Luiz Mott: Matar veado não é homicídio, é caçada

Comportamento, Social
1 de dezembro de 2014
por Genilson Coutinho

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Data de 1985 esse abominável brado morte para os homossexuais, hoje referidos de forma politicamente correta como LGBT – lésbicas, gays, bissexuais e trans (travestis e transexuais) – publicado pelo jornalista Berbert, auto proclamado “exterminador de veados”. Em 1996, a apresentadora Ana Maria Braga recebeu o troféu Pau de Sebo do Grupo Gay da Bahia pela piadinha de seu papagaio: “a maior tristeza de um pai caçador é ter um filho veado e não poder matar!” No ano passado, o deputado Bolsonaro repetiu esse mesmo mantra proferido de norte a sul do país: “prefiro meu filho morto do que gay!”

O Brasil é um país desconcertantemente contraditório em relação a 10% de nossa população pertencente à tribo LGBT: em seu lado cor de rosa, abriga a maior parada gay do mundo, elegeu a transexual Roberta Close como modelo de beleza da mulher brasileira, agora virou moda mostrar personagens gays nas telenovelas. Mas nosso país se destaca no cenário global pelo seu lado vermelho sangue: aqui são assassinadas 50% das travestis do mundo, a cada 28 horas é registrado um “homocídio” e segundo recente pesquisa do Disk 100, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a cada hora um LGBT é vítima de alguma violência homofóbica: insultado, expulso de casa, agredido em bullying escolar, espancado. 605% a mais do que no ano passado! A Bahia, que no imaginário nacional é a terra da alegria, na verdade, é território da homofobia: 24 assassinatos só nesse ano, 519 desde que o GGB começou esse banco de dados em 1980. Na semana passada, um motoqueiro matou a tiros três gays que conversavam numa praça aqui no sertão de Santa Brígida.

 

Os crimes homofóbicos são uma peste que assola nosso estado e país. Triste herança da sexofobia bíblica instigada no Brasil colônia pela Inquisição. A homofobia/racismo/machismo tornaram-se mais virulentos aqui em conseqüência da escravidão, quando os donos do poder, menos de 20% da população, representados pelos machos brancos, tinham de manter subjugada imensa população: mulheres, jovens, negros, índios, mestiços, escravos. Somente machos ultraviolentos conseguiram dominar mais de três quartos da ralé miúda, isso à custa de muito chicote, pancadaria, facada, apartação.

Tal é a gênese da homofobia contemporânea: homem efeminado, mulher machuda, travestis, famílias alternativas… ameaçavam e continuam desafiando a hegemonia do macho dominante e da sagrada família, daí o veredicto ainda hoje repetido: “viado e mulher, têm mais é que morrer!”.

Há remédio para reduzir e erradicar essa peste homofóbica: educação sexual científica e humanitária em todos os níveis escolares, ensinando nossas crianças e jovens a respeitar a livre orientação sexual e identidade de gênero de todos; aprovação de lei equiparando a homofobia ao crime de racismo; ações afirmativas promotoras da cidadania das minorias sexuais; estímulo aos LGBT para que saiam do armário e denunciem todas manifestações de homofobia, pois silêncio=morte!

 

Direitos iguais, nem menos nem mais.

Luiz Mott, Etno-Historiador, fundador do GGB

luizmott@oi.com.br