Jovem ganha concurso Miss Acre Gay 2021 e comemora apoio dos pais: “Não esperava”

Genilson Coutinho,
08/07/2021 | 22h07
Foto: Divulgação

Preto, pobre e gay. Seria o combo completo para uma história de vida sofrida, marcada por injustiças e dificuldades, não fosse seu protagonista, Felício Lima, de 21 anos, tornar-se dono da própria história, se refazer e lutar por seus objetivos. “Eu sou o meu próprio padrão!”, disse ao ac24horas após vencer o concurso Miss Acre Gay 2021, no último domingo (4), em Rio Branco.

A consagração no concurso foi só a cereja do bolo para o estudante morador do bairro Conquista, na capital acreana. A maior realização mesmo foi avistar seus pais, a doméstica Maria e o vigilante Raimundo, na plateia do Afa Jardim comemorando o sucesso do filho, também apresentado na disputa como Katheryne Brandão.

Horas antes da grande final, Felício não tinha em mãos nem mesmo o vestido que lhe levaria à glória. O aluguel do apartamento que vive atualmente está atrasado, pois investiu o pouco dinheiro que tinha para realizar o sonho de ser a Miss Acre Gay 2021.

“Uma coisa me marcou muito, que foi ver meus pais lá, a forma como eles reagiram. A melhor sensação foi quando olhei na plateia e vi minha mãe lá”, contou emocionado. Dona Maria, que sempre se mostrou mais fechada quanto à orientação sexual do filho, quebrou as barreiras do preconceito ao decidir ficar ao seu lado num dia tão importante.

“Era algo que eu não esperava. Não diria nem que eles [os pais] me apoiam, mas a forma como me aceitaram foi boa. Sei que nunca é fácil para a família. Meu pai é que sempre foi mais liberal, de boa”, explica Lima.

Apesar de muitos empecilhos, principalmente financeiros, Felício (ou Katheryne) garante que a experiência no Miss Acre Gay foi a mais sensacional possível. “No final deu tudo certo. Foi uma sensação surreal, não consigo explicar. Um momento único da minha vida, algo que sempre quis. Ter chegado na final foi gratificante. Olhar para trás e perceber tudo que passei, já me sentia vitoriosa”, destaca.

Todas as humilhações, chacotas, piadas e portas fechadas, foram vencidos com a determinação do estudante. “passar por isso para mim já é uma vitória, quebrar esses tabus, levar minha representatividade ao concurso e vencer foi reconhecer o fruto do meu esforço”, comemora.

Felício diz nunca ter escondido de ninguém quais eras suas preferências e objetivos. “Minha relação com a família é e sempre foi muito clara. Nunca fiz nada que precisasse me esconder. Sempre fui muito evidente e deixei claro o que eu queria”.

A dificuldade de conseguir um emprego fez com que ele se “virasse” e trabalhasse com várias atuações ao mesmo tempo para conseguir ajudar a família em casa, com seus dois irmãos, e a si próprio. “Sou maquiador, bailarino, design de sobrancelhas e faço parte de movimentos culturais em Rio Branco, como Fanfarra, Quadrilha, Bloco de Carnaval”. Agora, ele pretende ingressar num curso de nível superior.

“Minha família tem uma origem humilde, às vezes não tinha o que comer, tomar café, via o sofrimento dos meus pais pelo simples ato de eles deixarem de comer para a gente. Nossos pais nunca nos deixaram passar fome”, relembra. Mesmo com momento difíceis, teve uma infância tranquila e feliz. “Sempre tive que me virar, trabalhar para poder conseguir algo na vida e hoje vejo uma evolução enorme em mim”, conclui.

  • Por Taís Farias, do AC24horas.