iDisconnect Por João Barreto

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21 de novembro de 2011
por Genilson Coutinho

Há uma inquietude em todos nós. É uma inquietude pelo novo, pelo diferente. Naturalmente, não serve qualquer diferente. Essa inquietude não nos aproxima do que é grotesco ou bizarro. Ela nos chama para o que é único e, aparentemente, unívoco. Mas, me parece que novidades dessa natureza não são coisas, não são objetos.

Certamente, a novidade não é um Santo Graal inalcançável. Novidade é, a meu ver, um jeito de sentir. E, às vezes, não é preciso dar uma de Marco Polo e dar a volta ao globo para alcançar novidades dessa natureza. Às vezes, basta olhar para o próprio quintal. E, por quintal, entenda o interior da Bahia.

Feriadão é época de viajar e no último feriadão viajei com o namorado justamente para o nosso quintal. Fomos a um Hotel Fazenda a 12 km do município de Brejões, interior da Bahia, chamado CaféClub. O lugar é lindo e o hotel é gay friendly, de alto padrão, mantido por um alemão e um brasileiro. Vale dizer que o lugar é gay friendly o bastante para ostentar a bandeira do árco-íris na entrada da Casa Grande. Fundado em uma antiga fazenda cafeicultora, como me disse um dos proprietários, é o lugar ideal para desligar-se do mundo para ser capaz de reconectar-se ao mundo na volta à cidade grande.

Nós somos criaturas sociais. Nós temos uma natureza social e, em um passado não muito distante, decidimos que preferíamos viver em grupos. Quanto maiores os grupos, melhor, especularam os nossos ancestrais peludos. Os ursos não, os macacos mesmo. Decidimos também que a vida em grupo traria mais benefícios do que desvantagens. E se você acha que a vida em sociedade é só flores e cultura, pense em mim durante o próximo engarrafamento, seja ele causado por chuva ou excesso de veículos nas vias estreitas da urbe, ou na próxima vez em que discutir com o seu vizinho por causa de volume daquela música gostosa que ele está escutando às 22h30.

Enfim, nossa natureza é social e os agrupamentos os quais nós nos orgulhamos em manter – as cidades – geralmente congregam prosperidade. A cidade é o mundo, já diziam os romanos. E, já que inventamos esse mundo, pudemos transitar entre lugares mais habitados e lugares menos habitados. Ou seja, pudemos tirar férias no campo.

Assim, fomos para o hotel dentro do vale, sem eletricidade, sem telefone tocando e sem ter que checar email de cinco em cinco minutos. Pudemos dormir em silêncio e pudemos ouvir ruídos rurais na noite – uma grande orgia de sapos gritando feito loucos noite adentro e outros animais selvagens. Pudemos fazer trilha e, longe da civilização, encontrar a sofisticação da civilização na cozinha alemã miscigenada com temperos brazucas do Café Club.

De quebra, no primeiro dia, a chuva que nos seguiu da capital ao interior deu um trégua na hora em que a lua cheia atravessou os limites do vale e subiu por trás da mata de pinheiros. Para quem não sabe, no interior da Bahia faz frio e pegamos temperaturas que variaram de 14-15ºC. Houve noites nubladas frias e noites mornas com todas as constelações visíveis até os limites dos muros que pedra que fechavam o vale e produziam cachoeiras nas cercanias do hotel.

Termino esta coluna atípica porque não só de trabalho duro e política vive o homem, com José Saramago, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que me ensinou tempos atrás uma lição humanista muito interessante: as nossas experiências constroem a nossa civilidade e, embora seja impossível, algumas experiências gostariamos de lembrá-las enquanto estivermos vivos.

Divido abaixo:

“Certos momentos há da vida que deviam ficar fixados, protegidos do tempo, não apenas consignados, por exemplo, neste evangelho, ou em pintura, ou modernamente em foto, cine e vídeo, o que interessava mesmo era que o próprio que os viveu ou tinha feito viver pudesse permanecer para todo o sempre à vista dos seus vindouros, como seria, neste dia de hoje, irmos daqui até Jerusalém para vermos, com os nossos olhos visto, este rapazito, Jesus filho de José, enroladinho na curta manta de pobre, a olhar as casas de Jerusalém e a dar graças ao Senhor por não ter sido ainda desta vez que perdeu a alma. Estando a sua vida no princípio, que são treze anos, é de prever que o futuro lhe haja reservado horas mais alegres ou tristes que esta, mais felizes ou desgraçadas, mais amenas ou trágicas, mas este é o instante que escolheríamos para nós, a cidade adormecida, o sol parado, a luz intangível, um rapazinho a olhar as casas, enrolado numa manta e com um alforge aos pés, e o mundo todo, o de perto e o de longe, suspenso, à espera. Não é possível, ele próprio já se moveu, o instante veio e passou, o tempo leva-nos até onde uma memória se inventa, foi assim, não foi assim, tudo é o que dissermos que foi.”

João Barreto – Jornalista

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.

witter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/