Jovem denuncia estupro em ataque homofóbico em Petrolina: ‘Ainda estou em choque’

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4 de maio de 2016
por Genilson Coutinho

As ameaças de morte, os chutes e os socos ainda atormentam o estudante de psicologia Anderson Veloso, de 21 anos, vítima de um ataque homofóbico último sábado. Mas, além da violência psicológica cometida por três homens, o jovem conta que foi estuprado pelo grupo com um pedaço de pau e, em seguida, abandonado em um local ermo da cidade de Petrolina, no interior de Pernambuco. No caminho de volta à casa, feito a pé em cerca de 30 minutos, com roupas rasgadas e descalço, amadureceu a resolução de falar sobre aquela uma hora e meia de pânico e, assim, decidiu escrever um comovente relato no Facebook.

Estudante de psicologia usou o Facebook para relatar a agressão sofrida Foto: Facebook / Reprodução

Em entrevista ao EXTRA, o estudante se disse preocupado com as intenções do grupo de cometer mais atentados como o que viveu. Frases como “esse é só o começo” apavoram Anderson, que garante que, mesmo com medo, não vai se calar — Anderson fez questão de mostrar o rosto para protestar contra a violência:

— Estou muito assustado, sim, e não tenho como dizer que não estou com medo. Mesmo assim, não posso me calar. É isso o que pessoas preconceituosas fazem: tentam silenciar a nossa voz usando a violência. Acho que me deixaram vivo como um aviso do que vão continuar fazendo, mas não posso me esconder nesse momento — diz o jovem, que registrou queixa na 214 Circunscrição da Delegacia de Polícia de Petrolina.

O estudante dá detalhes da ação do trio: ele saía de casa, por volta das 18h30m, quando foi abordado pelos agressores. Com uma arma, eles o obrigaram a entrar em um carro preto, em que viajou cercado por dois homens encapuzados. O motorista conduziu sozinho na dianteira do veículo, também com o rosto protegido, até um local desconhecido por Anderson. Lá, o trio começou uma verdadeira sessão de tortura:

— Apanhei na cabeça muitas vezes, com socos, e tomei muitos chutes na barriga. Depois, mesmo debilitado, me enforcaram com o cordão do meu short. Estou com o corpo todo dolorido — diz Anderson, que contou estar habituado a palavras e atitudes preconceituosas no dia a dia: — Escuto tantas ofensas sobre meu comportamento que a violência verbal já não me afeta. Agora, a violência sexual doeu. É muito pesado, ainda estou em choque — desabafa o estudante, que passou por exames médicos que excluíram possíveis sequelas após o estupro sofrido.

O delegado responsável pelo inquérito, Daniel Moreira, acredita que a agressão a Anderson pode estar relacionada a um outro caso registrado, em que um grupo agrediu violentamente um homossexual num bairro vizinho.

— Acreditamos na possibilidade de o grupo conhecer a orientação sexual da vítima, até porque foram dois casos parecidos (o anterior não teve sequestro, nem estupro) e na mesma região. Já estamos fazendo diligências para identificar suspeitos — contou o delegado.

Apoio nas redes sociais

Depois de publicar sua história no Facebook, o perfil de Anderson foi invadido por mensagens de apoio. “Eu to de luto. Não precisou uma morte pro meu luto”, comentou uma amiga. “Saiba que por mais que existam essas pessoas que não têm coragem de ser o que realmente são, nós ajudaremos com sua luta e a de toda a comunidade LGBT contra a homofobia, por um mundo melhor e com mais tolerância. Com mais amor e menos ódio!”, escreveu outro internauta.

Anderson decidiu denunciar o caso, apesar do medo Foto: Facebook / Reprodução

O acolhimento da família, da igreja e da universidade em que estuda também deram ao jovem combustível para continuar combatendo a homofobia:

— Pretendo que a luta continue, pelo menos aqui na região, que as pessoas não percam a coragem, que as pessoas que já sofreram isso escutem esse clamor e se posicionem — pede.

Do Extra