Livro sobre “Revolucionário e Gay” será lançado nesta sexta (10), em Salvador

Slider
30 de julho de 2018
por Genilson Coutinho

O historiador James Green

Fundador do “Somos: Grupo de Afirmação LGBTQ l”, o historiador brasilianista James Green, da Universidade de Brown (EUA), estará em Salvador nesta sexta (10) . James, que foi um dos responsáveis pelo capítulo de homossexualidade do relatório da Comissão Nacional da Verdade, fará o lançamento do seu novo trabalho às 19h, na Livraria Saraiva do Shopping Barra.

O livro intitulado “Revolucionário e Gay” é uma biografia do ativista gay e guerrilheiro Herbert Daniel, morto em 1992. Hebert foi um dos pioneiros do movimento LGBT no Brasil e ativista pela democracia durante a ditadura militar.

James é autor de outras grandes obras sobre a comunidade LGBTQ, a exemplo de “Ditadura e homossexualidade no Brasil: repressão, resistência e busca da verdade”, “Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX” e “Apesar de vocês: a oposição e a ditadura militar brasileira nos EUA”.

Sobre a obra

Estudante de Medicina em Belo Horizonte no início da década de 1960, Herbert Daniel logo se juntou às fileiras da resistência à ditadura civil-militar instaurada no Brasil em 1964. Entrou para a luta armada e conviveu com nomes ilustres do movimento, como o capitão Carlos Lamarca e a ex-presidente Dilma Rousseff. Um dos últimos brasileiros a voltar do exílio, na década de 1980, escreveu e editou livros e ainda engajou-se nas campanhas pela defesa do meio ambiente e das minorias e foi um importante ativista pelos direitos das pessoas portadoras de HIV/Aids no Brasil.

Herbert Daniel foi também pioneiro ao se candidatar a deputado estadual e a se assumir publicamente como homossexual, fazendo campanha e militando no embrionário movimento LGBT no Brasil. Mas, nem sempre foi assim, como nos conta o historiador James Green na biografia “Revolucionário e gay – A vida extraordinária de Herbert Daniel”. Para o autor, para ser aceito nos grupos de esquerda e participar da luta armada Daniel precisou reprimir sua homossexualidade, vista com maus olhos pelos militantes da época, e viveu, segundo ele, uma espécie de “exílio interno”. A motivação para escrever a biografia veio da percepção de que, mesmo com toda a sua importância no ativismo de esquerda e pelos direitos humanos, Daniel foi esquecido.

“Ele foi uma pessoa que vivia em certo sentido antes do seu tempo, pois a sociedade brasileira não estava preparada para receber as novidades que ele apresentava, por exemplo, na sua campanha eleitoral de 1986 ou inclusive nas campanhas sobre HIV/Aids. O país também passou por muitas crises econômicas, políticas e sociais desde 1992, quando ele faleceu. Não sei se é verdade que os brasileiros não têm memória, mas às vezes é essencial oferecer um livro, um documentário, ou um filme sobre uma pessoa extremamente importante numa determinada sociedade justamente para relembrar as pessoas sobre estas figuras extraordinárias, que viveram em outros momentos”, diz Green em entrevista para o blog da Record.

O livro, que tem orelha de Dilma Rousseff e um encarte de fotos, chega às livrarias pela Civilização Brasileira em agosto.

TRECHO

É fácil presumir que a dedicação de Herbert à sua nova vida como revolucionário era puramente política. Seu comprometimento durante os sete anos seguintes foi tão absoluto que pode parecer injusto atribuir qualquer outro motivo ao seu profundo envolvimento. No entanto, parece que as intensas amizades que construiu na faculdade e, mais tarde, em condições adversas na clandestinidade, tornaram-se tão importantes quanto sua devoção ideológica à mudança radical. Ele compartilhava de uma causa comum com pessoas que não pareciam notar que ele era homossexual – nem se importar a respeito disso. Os laços poderosos entre camaradas, forjados no projeto conjunto contra o inimigo comum, criaram um sentimento de pertencimento que superava o isolamento que sentira devido aos seus desejos sexuais não normativos. Ali estava uma chance de distanciar-se o sentimento de exílio das atividades de seus contemporâneos.”

ORELHA

“Conheci Herbert Eustáquio de Carvalho em plena ditadura militar. O Brasil vivia um momento complexo e, contraditoriamente, o arbítrio e a restrição de direitos democráticos conviviam com uma explosão de criatividade na música, no cinema, no teatro e na vida social. A busca de liberdade e a intensidade da luta e da vida até 1968 se misturavam à resistência à ditadura; expandiam-se, englobando estudantes nas ruas, greves de trabalhadores, efervescência nas artes, e a juventude vivendo intensamente e buscando novos caminhos para o Brasil. Vivíamos a opção pela luta armada e compartilhamos convicções, confidências e sonhos. Ficamos muito amigos e assisti no dia a dia daqueles tempos a sua progressiva transformação em Herbert Daniel.

Entre incompreensões e decepções, muita coragem e uma imensa alegria que lhe eram peculiares, ele construía sua identidade política e assumia sua sexualidade. Tinha uma inteligência aguda e curiosidade ilimitada. Mesmo com dor, buscava tecer suas relações amorosas intensamente. Tinha dolorosa consciência de que a vida política naquele momento não se traduzia na liberdade de exercer sua identidade sexual abertamente nem tampouco acarretava ampla aceitação das suas diferenças e das diversidades de gênero entre todos os seus companheiros. E me alegra muito que, na dura clandestinidade imposta pelo AI-5, tenha encontrado o grande amor e seu companheiro de toda a vida.

Compartilhamos o exato momento em que floresceu o que fez dele um pioneiro na luta pelo direito de exercer sua identidade sexual e uma exemplar personalidade política da nossa geração.” (Dilma Rousseff)

James N. Green (Baltimore/EUA, 1951) é professor de História Latino-Americana na Brown University, é ativista de causas políticas e LGBT.  Viveu no Brasil entre 1976 e 1982, época em que participou de diversas organizações políticas e identitárias, como o Grupo Somos de Afirmação Homossexual (Somos), do qual foi um dos fundadores. Atualmente é diretor da Brown’s Brazil Initiative e do Opening the Archives Project, e diretor executivo da Brazilian Studies Association. Este é seu primeiro livro pela Civilização Brasileira.

Tradução: Marília Sette Câmara

Páginas: 378

Preço: R$ 69,90

Editora: Civilização Brasileira | Grupo Editorial Record