Jornalista e escritor comenta documentário Axé

Opinião
4 de março de 2017
por Genilson Coutinho

Márcio Victor, Chico K e Durval na pré estreia em Salvador (Foto: Genilson Coutinho)

Por Elenilson Nascimento

Já faz muito tempo que eu deixei de gostar do gênero axé-music, como também já faz muito tempo que eu não participo mais do carnaval ditador e segregador de Salvador, por diversos motivos, mas os principais e, talvez, os mais decisivos na minha opção de continuar dando de ombros foram: a baixa qualidade musical nos últimos anos, a violência que impera nas ruas, o fedor de mijo dos mal educados, a perda do espaço público com o advento dos camarotes e a oficialização da mediocridade. Contudo, com o lançamento do documentário “Axé, canto do povo de um lugar”, estreia na direção de Chico Kertész, que chegou aos cinemas do Brasil inteiro desde o mês de janeiro, estou revendo os meus conceitos com relação à folia momesca, mas não esperem muito de mim.

Para quem gosta de documentários musicais, “Axé, canto do povo de um lugar”, obra jornalística sobre os velhos, criativos e mais participativos carnavais que não voltam mais, pode ser colocado na mesma estante das boas produções do gênero, ao lado de sucessos de bilheteria como “Paulinho da Viola – Meu tempo é hoje” (2003); “Cartola: Música para os olhos” (2006); “Fabricando Tom Zé” (2006); “Uma noite em 67” (2010); “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei” (2008); “Palavra (en)cantada” (2008) – sobre a obra de Chico Buarque; “Marisa Monte – Infinito ao meu redor” (2008); “Hebert de perto” (2009) e “Alô, Alô, Terezinha!” (2009). Mas “Titãs – A vida até parece uma festa” (2009) é esquecível!

Noite de pré em Salvador (Foto: Genilson Coutinho)

Fiquei com muita relutância para ir ao cinema conferir o filme do Chico K, primeiro porque achei que seria mais uma homenagem “labe-botas” aos 30 anos do axé, comemorados em 2015, onde quase sempre a mídia provinciana e patética coloca os artistas num patamar de semideuses, ovacionados por um passado distante, com seus egos inflamados e com suas músicas que, infelizmente, não tocam mais nas rádios. Segundo porque além de detestar homenagens encomendadas, sou avesso às formalidades típicas do meio: publique-se, apareça na mídia e receba o título do gostoso da vez. Mas queimei a minha língua!

O documentário é muito bom! Bem editado, bem roteirizado, corrosivo em momentos certos, dialoga bem com o público e mostra até algumas tretas que aconteceram com algumas estrelinhas locais, mas em nenhum momento cansa com o didatismo muito comum nestas produções. Com dois anos de pesquisa, filmagem e edição, o filme acompanha a trajetória da música do carnaval de Salvador, que ganhou o país e o mundo a partir de 1985, mas que nos últimos anos passou a ser apenas mais um espaço na mídia para fabricar estrelinhas sem talento com suas músicas ordinárias.

A GÊNESIS – A obra começa com a clássica música “Baianidade nagô”, originalmente gravada pela extinta Banda Mel, interpretada aqui pela musa Ivete Sangalo, dando um ar saudosista e sentimental à abertura com cenas dos carnavais dos anos 70/80 — e que, em pouco mais de dez anos, chegaria ao auge de popularidade capaz de elevar o Brasil ao posto de um dos maiores mercados de música do mundo — dando início a uma história que o Chico K optou por lançar seu filme próximo ao carnaval que, segundo ele, “para aproveitar o clima”: “A primeira versão tinha três horas e meia de duração. Foi dolorido, muito difícil mesmo eliminar cenas”, disse o diretor. Será que o diretor vai optar em colocar esse matérial todo nos extras do DVD?

O filme reúne várias entrevistas e imagens de arquivos para revelar alguns detalhes que determinaram o nascimento do movimento musical mais duradouro do país e que se tornou referência para artistas do mundo todo. Michael Jackson, Spike Lee, Paul Simon, Alanis Morissette, Leonardo DiCaprio, Pedro Almodóvar e até o grupo U2 já passaram por aqui para conferir o ritmo que por longos anos dominou a indústria fonográfica. E embora a sua paternidade ainda seja motivo de incontáveis discussões, até mesmo no meio acadêmico (*mesmo que muitos professores universitários evitem lhe conferir o devido valor – fazer mestrado na UFBA ultilizando esse tema é uma coisa impensável!), o gênero ficaria conhecido como axé em 1985, com a música “Fricote”, aquela que hoje em dia é considerada por muitos fiscais do policiamento correto como racista (“Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear…”), do cantor, compositor, multi-instrumentista e rei da simpátia Luiz Caldas – um músico de mão cheia que mistura desde reggae, ijexá, frevo, samba, rock, dance, forró e latinidades diversas numa receita que já chamava a atenção, lá no começo dos anos 1980 (*baixe aqui seus vários CDs originais: http://www.luizcaldas.com.br/), ao lado de outra futura estrela do axé — o percussionista Carlinhos Brown — no grupo Acordes Verdes.

Foto: Genilson Coutinho

A chegada de “Fricote” ao público do Rio-São Paulo, com a inevitável ajudinha do programa do Chacrinha, mesmo com todo o ranço de casa grande e cenzala inicial, movimentou ainda mais a cena musical de Salvador,  que orbitava em torno do estúdio do antenado produtor Wesley Rangel e que fervilhava com os blocos afro e cantores como Gerônimo (das canções “É d’Oxum” e “Eu sou negão”) e Moraes Moreira. E logo, outros nomes — como a cantora Sarajane, aquela da música “Vamos abrir a roda, enlarguecer…”, um dos muitos hits que atravessam o filme, além de Margareth Menezes e Daniela Mercury — fariam as suas passagens para um mainstream da MPB levando cor, sensualidade, personalidade, afrodescendência e muito ritmo à programação das grandes emissoras.

E depois daqueles efervecentes e criativos anos 80 em que o grande vendedor de discos foi a Banda Reflexu’s, criada para ovacionar na bateria o som dos tambores do Olodum (especialmente com o hit “Madagascar Olodum”), o axé entrou em nova fase. Em 1992, foi a vez de la Mercury (que Vovô do Ilê chama no filme de “a branquinha mais pretinha da Bahia” – que tempos depois, uma determinada cantora que tudo copia se apoderou do termo) chegar ao estrelato, marcado por um show antológico no vão livre do MASP que parou a Avenida Paulista e ameaçou as estruturas do prédio. O filme faz questão de mostrar cenas dessa ocasião, com um bocadão de humor, tirando risos da platéia. Mas após o Olodum gravar com Paul Simon e se apresentar com o americano no Central Park, em Nova York, nos anos 1990, foi Daniela quem levou o axé para uma excursão pelo exterior.

Banda Reflexus/Foto : Reprodução/WEB

Depois de la Mercury, viriam ainda a consagração do ex-cantor da Banda Beijo Netinho (da chiclete “Milla”, música onipresente nos anos de 97/98), do samba de roda do Recôncavo turbinado de duplo sentido do É o Tchan/Gera Samba, além da ex-vocalista da Banda Eva e estrela maior surgida no axé, Ivete Sangalo. Mas várias outras personas desfilam pela tela, desde Caetano e Gil, a talentosa e toda argumentativa Márcia Short (que eu já tive a honra de entrevistar – confira aqui:  até Lazzo, Laurinha, Araketu, Asa de Águia, Bell Marques, Chiclete com Banana (*no filme os músicos não explicaram direito o motivo do grupo ter acabado), Marcio Victor, Ricardo Chaves, Terrasamba, Timbalada e Xandy, além de produtores, empresários, jornalistas, músicos e até o maravilhoso escritor Roberto Sant’Anna, que comentam o surgimento e a trajetória dos artistas que foram campeões de vendas de discos e apresentações de shows, em depoimentos exclusivamente tomados para o filme e cenas de arquivo que remontam desde os 1950, quando Dodô e Osmar energizaram o carnaval ao inventarem o trio elétrico.

AS TRETAS – Ao contrário da medíocre imprensa baiana que nunca valoriza os verdadeiros e necessários talentos locais, se resguardando em patrocinar o mais do mesmo de sempre em suas matérias encomendas e regadas a bajulações, o documentário “Axé, canto do povo de um lugar” não foge, nem de longe, porém, de relatar passagens pouco abonadoras, como a do pagamento de jabá nas rádios e tevês locais. Artistas, produtores, radialistas e empresários ajudam a desvendar um pouco da história subterrânea do axé, com revelações nada honrosas, como aquela em que um determinado empresário do axé pagou para as rádios não tocarem o então recém-lançado disco solo da Márcia Freire. O documentário também faz questão de não deixa passar batido a decadência comercial do movimento a partir dos anos 2000. Seja por seu caráter extrativista, pela visão mercenária dos empresários e donos de blocos ou pela desunião total de seus artistas. Em uma das cenas mais enigmáticas do longa, a cantora Ivete é questinada sobre este assunto e se faz de desentendida: “Alguém lhe disse que não existe união? Eu não estou sabendo disso! Pelo menos comigo, isso nunca aconteceu!”, disse a musa onipresente.

Daniela e Márcia (Foto: Genilson Coutinho)

Em suma, é inegável constatarmos a importância do axé para os Movimentos Negros, para a sua autoafirmação, mesmo sabendo que Salvador continua sendo uma cidade atrasada, provinciana e racista. A cena onde um músico relata que nos anos 70/80 a polícia pegava qualquer um (leia-se negro) nas ruas que estivesse com o cabelo grande ou rastafari e levava-o para uma delegacia para raspar o cabelo é impactante, mesmo sabendo que hoje em dia a polícia não faz mais isso, pois simplesmente essa polícia racista, mal paga, mal formada da Bahia e que, na sua maioria é composta também de pretos, mata os igualmente pretos e pobres das favelas! Em vários momentos a platéia manifesta a sua aprovação com relação ao que está sendo dito na tela através de aplausos, gritinhos e muito choro, o que mostra a total aprovação e veracidade dos fatos.

Porém, achei que o documentário deveria ter abordado mais a origem da palavra axé que é ligada ao candomblé que até hoje é vítima de preconceito religioso, principalmente por certas igrejas evangélicas ignorantes, e que até mesmo na evolução da indústria fonográfica do axé-music – com os problemas que tem acarretado a cantores, compositores e poetas de menos visibilidade – são debates que foram apenas pincelados durante o longa. Um entrevistado até buscou trazer tais questões à tona, porém não houve aprofundamento, sendo no geral apenas utilizadas frases soltas e pontuações rasas. Talvez a direção pudesse ter usado argumentos mais gabaritados de gente como os professores Bira Gordo, Albergaria, Aninha Franco ou Antônio Risério. Contudo, entendemos que tal problema é muito comum em filmes assim, não desmerecendo a sua qualidade em nenhum momento, vale ressaltar, mas a produção se deixa levar muito pelas falas dos artistas, e quando não há grande vontade de reflexão crítica nos entrevistados, o longa acaba caindo em um vazio fútil com cenas de gente rebolando e balançando mamãe-sacode, se tornando raso nos aspectos que envolvem algo mais além de uma narrativa histórica do axé-music.

Daniela Mercury , Beijinho e Caetano presentes na pré estreia em Salvador (Foto: Genilson Coutinho)

O problema de “Axé, canto do povo de um lugar” talvez já fosse revelado logo no início do longa: “Quem é o pai do axé?”. Não ficou claro entender “de onde surgiu” ou “qual foi o impacto social” deste movimento na vida diária de Salvador, mas sim de compreender qual é o artista que deu o pontapé inicial para a disseminação desse gênero musical e fazê-lo se tornar o que ele é hoje. Foi o Luiz Caldas? O Dodô e Osmar? Os Novos Baianos? A Daniela? Fica a pergunta no ar! Mas o filme chega ao fim com apenas um astro da nova geração em pleno brilho: o cantor Saulo Fernandes, mesmo com aquelas suas mortalhas fora de moda. Aquela cena final, filmada no Parque da Cidade, com o povo todo em extâse ficou linda! Acreditamos que o axé ainda tenha um sopro de competência, embora nas últimas semanas, um tal MC Beijinho, misturando funk, uma letra boba e batidas do Olodum na música “Me libera nega”, tenha sido fabricado como uma nova promessa. Outra coisa, a participação da Claudia Leitte poderia ter sido substituída por gente mais interessante como Felipe Scanduras, Magary Lord, Adelmo Casé, Denny ou talvez Jau, pois esses são artistas de verdade. Mas rever a apresentadora Tia Arilma e ficar o tempo todo me bulindo na poltrona ao som dos velhos carnavais não teve preço! Contínuo não gostando do atual carnaval de Salvador, mas, depois deste filme, passei a ouvir mais as antigas canções. E, no final, deixamos o cinema com uma louca vontade de comprar ou baixar de graça a trilha sonora, entrar em algum bloquinho de pegação só para passear no Pelourinho de mãos dadas e comer um acarajé cheio de pimenta. Vida longa ao ABB, Axé Bom da Bahia!

Márcia e Saulo (Foto: Genilson Coutinho(

Elenilson Nascimento é escritor, jornalista, blogueiro, colunista do Cabine Cultural, Tribuna de Minas e Literaturart. Contato: @Elenilson_N

  • Daniel Santos

    CLAUDIA LEITE TEM QUE SER LEMBRADA TAMBEM,PORQUE ELA É UMA ARTISTA, UMA CANTORA, PUXA TRIO ASSIM COMO OS OUTROS, CANTA AXÉ COMO OS OUTROS CANTAM, LEVA O SOM DE SALVADOR COMO TODOS OS OUTROS CITADOS NO DOCUMENTÁRIO FAZEM, MOVIMENTA O CARNAVAL DE SALVADOR, POIS AS SÃO INFINITO O NUMERO DE PESSOAS QUE ACOMPANHAM SEU BLOCO, TRAZENDO MOVIMENTO DE CAPITAL PARA A CIDADE. ENTÃO PORQUE NÃO O NOME DELA? OS OUTROS QUE VOCÊ CITOU EM SUBSTITUIÇÃO QUE BUSQUEM SEU LUGAR A SOL, APESAR DESSES NÃO ESTAREM NO DOCUMENTARIO, SÃO ARTISTA MARAVILHOSOS E MERECEM ATENÇÃO!