‘Mesmo no escurinho do cinema a gente se julga, a gente tem medo’ por Filipe Harpo

Cinema, No Circuito
9 de setembro de 2018
por Genilson Coutinho

Cena do filme Moonlight

Filipe Harpo

Marcamos nosso primeiro encontro no shopping e o combinado era ir ao cinema se tudo desse certo. Nos conhecemos, nos gostamos, compramos o ingresso e na sala de cinema, quando escureceu, vieram os primeiros beijos e primeiros carinhos. O cinema estava cheio, eu e ele abraçados ali. De mãos dadas, aos beijos. Como um casal normal que nós éramos…

Sempre achei que a experiência fílmica é algo muito simples. Cinema é apenas cinema. Se você assistir um filme ruim isso não será o fim do mundo, nem se você assistir um filme bom toda sua vida mudará por conta daquele produto. A vida real é bem diferente de toda uma trajetória resumida em duas horas. Mas eu sempre notei que a experiência de estar no cinema, para nós LGBT é algo que, para mim, vai mais um pouco além.

A nós, é reservado o lugar do proibido, banheiros nefastos, matagal, escadarias de shoppings, saunas, paredões escuros, cabines, o sigiloso. Nossa sexualidade é ligada e resumida a nosso sexo. E minha geração, sou um homem de 34 anos, ainda aprende a viver com as novas possibilidades… Por mais empoderamento dentro de si, ainda é difícil, as vezes, andar de mãos dadas, fazer um carinho em público, ser normal! E o que o cinema tem a ver com isso? Quer experiência mais normal que ir ao cinema com o crush e partilhar de carinho, ver o filme, mais carinho, comer pipoca, tomar refrigente e simplesmente ser feliz?

Rabos brancos, importam? por Filipe Harpo

Mesmo no escurinho do cinema a gente se julga, a gente tem medo. Lembro de ver um filme de ação recentemente e observar um casal se comportando como amigos, largados, zoando e quando a sala escureceu revelavam-se homens carinhosos um com o outro. Final do filme, voltam ao teatro da amizade. Para um casal hétero, a normatividade privilegiada dá o prazer do teatro NUNCA acontecer.

Lembro de um namorado que tive, uma grande paixão do passado, de tomar coragem e não desfazer o teatro. Um frio na barriga, aquele povo todo olhando. Cinema LO-TA-DO eu ali, sendo político, coração pulando quase, de mãos dadas na claridade antes do filme começar, mas a certeza de que viver sem ter feito aquilo, nunca! Mas confesso, ser político dói. E a gente as vezes quer somente… ser! Sem nada mais aliado ao ato de existir. Não aconteceu nada naquela sessão, somente alguns olhares de reprovação, mas poderia ter sido pior… essa certeza sempre existe.

Se você é da geração tombamento faz, acontece, beija e se acaricia em público, parabéns! Mas mesmo os novinhos, vejo ainda sendo controlados pela certeza de liberdade vigiada. Basta comparar a liberdade entre uma sessão de filme LGBT e um filme pipoca, por exemplo. As pessoas circulam livremente, os casais florescem, na sessão do arrasa quarteirão (alguém ainda usa essa gíria rs?) tudo se torna invisível ou “discreto”.

Eu torço por dias normais. Em que o primeiro encontro pode não ser tão tenso. Ou a ida ao cinema com o namorado de anos, pode ser muito mais prazerosa. Sem tantos acordos invisíveis. O cinema é algo mágico, apesar de simples. A gente se socializa, se mostra, compartilha impressões imediatas da arte com uma multidão. Isso não poderia ser entrecortado por incertezas, paranoias e afins. Desejo existir plenamente, no escurinho do cinema, ou quando as luzes ascendem…

Filipe Harpo é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.