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Moda não é para os feios? Que horror!


O mundo da moda, em se tratando de negócios pelo menos, definitivamente não é ainda o mundo dos feios. O que estou querendo dizer sem muitas firulas e sem o aposto é que o concorrido mundo da moda não é o mundo para os feios. A discussão do que vem a ser feio ou bonito ou quem inventou um padrão de beleza para os modelos, são questões de ética que esbarram simplesmente no que se convencionou chamar de estética, então tomemos como mote a questão e esqueçamos a filosofia e o resto deixemos como assunto para os acadêmicos ou ainda para nós mesmos, sentados numa mesa de bar regado a uma bebida gelada.

Explico: como aqui não temos nenhum filósofo e sim um boêmio, metido a entendedor de moda, escrevendo essa coluna, tomo como pretexto para provocação o lançamento de uma coleção de roupas a que fui recentemente para a temporada outono-inverno (atrasada!) e de onde saí muito mais intrigado pelo que não vi do que pelo vi.

Comecemos pelo que vi. A coleção se pretende uma alternativa para a vestimenta de pessoas interessadas em uma roupa fora do padrão em Salvador. O estilista só se esqueceu de avisar que o fora do padrão era em relação ao material e não ao corte ou ao estilo e assim optou por usar em todas as criações toalhas de banho como tecido. Então, era um entra e sai de modelos vestindo calças, bermudas, vestidos e até a entrada da noiva, o momento ápice foi invertido, a modelo entrou logo no início, trajando um vestido de noiva confeccionado em toalha de banho.

Gostei da inversão vendo a noiva adentrar saracoteante, mas prestei mais atenção na criatura do que no traje. Outra derrapagem (ou seria esquecimento talvez?) do estilista é de que a cidade do São Salvador possui um clima invariavelmente quente ou então por uma aposta mais do que arriscada, estava prevendo as enormes chuvas que em seguida desabariam sobre a cidade e antevendo que os soteropolitanos se molhariam como nunca dantes na história da metrópole, resolveu vestir-lhes com toalhas.
Toalha é quente, colada ao corpo então, ela ferve, seja no verão ou no inverno ameno que possuímos, o que leva a crer que essa coleção não foi desenhada pensando nos baianos e esse desfile deveria ser mostrado na Sibéria ou em Estocolmo. Estou exagerando? Mas não, foi aqui mesmo, ali bem pertinho no teatro Gamboa.

O estilista Rino Carvalho, supercompetente figurinista do meio teatral, resolveu aventurar-se no mundo dos negócios lançando uma grife e um site para a venda dos seus produtos e fez o lançamento do seu trabalho batizando-o de Segunda Feira: Plano B.
Entre a intenção e o resultado muitos panos se deram para mangas e o que não vimos começo a listar. Em conversa anterior com o estilista apurei que a intenção era criar roupas que qualquer pessoa pudesse vestir. Ledo engano, as muitas feias enroladas em vestidos de toalhas só acentuariam ainda mais a sua feiúra, as gordinhas então, coitadas...

Não estou sendo apenas irônico ou sarcástico, estou sendo categórico, as toalhas acentuavam todos os quilinhos a mais de quem desfilava e não havia ninguém entre as mulheres com mais de 60 quilos desfilando. Eu escrevi acima que eram modelos? Agora me corrijo. Havia um ou dois modelos de fato, os demais eram atores ou aspirantes a atores, alguns imitando o andamento dos modelos consagrados, outros tímidos, outros espalhafatosos. Não há nenhum demérito ou novidade em usar não modelos e pessoas comuns sem muitos atrativos em desfiles, isso já foi explorado antes pelo mundo afora, inclusive na Bahia, mas com mais unidade e preparação.

A abertura do desfile com todos de preto, segurando enormes guarda-chuvas pretos na mãos e com caras de figurantes de filme B foi até bem intencionado, mas não logrou resultado. Tudo na performance parecia datado, um indício do que estava por vir.
Estampas de oncinhas, figuras de Disney, animais selvagens, bandeiras de times de futebol, bonecas Barbie, tradicionalmente usados em toalhas de segunda categoria foram aproveitados para compor as estampas da alternativa coleção. Se a intenção era provocar somente o riso, logrou êxito.

Um dos aspirantes a ator desfilava pensando ser um ventilador, com a cabeça girando em 90° graus numa mistura de robô desgovernado com cara de “sou bonito, sou exótico, me perdoem por estar aqui” que beirava o patético e pior que isso, provocava menos risada e mais piedade.

Salvaram-se um negro belíssimo com porte e padrão de modelo e uma atriz branca e magra com uma charmosa cicatriz na face e ainda assim lindíssima e cheia de atitude. Esses dois vendiam o produto e valorizariam qualquer peça que vestiam, fazendo os olhos do público perceber seus corpos e suas expressões ou ainda a falta delas e concentrando-se no que eles vestiam.
Só que o que eles vestiam não os ajudavam em suas boas intenções. As peças não trazem nenhuma novidade, além do já citado material, os cortes são convencionais, aqui e ali um traçado diferente, mas aos olhos de quem entende um fiapo de moda, nada de alternativo como o nome do trabalho sugere. Nada de diferença. Apenas excesso. De plano B, um enorme desconforto. O que é uma pena em se tratando de um artista e criador tão talentoso.

Já a travesti Suzy de Costa e também miss Bahia gay 2008, que se vestiu de noiva, se safou do pretensioso show de moda com bastante savoir fair, deixando uma lição para o estilista e para todos nós. É melhor ser o que somos e fazer bem o que fazemos do que se lançar pretensiosamente numa empreitada comercial revelando justamente em nossas intenções as nossas imperfeições porque se eu não disse no começo, o mundo da moda é cruel e não perdoa. Parodiando Vinicius de Morais, o estilista que me perdoe, mas o Segunda Feira Plano B precisa entender que beleza nesse mundinho fashion ainda é fundamental.

E eu estou falando da ausência de beleza mostrada nas peças, nas roupas, nos acessórios, as cuecas vestidas por homens e mulheres por exemplo, eram até interessantes do ponto de vista das estampas, mas o corte mal feito criando um bolsão na frente, deixavam as mulheres com um volume digno do roludo ator pornô Kid Bengala, já nos homens criavam em alguns o constrangedor embaraço de esconder a bunda e ainda o volume na frente. Errar no corte de roupa de baixo, vamos admitir, é pedir a cabeça da costureira ou sugerir uma matrícula num curso do Senac.

Antes de terminar, vale ressaltar que o melhor de tudo no freak show de moda exibido há pouco no delicioso teatrinho Gamboa foi a trilha sonora, ao vivo, com o duo de música eletrônica, nujazz, drum bass, nem arrisco a classificar mais, formado pela cantora Reis e o multimúsico Aldo Brizzi. Dêem uma escutada no Myspace da dupla e boa música.
http://www.myspace.com/aldobrizzi
Por Jiullec La Douc
Italiana radica na Bahia há mais de 20 anos e amante do mundo da Moda

 

 

 


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