Garotos de Programa:”Tenho vontade de estrangular os homens com quem deito”

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29 de outubro de 2012
por Genilson Coutinho


São 16hs de quinta-feira e o moreno Bruno S., de 20 anos, começa a se preparar para curtir a noite de São Paulo. De regata branca, calça justa e gel no cabelo, o jovem deixa o flat em que divide com quatro rapazes. Às 17h30, está no parque Trianon, na região da Avenida Paulista, ao lado de dois de seus colegas de quarto. Com o pênis já enrijecido, não demora a ser abordado pelo primeiro cliente. Bruno é um garoto de programa.
As ruas, saunas, baladas e sites estão tomados por eles. Os corpos, perfis e preços são distintos, assim como quem os procura – novos, velhos, gays assumidos e casados com mulheres. Apesar da visibilidade dos profissionais do sexo masculino ser cada vez maior, suas histórias ainda são invisíveis, repletas de dúvidas, mitos, medos e estereótipos.
Na mídia, foram raras às vezes em que reportagens e obras de ficção conseguiram retratar as experiências e pensamentos dos chamados “boys” ou “michês”. Um bom exemplo ocorreu na novela “Fina Estampa” (Rede Globo), que simplesmente mudou o destino do garoto de programa Leandro, interpretado por Rodrigo Simas. Após notar o espanto do telespectador – o mesmo que rejeita o beijo gay – Aguinaldo Silva decidiu que ele seria lutador de MMA.
“Como se fosse fácil e não existisse nenhum problema para sair disso, né?”, desabafou o carioca Thiago, de 19 anos, que assistia a um capítulo numa sauna de São Paulo. “Depois de ver o dinheiro no seu bolso, rápido, você não quer saber de esperar um mês inteiro para ganhar uma mixaria”.
SÓ PAGANDO!
– Arthur, tudo bem?

– Tudo. Quem é?

– Sou jornalista e escrevo uma reportagem sobre homens acompanhantes e…
– E quanto é o cachê? Se não tiver, não quero.

Foram mais de 40 telefonemas para profissionais cadastrados em sites destinados a programas, três abordagens no Trianon e cinco em saunas gays. Deles, 35 declararam que só topariam mediante pagamento de um cachê, que giraria em torno de um programa – 80 a 200 reais – os demais simplesmente desligaram o telefone ou ignoraram ao saber o propósito da abordagem.
“Pensam que queremos tirar proveito de tudo. E essa… É uma realidade (risos). O único propósito de estar ali é o dinheiro, só. Até existe a excitação do proibido, mas duvido que um boy se sujeitasse a trepar com viado sem que a questão financeira não estivesse em primeiro lugar. Falo isso daqueles que são héteros”, defende o baiano Carlão, de 35 anos.
Casado com uma mulher, que não sabe de sua profissão alternativa, Carlão passa temporadas em um hotelzinho no centro de São Paulo. E garante: atende somente executivos de fino trato. O motivo seria seu dote de 27 cm, que estampou até revistas internacionais. “É uma Coca-Cola de 2 litros”, gaba-se.
10 BANHOS
Com olhos azuis e cabeça raspada, o jovem Thiago A. faz a linha ninfeto em saunas e atendimentos a domicílio. A primeira experiência ocorreu há um ano e, embora já superada, rendeu momentos de sofrimento: “Me senti sujo, agredido, tive vergonha. Só entrei nessa porque minha família estava passando apuros, sem gás, sem comida na geladeira, uma situação bem tensa. Como já havia tido propostas, resolvi fazer. Mas minha família pensa que sou modelo”, explicou.
Rômulo, de 24, revela que o primeiro programa ocorreu em uma das maiores baladas de São Paulo, em 2009. Com corpo malhado, definido e sob efeito de drogas (ectasy e muita bebida alcóolica), ele despertou a atenção de um executivo, que o abordou no camarote e ofereceu dinheiro para uma noite a sós. “Não aceitei, mas daí ele foi aumentando a proposta. Não aceitei, e ele aumentando… Meu, quem ganha mais de mil reais em um dia?”, questiona o jovem, que aceitou a proposta e teve sua primeira experiência homossexual.
Para ele e Thiago, que se dizem heterossexuais, a maior agressão é sujeitar-se a trocar intimidade com pessoas por quem nunca teriam atração, a não ser pelo dinheiro e estimuladores sexuais. “Tomei uns 10 banhos para tirar o cheiro e o gosto do primeiro cliente. Talvez a sensação seja a mesma de forçar um gay a beijar 20 mulheres e transar com uma várias vezes”, compara Thiago. “Garanto que a sensação não é muito agradável”, define Rômulo.
Já Bruno diz que o pior da profissão, encarado por ele até como “humilhação”, ocorre dentro das saunas. “As mariconas (homens velhos) ficam passando a mão, te bolinando, mas depois desconversam e não querem fazer o programa: ‘Acabei de chegar, volto depois’. Dá vontade de bater”, confessa.
“TENHO VONTADE DE ESTRANGULHAR CADA HOMEM QUE EU DEITO”
Na rua, todavia, ele diz que os pontos negativos giram em torno da exposição, drogas e falta de segurança. “Mas já estou vacinado e tenho minhas manhas para me proteger”, limita-se a dizer.
Mas não existem gays entre os profissionais do sexo? “Claro que tem, muitos no armário, fazendo pose de machão, mas parece que os próprios viados preferem quem fala que é hétero. Então, se você fala que é hétero, diz que não costuma fazer sexo anal, isso vai mexendo com a fantasia deles”, explica Rômulo. “Entre nós, garotos de programa, existe uma cumplicidade: cada um respeita seu espaço”.
“SE ENCONTRAR UM CLIENTE NA RUA, NÃO CUMPRIMENTO”
Garantir a masculinidade é uma necessidade constante dos garotos de programa. Muitos depreciam os clientes – “aquele velho só queria que eu batesse nele, nem rolou penetração. É um viado escroto”, declarou um profissional da sauna – outros fazem questão de frisar que são 100% heterossexuais e tem até aqueles que demonstram nutrir uma pitada de homofobia. Talvez para se livrarem do fardo e do preconceito que a comunidade LGBT carrega e explicar sua imersão nesse mundo.
Ao falar sobre o que pensam de quem paga por sexo, as opiniões se dividem. “Não vejo o rosto, idade, nem corpo, vejo o quanto ele está me pagando”, disse Bruno. “Com os mais frequentes, eu acabo trocando uma ideia, sabendo um pouco mais da vida. Mas a maioria, se eu encontrar na rua, nem cumprimento. É desagradável e acho que o próprio cliente não quer esse contato”, argumenta Thiago.

