Mãe de Verônica Alves consegue ver a filha: ‘Ela está muito machucada, mas está bem’

Notícias
16 de abril de 2015
por Genilson Coutinho

vero

Após três dias sem conseguir ver a filha Verônica Alves, Marli Ferreira Alves Francisco, de 48 anos, finalmente conseguiu, com auxílio de advogados que foram ao 2º DP (Bom Retiro), visitá-la na tarde desta quarta-feira. Verônica, que arrancou com a boca um pedaço da orelha de um agente carcerário e é indiciada por homicídio tentado, resistência e tentativa de evasão, prestou depoimento na presença de integrantes do movimento LGBT.

— Ela está bem. Está muito machucada, mas está bem. Era tudo que eu queria, ver ela, falar com ela, abraçar… — disse a mãe.

Desde quarta-feira, um áudio circula na Internet com uma suposta declaração de Verônica afirmando que foi “possuída” e precisou ser “contida” pelos policiais. Ela ainda diz que não foi alvo de tortura. Na mesma gravação, Heloisa Gama Alves, coordenadora de Políticas para a Diversidade Sexual da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, completa: “Está muito claro agora que não houve tortura. A Verônica reconhece que ela mesma entrou nessa briga”, disse. “Qualquer dúvida, depois vocês entrem em contato comigo que eu estou pronta pra fazer qualquer esclarecimento”, concluiu a coordenadora. Procurada pelo EXTRA, Heloisa, contudo, se negou a comentar o áudio, embora a Coordenadoria tenha confirmado que é ela na gravação.


Nas redes sociais, usuários questionam as condições sob as quais Verônica teria dado essas declarações, sugerindo que ela pode ser sido coagida a dar o depoimento. “Por que áudio?? Por que não um vídeo mostrando a cara dela?”, diz um internauta. “Tem que ser vídeo! Nada justifica esse agressão! Como foi a agressão que ela causou ao policiais? Por que não está claro no áudio isso? Muitos indícios evidenciam que ela foi coagida a gravar esse vídeo”, diz outro.

Mobilização ultrapassa as redes

A mobilização pelos direitos de Verônica extrapolou a internet. O deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) prometeu, em sua página no Facebook, levar o caso da travesti para discussão na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e também à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. As fotos de sua prisão, divulgadas nas redes sociais no último domingo, mostram a travesti com a camisa rasgada, os seios de fora, o cabelo raspado e o rosto deformado.

“O já medieval sistema carcerário brasileiro tem conseguido superar-se em violações aos direitos de travestis e transexuais privados de liberdade. Cabelos raspados, pronomes masculinos, negação de acesso ao tratamento hormonal, vulnerabilização de corpos femininos ao misturá-los à população masculina são apenas o começo. Violência e estupro são cotidianos para boa parte dessas pessoas”, afirmou o deputado.

Segundo a Secretaria estadual de Segurança Pública de São Paulo, Verônica foi agredida pelo agente carcerário que se defendia de seus ataques. Mais cedo, o órgão havia divulgado nota afirmando que Verônica “estava detida em uma cela, expôs a genitália e começou a se masturbar, o que provocou a agressão por parte dos outros presos”. A SSP ainda afirma que a travesti já usava os cabelos raspados antes de ser presa e que ela mesma tinha escolhido não encontrar sua mãe.

Do Extra