Laerte & Rita Lee, e a nossa obsessão com a própria ignorância

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2 de fevereiro de 2012
por Genilson Coutinho

Hoje mais cedo conversava com amigos e me veio a lembrança de uma hipótese do John Thompson, sociólogo e professor de Cambridge (desculpa, viu, Flávia, hehe). A saber, de que é possível medir uma sociedade pela natureza dos seus escândalos. Acho que dá mesmo. A nossa, por exemplo, às vezes me parece medíocre. Valoriza aparências e moralismos em detrimento a experiência e conhecimento.

Dois dias antes do sábado (29) em que se comemora o Dia da Visibilidade Trans, o cartunista Laertefoi impedido de usar o banheiro feminino em um restaurante da zona oeste de São Paulo. Laerte tem 60 anos e precisa ser respeitado como cidadão, por sua identidade diferente/extraordinária e, acima de tudo, por sua experiência, conhecimento e talento superiores aos da maioria de nós todos. Porém, o olhar da sociedade sobre pessoas como Laerte é de que são bizarros, subcidadãos. O discurso do “vamos respeitar a diferença”, a essa altura, embora óbvio e inteligente, foi lançado na pilha de jacas. Eu pergunto: Laerte, servindo à sociedade e à cultura como serve, através do humor e da ficção para nos levar adiante, não deveria ser considerado um cidadão superior a todos nós?

De acordo com reportagem da FolhadeSãoPaulo, o cartunista se utilizará da lei estadual 10.948/2001 para processar o estabelecimento. Com razão. Deveria haver dispositivo para se processar a sociedade toda e nos fazer criaturas melhores também. Assim, instantaneamente! Olhe para nós. Como é engraçado separar pessoas que defecam e urinam igual em banheiros. Será para conter os brutos ímpetos do desejo sexual heterossexual que podem aflorar caso ocupemos o mesmo espaço para destinar dejetos? Seria o banheiro o lugar mais sexual de um casamento heterossexual então?

Essa separação de banheiros é pautada pela ideia de que a heterossexualidade é a orientação sexual natural, da mãe natureza, correta: em suma, uma grande falácia. Ou seríamos nós, LGBTs, todos anormais. E não é bem assim, né? Osbanheirossãocabinesdevigilânciadogênero, escreve Beatriz Preciado. Por mim, todo mundo ia na mesma casinha, digo eu.

Segundo caso, Rita Lee (67 anos) é obrigada a depor por desacato à autoridade. Como bem colocou NinaLemosemsuacolunanoEstadão, a tia do rock não se aposentou e nunca foi mais rebelde. Em show de despedida em Aracaju, Sergipe – um dos piores IDHs do Brasil -, no sábado (28), notou truculência por parte da polícia no trato com seus fãs – que poderiam estar fumando maconha ou não – e reclamou. Reclamou do poder de polícia! Indiretamente, criticou o estado punitivo. Indiretamente, lembrou a alguns de nós que algumas drogas são lícitas porque possuem forte lobby junto aos poderes legislativos (tabaco, álcool) e que outras são ilícitas porque têm lobby fraco. A roqueira, sem querer, lembrou que na vida em sociedade, muitas vezes, a qualidade de vida – ver um show de seu ídolo – é sugada em prol de vigilância e de punição.

Rita Lee, Rita acolá. Rebelou-se em um país onde polícia acha que é o braço impune do estado, que poder de polícia é divino e não socialmente constituído. Que cita códigos (Código Penal Brasileiro) quando é conveniente, mas esquece-se dos mesmos códigos (Declaração Universal dos Direitos Humanos, Constituição Brasileira) no trato com indivíduos que entende como… subalternos. Neste momento, às favas com tudo o que Rita fez pela cultura brasileira. Assim, pensou a polícia de um dos estados de pior IDH do Brasil.

Precisamos valorizar o conhecimento e não a ignorância. Quando isto for um pouco mais claro nas nossas cabeças, saberemos que delegar poderes não é abrir mão da liberdade de “ser alguém” em sociedade. Acima de tudo, saberemos que os instrumentos de vigilância dos outros são ferramentas nossas, criadas por nós mesmos. Portanto, só nós podemos desfazê-los.

Quinze dias atrás, o Dois Terços publicou um textoescritopormimporLeandroSouza que rendeu muita discussão (ainda bem!), com comentários muito positivos e comentários muito negativos. Os primeiros concordavam com os nossos argumentos ou apontavam equívocos aqui ou a-lee (obrigado a vocês!). Os segundos desqualificavam os autores do texto e não seus argumentos. Preciso falar mais? Argumentos se combatem com argumentos mais coerentes ainda, ideias com ideias mais coerentes ainda (como fizeram Laerte e Rita Lee). O resto é bobagem, ignorância, truculência. E como alguns de nós se apegam à própria ignorância… Como náufragos desesperados que não sabem se afundarão caso larguem o pedaço de pau. Esquecem-se de aprender a nadar.

Por

João Barreto

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.
twitter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/