Longa ‘Maria Madalena’ traz história da fiel seguidora de Jesus Cristo por Mário Edson

Cinema, No Circuito
15 de março de 2018
por Genilson Coutinho

Rooney Mara em cena do filme “Maria Madalena” (Reprodução)

Por Mário Edson

Maria Madalena foi usada por Gregório Magno, no século VI para demonstrar que o arrependimento era condição para remissão dos pecados, para isso denominou-a como a prostituta arrependida…  Essa lenda corre séculos…

Eis que nos chega as telas, e livro, agora, uma versão bela, humana e sobretudo isenta de qualquer condição de se impor ou levantar bandeiras…

Protagonizado por Rooney Mara(não poderia haver melhor acerto) , o filme narra  a história deste incógnita que já passou por varias leituras, na literatura, nas artes plástica e sobretudo na liturgia da igreja…  O filme,  no entanto,  não se propõe a questionar nenhuma das possibilidades, ainda que se aproxime da versão oficial da seguidora de Jesus,  mostra-se como um relato humanista de rara beleza…

Aqui vemos a história de uma mulher forte que, como os apóstolos, abre mão da situação  cômoda e convívio no seio familiar para seguir Jesus Cristo e propagar sua doutrina. Em meio a muitas especulações Maria Madalena foi taxada de prostituta, amante de Jesus e, na visão da igreja, tornou-se símbolo de arrependimento … Muitos já lhe atribuíram situações e vários foram os artistas que lhe traçaram perfis diversos. Entre os perfis a ela atribuídos, estão a de santa, arrependida e pecadora (prostituta), uma tríade forte e conflituosa.

Em tempos de discussão a respeito de intolerância, questões de gêneros e afins, o filme não poderia encontrar terreno mais fértil para se lançar. Muito já se falou de Maria Madalena. Mais recentemente,  Dan Brown lançou um olhar diferenciado e utilizando-se da obra de Da Vince faz uma analise da santa ceia onde encontra sua figura entre os apóstolos, uma polêmica para a igreja… inclusive quando a coloca como suposta esposa de Jesus…

Importante frisar, e o filme o faz muito bem, a importância desta mulher que naquela época, coloca em cheque uma igreja machista, predominantemente baseada em critérios estabelecidos e determinados pelo sexo masculino. Contrariando  alguns fatos, hoje questionados,  é possível que coloquemos  em cheque algumas posições : Porque Pedro que negou Jesus foi alçado a fundador da igreja? Por que foi negado as mulheres a possibilidade de ingressarem como apóstalas, rezarem missa e ministrarem sacramentos?  O filme,  sutilmente e em cena de rara força e beleza,  questiona e sem agredir nos mostra uma Maria Madalena batizando no rio… Um dos destaques da narrativa que acontece de forma tão natural que nos passa quase despercebida, tamanha é a sutileza e normalidade em se tratando de pessoa tão motivada, envolvida e comprometida com a doutrina de Jesus… Um achado.

Em 2016 o papa Francisco nomeou-a Apóstala dos apóstolos, um avanço da igreja. Aos católicos que buscarem uma narrativa sob a ótica bíblica e centrada numa Madalena conhecida, restara um pouco de frustração. Com uma bela fotografia e atuações corretas, o filme os emocionará sem o mínimo de pieguice, nada de drama rasgado ou exagero no sofrimento e descaso, principalmente quando se fala da posição de uma mulher na sociedade aquela época…  Em nenhum momento constitui  afronta ou desrespeito aos dogmas pregados pela igreja, muito pelo contrario, sem levantar bandeira feminista ou do famoso e batido empoderamento, narra  de forma simples e humana a trajetória de uma mulher que fez história… A  história aqui narrada nos fala de uma mulher forte e determinada, crente acima de tudo no amor e na propagação da doutrina de paz pregada por Jesus, o que vemos é uma história de amor em meio a intolerância(nenhuma diferença dos dias atuais) e aceitação, um embate criado em meio a uma dominação masculina e conservadora.

As sutilezas identificadas pelos mais atentos os darão conta de como o amor está presente em cada conflito, tome-se como exemplo a relação de Madalena com Judas, aqui tratado com humanidade e em nenhum momento hostilizado por ser traidor…

Rooney Mara nos brinda aqui com uma de suas melhores performances. Dona de uma beleza singular compõe uma Madalena sofrida,mas não coitadinha, e sim forte e determinada, em conflito mas disposta a sair a cata de respostas e esclarecimentos… Crente e convicta de suas escolhas e fiel a si mesma, dona de uma integridade espetacular…

Ficha Técnica:

Direção: Garth Davis

Elenco: Rooney MaraJoaquin PhoenixChiwetel Ejiofor mais

Gêneros HistóricoDramaBiografia

Nacionalidade Reino Unido

Estreia: 15 de março de 2018

Mário Edson é fotógrafo, produtor cultural e coordenador do grupo Amantes da Sétima Arte. Publica pequenos textos e ensaios sobre cinema, arte e cultura em meio a ensaios fotográficos no blog: ateliecultural.blogspot.com.