Ideologia de gênero é o que se faz desde sempre

Comportamento, Social
21 de abril de 2017
por Genilson Coutinho

Por Miguel Rios*

Começa já na ultrassonografia quando detecta os genitais. “É menino!” ou “É menina!”. Notícia dada, pai e mãe compram Transformers ou Barbies, decidem a cor do quarto, o nome, a sexualidade da criança. Imaginam como vai se portar, como vai se vestir, o destino que terá.

Desde cedo, a criança entra na linha montagem ideológica. Vai aprender que há brinquedos de menina e brinquedos de menino, que há comportamento de menina e comportamento de menino, que há roupa de menina e roupa de menino, que menino tem que namorar menina e menina tem que namorar menino, que menino tem que ter muitas namoradinhas e menina tem que sonhar em se casar e gerar filhos, que menino é para ser bravo, aventureiro e desafiador, e menina é para ser doce, frágil e caseira.

Uma ideologia de gênero condicionante, baseada no senso comum e na repetição de padrões. Foi assim com pai e mãe. Foi assim com avô e avó. Tem sido assim. Um rolo compressor.

Mas juram: o que vai doutrinar a criança é a escola debater sobre homossexualidade, bissexualidade e transexualidade. É informar que existem outras formas de ser e sentir fora da caixa azul e rosa. Que existem desde sempre, que a construção de preconceitos e opressões existe para que só um tipo seja tido como normal. Porque a defesa do normal é muito cara para quem quer se sentir correto e superior.

A escola perde direitos que lhe são óbvios: ampliar o conhecimento, desmentir inverdades, promover pluralidade. Esse é o real medo. De que haja a desdoutrinação. Algo que o conhecimento consegue ao estimular o raciocínio, o contraditório e o coerente. Faz-se o quê? “Vamos destruir o conhecimento. Essa coisa maligna enviada por Satã”.

Representantes da bancadas religiosas que entopem o Congresso marcham com rapidez até o Palácio do Planalto para pressionar Michel Temer. Que pressiona o ministro da Educação, Mendonça Filho, que já autoriza a retirada dos termos “orientação sexual” e “identidade de gênero” da Base Nacional Curricular. “Temer deu sinalização que nos apoia nesse sentido. Está somando conosco para defendermos a família brasileira”, Victório Galli, líder do PSC na Câmara.

Alegam que não é biológico, que é mera sociologia. Ainda não aprenderam o básico: a biologia sozinha não nos define. Somos humanos. Somos biopsicossociais. Somos complexos.

Marco Feliciano opinou: “Os pais podem descansar. O Estado não vai interferir na educação dos filhos”. Marco Feliciano dar pitaco em educação? Marco Feliciano que propôs o ensino do criacionismo como alternativa à Teoria da Evolução. Que crianças aprendam como possibilidade científica a humanidade ter surgido após um homem feito de barro e uma mulher feita de costela baterem um papo com uma cobra e comerem uma maçã.

O MEC alega que o documento “passou por ajustes finais de editoração/redação que identificaram redundâncias”. Deixaram lá arremedos como “pluralidade” e “convivência” e “diversidade”. Despiste. Lusco-fusco. Retirar “identidade de gênero” e “orientação sexual” é claro recuo diante da pressão. O combate a opressões e violências não pode ficar nas entrelinhas. Tem que estar ao Sol.

Crianças LGBTs sofrem nas escolas. Agredidas, abusadas e isoladas. Um bullying feroz e constante. Apelidos, empurrões, tocaias, volta pra casa chorando… um número incontável de violências. Pablo Vittar, cantora e performer, já relatou que levou sopa quente na cara na fila da merenda pelo simples fato de dar pinta. Grande incômodo, né?

Sabe a dificuldade de uma travesti terminar o ensino médio? Sabe o que ela passa? A chance de chegar à faculdade? O índice de evasão escolar é altíssimo. É insuportável permanecer. Depois a acusam de enveredar pela prostituição.

Aí está a real ideologia de gênero nas escolas. A que mói almas e esperanças.

“Se tiraram da base por redundância, é fácil resolver. Basta recolocar. São palavras que não fazem mal se estiverem redundantes. O que faz mal é retirá-las”, defendeu o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Idilvan Alencar. “Eu sempre recebo alunos com problemas por discriminação de orientação sexual. Agora vamos fazer de conta que isso não existe?”

Não é questão de redundâncias. É um projeto político. Um projeto conservador de poder. Doutrinar crianças para que obedeçam as regras religiosas e binárias em uma humanidade que é diversa. O projeto castrador e fracassado de blindar crianças da homo e da transexualidade as vestindo de azul e rosa, de super-herói e princesa.

*Miguel Rios é jornalista, recifense, militante LGBT e filho de Oxalá.