Gays criam time de futebol, reúnem fãs e confrontam exclusão

Comportamento, Social
13 de abril de 2017
por Genilson Coutinho

Em quase dois anos de existência, o Unicorns Futebol Clube, equipe amadora de São Paulo formada apenas por pessoas LBGTs, teve apenas uma grande crise. Foi quando um dos integrantes se chateou com o desempenho de um dos colega e disse que “futebol é coisa para macho”. Para o grupo, não é. É esporte para qualquer um.

Com cerca de 50 integrantes, o grupo defende valores distintos: 1) não precisa ser bom de bola, basta querer se divertir; 2) dar oportunidade e incentivo para gays que gostam de futebol, mas foram e são excluídos do esporte na escola ou em seus ambiente de trabalho; 3) ocupar um espaço social ainda basicamente dominado por homens heterossexuais. Para defender tudo isso, os “unicórnios”, como se chamam uns aos outros os jogadores, não se privam de jogar em uma quadra rodeada de outras instalações tomadas por times formados possivelmente por maioria hétero, no Ipiranga (zona sul).

Eles também não se policiam e trocam beijos a todo o tempo, exibem chuteiras estilizadas em cores reluzentes e soltam seus “arrasou veado!” ou ” você foi maravilhosa, bicha”, quando alguém faz um gol ou uma grande jogada, embora estereótipos não caibam no time.

Sem traumas “Demos um basta ao trauma de ser o último escolhido no time da escola, no bullying que sofremos por não jogarmos bem. O que predomina aqui é o espírito do unicórnio, que remete à diversão, a essa coisa nada a ver com um time convencional”, diz Bruno Hist, 29, diretor de arte. Na última quarta-feira (5), quando a reportagem acompanhou um dos treinos, seis novatos, com quase nenhuma experiência de jogo, entraram em quadra. Um deles era o engenheiro de produção Rafael Marini, 28. “Hoje em dia, é pouco provável que impeçam um gay de jogar entre héteros, mas sempre fica aquele clima de indireta sobre você, uma brincadeira pejorativa, uma piada, principalmente se fizer algo errado. Por isso achei essa iniciativa do time muito legal e saudável”, afirma. Eduardo Guzzardi, 32, um dos goleiros do Unicorns, representa bem o espírito de que muita habilidade em campo não é fundamental ao time. Suas saídas para a defesa eram um tanto exóticas, mas, vez ou outra, resolviam. “Não precisa ter um tipo físico específico para jogar. O nosso propósito é a diversão. Estamos abertos para todo o público LGBT, inclusive se alguém quiser jogar de salto alto, ninguém vai impedir”, diz.

URSÕES — O Unicorns já conta com torcida e fãs. Maridos e namorados dos jogadores também frequentam os treinamentos e jogos semanalmente. Eles se autoapelidaram de “bearleaders”, uma mistura de “cheerleader”, líderes de torcidas de times americanos com ursos, um tipo específico dentro da comunidade gay, que são pessoas mais parrudas, fortes ou barbudas. O gerente financeiro Daniel Lovizzaro, 36, não perde nenhuma partida do marido, o advogado Rodrigo Nascimento, 27. Ele entende a formação do time como uma “conquista de geração”.

“As novas gerações não têm ou não vão ter mais barreiras de gênero. Isso ajuda a entender porque não enfrentamos grandes problemas aqui neste universo que é basicamente de héteros. Às vezes alguns olham feio, fazem uma piadinha, mas nada fora dos limites. Sermos muitos também ajuda. Quem vai encarar todas nós?”, brinca.

O sucesso da equipe tem sido tão grande que já há conversas com times LGBTs da Argentina e do México para, no futuro, tentarem fazer uma Copa América Gay. “Tivemos uma experiência ruim de jogar contra um time hétero certa vez. O problema é que eles ficaram tensos e agressivos porque seria, na cabeça deles, uma vergonha perder para gays. O clima não foi bom e gerou uma rivalidade boba. Então, por enquanto, jogamos entre nós”, conta o advogado Filipe Marquezin, 31, líder do grupo.

Ele diz em gargalhadas que a única exigência que o Unicorns faz de seu atletas é “não falar mal da Madonna”. A página para se inscrever e jogar no time é facebook.com/unicornsoficial.