Já Carlão demonstra ter o pensamento e comportamento mais agressivo. “Tenho vontade de estrangular cada homem com quem eu deito. Sinto muita raiva desses viados velhos, mataria cada um, até dou umas porradas no programa. O problema é que a maioria gosta”, dispara. É por essas e outras que este universo é marcado por vários crimes contra homossexuais – de roubos, golpes, até assassinatos.
“TENHO EREÇÃO, NÃO PRAZER”
– Rômulo, qual foi a melhor transa da sua vida?
– Ah, não foi nos programas.
– Explica melhor.
– Rola ereção, mas não prazer. Duas, três relações por noite e a maioria sem gozar. Tudo com remédio, senão o pau não sobe.
– E isso não pode dar alguma complicação na sua vida sexual?
– Ainda não fui atrás para saber.
– Já pegou alguma doença?
– Graças a Deus, até hoje só fiz sexo com camisinha.
– E as namoradas?
– Tenho, mas ela não sabe e eu prefiro não comentar sobre isso.
Segundo os garotos, para quem se relaciona com eles, a profissão fica, na maioria das vezes, na clandestinidade. “Tenho três filhos e uma mulher maravilhosa lá na Bahia. Ela nem desconfia que eu faço programa em São Paulo, mas nem tem porque reclamar. Dou uma vida de rainha para ela e meus filhos, que não existiria se eu continuasse como segurança”, revela Carlão.
Thiago diz que após começar a trabalhar no ramo perdeu a namorada e a segurança de flertar com o público feminino. “Minha ex descobriu quando começaram a fazer fofocas. Nossa, me humilhou de uma maneira, falou tantas coisas para mim que até hoje eu não consigo mais chegar em mulher na balada, ficar, ter aquele jogo de sedução. Me sinto inseguro para falar com mulher e isso é muito sério”, desabafa.
“MEU SONHO É…”
Ao contrário da protagonista do filme “Uma Linda Mulher”, os boys não sonham em encontrar o amor de sua vida que os tiraria da profissão. Longe disso. Para Thiago, seu grande objetivo é conseguir um emprego confortável e poder falar sobre sua vida tranquilamente com seus familiares. Além de encontrar uma mulher e uma alternativa para apagar o passado.

Rômulo quer juntar dinheiro, comprar alguns imóveis e viver de renda. Bruno sonha em ser veterinário. E Carlão, o mais velho, se diz realizado em todos os sentidos: “Para mim é tranquilo trabalhar com isso. Tenho carro na garagem, casas e muito conforto”.
Ao serem questionados se pretendem deixar os programas, todos dizem que sim. Mas num futuro bem distante: “Ainda não sei. Talvez com uns 35, 40”, diz Bruno. “O dinheiro vem rápido, mas vai rápido também. Então vou demorar mais um pouco antes de parar”, declara Thiago. Sinal de que, embora a vida não seja fácil, ela tem os seus benefícios. Como em qualquer profissão.
Às 4hs da madrugada, Bruno volta do último programa, com 180 reais no bolso.
Matéria publicada originalmente na revista A Capa #54

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