querer fazer uma suruba contigo; é parar de dizer que tem nojo de vaginas, apenas porque você gay; é reconhecer que o fato de ser gay não te faz menos machista e misógino; é assumir a tua paternidade, e não se achar o pica das galaxias porque está fazendo a tua obrigação como pai; é entender que a vida é dela, e que ela faz dela o que bem quiser, inclusive te deixar.

De nada adianta enchermos as nossas redes sociais de posts, levarmos flores ao trabalho, fazermos homenagens, se no dia a dia continuamos a produzir e reproduzir machismo e misoginia, se cotidianamente continuamos a violentar, em suas mais variadas formas, as mulheres que estão a nossa volta.

O dia de hoje, mais do que um dia de realizarmos homenagem às mulheres que amamos, conhecemos, que trabalham conosco, é um dia para repensarmos nossas atitudes machistas, um dia para transformar o nosso comportamento, um dia para entrar na luta pelo fim da violência e da opressão  contra as mulheres, sejam elas trans, cisgêneros, brancas, índias, negras, heterosexuais, bissexuais ou lésbicas. O nosso comprometimento pelo fim da violência não pode ser seletivo, não pode abarcar apenas algumas identidades privilegiadas, aquelas que consideramos mais humanas e menos destinadas à violência. Nós homens, somos peças fundamentais para a eliminação da opressão contra mulher, afinal, somos nós que estamos diariamente violentando-as.

 

*Elder Luan – Graduado em História e doutorando do Programa de Pós-graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismo.