Jornalista baiano relata sua chegada à Paris em tempos de covid19

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21 de março de 2020
por Genilson Coutinho
Rafael dos Anjos
(Jornalista e Social media)

Se você acha que vir a Paris é uma experiência fenomenal, eu também achei até me esbarrar no #CoronaVirus. Não quero me precipitar ao fazer avaliações, por isso vou começar do começo.

Meu marido e eu viemos morar em Paris por 1 ano. Cada um com seus objetivos profissionais e um objetivo pessoal em comum. Muitas medidas foram tomadas até chegarmos aqui, dentre elas estava a situação de nossa filha, Mel – uma poodle recém castrada que ficou com meus pais – vender todos os nossos móveis e entregar o apartamento em tempo hábil.

Concluído esses passos, já de passagens e vistos em mãos, pegamos o avião da TAP Air Portugal para uma conexão em Lisboa. Foi aí que as fichas começaram a cair…

O aeroporto estava cheio, apesar de todo o caos que vínhamos acompanhando pela TV brasileira, mas ao mesmo tempo muita gente usava máscaras, passavam álcool sobre toda superfície possível e rapidamente entramos no mesmo clima. Menos de 50ml de álcool gel que trazia da bolsa e fuga para qualquer direção quando aparecia um idoso espirrando ou tossindo pelo caminho.

No avião as coisas foram mais estranhas, especialmente para mim que nunca tinha entrado num bicho tão grande e onde a maioria dos passageiros, europeus, assoando os narizes sem o menor pudor, além de espirros e tosses frequentes. Para um virginiano como eu, era o fim! “Estamos numa bolha onde acontecia uma festinha do coronavírus ao som de sua trilha oficial na voz da Cardi B”.

Finalmente descemos no aeroporto francês de Orly e pensei: “Finalement! Louvre, Torre Eiffel…” Fomos recebidos por um casal de amigos do Marco com mais notícias do coronavírus. Contudo, as coisas pareciam sob controle e seguimos com eles para uma hospedagem agradabilíssima em Argenteuil.

Ruas de Argenteuil (Foto: Rafael dos Anjos)

Dali iniciou-se a próxima etapa desse processo: encontrar a nossa casa! Havia uma em vista, muitas complicações e exigências. Ao mesmo tempo o noticiário francês começava a mudar o tom sobre a pandemia e tudo culminou com o pronunciamento do presidente Emmanuel Macron.

Começaria em 48h um confinamento em toda a França e as pessoas deveriam ir/ficar em seus domicílios até o fim da “quarentena”. Como tudo até este momento, nossa viagem foi feita de gratas surpresas – exceto pelo vírus! Naquele instante já tínhamos visitado o imóvel e a mudança que aconteceria no dia seguinte, foi feita na madrugada como numa fuga durante a guerra. 

Aliás, para mim que NUNCA tinha colocado os pés na Europa, me ver naquela cena, cheio de malas, roupas de frio, “fumacinha” saindo da boca a cada expiração, gorro na cabeça e pessoas com vestimenta semelhante andando na mesma direção, parecia muito com aqueles filmes sobre holocausto, apocalipse zumbi e afins.

Entrar no apartamento mobiliado (studio mueblé), limpar tudo, organizar e passar o primeiro café b-r-a-s-i-l-e-i-r-o [merci, Irene] foi como soltar o ar pela primeira vez depois de várias cenas de um bom filme de ação no cinema. Gravado em Paris, é claro! 😉

Bem instalados, com WI-FI, mobília, TV a cabo, comida e muita guloseima que está me fazendo ganhar 1kg por dia, começamos finalmente o tal isolamento.

Aqui do meu notebook, numa situação que ainda parece um filme, vou contar como tem sido esses dias, as determinações do governo francês sobre o direito de ir e vir, as estratégias de sobrevivência em meio ao tédio e as minhas reflexões a respeito dos impactos sociais do coronavírus aqui e no Brasil.
Foto da capa :  © rfi/Miguel Martins

Rafael dos Anjos

Jornalista e especialista em mídias sociais

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