HQ autobiográfica desmistifica o amor entre portadores de HIV

AIDS em pauta, Comportamento, Social
19 de agosto de 2015
por Genilson Coutinho

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Anos 80. Surgimento e propagação da Aids. Relacionamentos fixos, como manter? Casais se desfizeram, amores estremeceram, vidas se interromperam. Três décadas depois, a Aids passou a ser um componente administrável. O quadrinista franco-suíço Frederik Peeters prova que sim, o amor pode superar o vírus HIV na sensível  graphic novel Pílulas Azuis (Nemo/R$ 40/208 páginas).

Não, não é fácil. Peeters que o diga. Afinal, o livro é autobiográfico e revela como a família dele tem lidado com a Aids nos últimos 13 anos. Frederick conta sua história ao lado da companheira, Cati, desde os primeiros encontros nas rodas de amigos até a revelação de que ela e seu filho (um menino de 4  anos, fruto de um relacionamento anterior) são soropositivos.

Foi um turbilhão na cabeça dele, como se vê nos quadrinhos ao lado. Do medo da perda até a aceitação de que poderia lidar com a situação.

Na trama, contada em texto muito objetivo e ainda assim muito humano, entram em cena todas as emoções contraditórias que o autor tem de aprender a gerenciar, como amor, piedade, raiva e compaixão, sem deixar de lançar algumas verdades duras sobre a vida do soropositivo, como o preconceito que sofre e o tratamento cada vez mais acessível.

 Amor

Premiado no prestigiado festival de Angoulême, Pílulas Azuis é, antes de tudo, uma sincera e comovente declaração de amor. Sem invadir demais a privacidade do casal, e ainda assim mais honesto do que se espera, o autor suíço vai revelando aos poucos os cuidados do relacionamento com uma pessoa soropostitiva.

Com o passar das páginas, o leitor vai tendo a certeza  de que o vírus HIV se torna mais um ente na relação, onipresente no dia a dia do casal. Em momentos, uma presença apavorante até mesmo para o apaixonado mais destemido.

Fragilizado, Peeters não teve coragem no início de revelar aos pais a condição de saúde de Cati. Hoje, claro, não é mais asssim. O trabalho de Peeters, autor das também premiadas HQs Aâma e Castelo de Areia, faz com que o leitor repense suas posições.

O mais bacana, no entanto, é que Pílulas Azuis não é um manifesto a favor de qualquer bandeira e não tem didatismos óbvios – a não ser os necessários, saídos da boca de um médico no início da obra. A ideia é, sobretudo, dar um testemunho sobre como a vida pode ser mais leve, apesar dos pianos que caem sobre nossa cabeça, de vez em quando.

Do Correio da Bahia